Desvalorização do real favorece exportações e abre oportunidades de negócios, mas o comércio exterior só dá resultados consistentes se projeto for de longo prazo.

Como explicar que, em plena pandemia, os exportadores brasileiros de carne suína embolsaram receita superior a R$ 1,2 bilhão em maio, mais do que o dobro obtido no mesmo mês do ano passado em moeda brasileira? É certo que a forte demanda chinesa implicou em aumento do volume exportado de 53% em relação a maio de 2019, mas isso explica só uma parte do recorde histórico de faturamento registrado. Uma boa fatia dos ganhos tem origem na variação cambial. A cotação da moeda norte-americana aproximou-se dos R$ 6 em maio, potencializando os ganhos de empresas brasileiras que faturam em dólares. Na mesma altura do ano passado, a relação se aproximava de R$ 4 para US$ 1.

A desvalorização do real ao longo do ano chegou a um máximo de 47% em meados de maio, abrindo oportunidades para que alguns exportadores não tomassem conhecimento da crise ou, ao menos, compensassem parcialmente as vendas perdidas. “Os volumes exportados caíram, mas o dólar compensou a queda”, afirma Leonir Tesser, proprietário da Temasa, de Caçador, indústria de móveis que exporta 100% da produção.

O quadro geral das exportações catarinenses demonstra que a queda de receita, em dólares, no período entre janeiro e maio, foi de 11,3%, totalizando US$ 3,4 bilhões. Dado o tamanho da desvalorização do real no período, boa parte dos exportadores elevou as receitas em reais mesmo tendo exportado menos. Na mão inversa, para a indústria que depende de insumos importados, a depreciação do real implica em aumento de custos. Os principais produtos importados no período foram cobre refinado, polímeros para a indústria de plástico e fios sintéticos para a indústria têxtil – este último item teve queda de 30% no acumulado dos primeiros cinco meses do ano.

Como ocorre em períodos de mudança de patamar do câmbio que favorece as exportações, indústrias se voltam para oportunidades no exterior. Mas o câmbio pode ser muito volátil, e se ora está atraente para as exportações, logo pode não estar tanto assim. Basta observar o que ocorreu depois de maio, quando o dólar atingiu seu pico. Desde então a cotação recuou e passou a rondar os R$ 5,30. Fica a pergunta: para onde vai o dólar no segundo semestre?

Quem lida com cotações de moeda sabe que elas são imprevisíveis, então não é prudente cravar previsões nesta seara. Porém, em linhas gerais, consultorias especializadas não vislumbram a continuidade dos fatores internos de instabilidade que derreteram a moeda brasileira no primeiro semestre. Já o cenário de pandemia descontrolada, que aumentou a demanda pelo dólar no mundo e elevou o seu valor, deverá ser atenuado. Nesse contexto, há tendência de que o real se aprecie um pouco no segundo semestre, reduzindo a atratividade das exportações. Outros analistas, entretanto, apontam as eleições municipais e a possível continuidade da crise política como fatores de instabilidade a pressionar as cotações.

É por causa da incerteza e a volatilidade que o investimento em comércio exterior não pode ser decidido somente na roleta do câmbio. “Deve ser uma decisão estratégica da empresa, que tem que se preparar para atuar no mercado no longo prazo, buscando padrões internacionais de competitividade”, afirma Maria Teresa Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da FIESC. Ela lembra que o Brasil não possui política cambial e a cotação do dólar é uma somatória de variáveis externas e internas, ressaltando a importância de se buscar seguros contra a variação cambial e instrumentos como os adiantamentos de contratos de câmbio, oferecidos pelo sistema financeiro.

Dinheiro derretido

Moedas de países emergentes que mais se depreciaram em 2020 (até 16 de junho).

  • Real brasileiro: -23,2%
  • Rand sul-africano: -18,8%
  • Peso mexicano: -15,3%
  • Peso argentino: -14,0%
  • Lira turca: -13,0%
  • Peso colombiano: -12,6%
  • Rublo russo: -11,0%
  • Rupia indiana: -6,3%

Fonte: Bloomberg/Exame Research

Vertical | A Temasa é uma das empresas catarinenses que obteve sucesso em sua estratégia de internacionalização iniciada há quase 30 anos, pouco tempo após ser constituída. No meio do caminho enfrentou percalços, como a cotação do dólar por volta de R$ 1,50 em 2012. As exportações de móveis brasileiros despencaram no período, mas a empresa de Leonir Tesser foi no contrafluxo, investindo no aumento de produção para conquistar nacos do mercado deixados pela concorrência. O movimento foi possível graças à verticalização da produção e o consequente controle de custos, além de reservas financeiras acumuladas em períodos de câmbio favorável.

O dólar caro que hoje favorece a Temasa dá fôlego para a realização de uma série de adaptações às transformações do mercado. A companhia desenvolve e fabrica móveis para o nicho do it yourself, em que os próprios consumidores realizam a montagem. Os principais canais de distribuição são grandes redes europeias, sendo a Ikea a principal delas. Acontece que as encomendas desses lojistas recuaram, ao passo que as vendas por e-commerce na Europa e Estados Unidos mais do que dobraram. A mudança implicou em uma necessidade de ofertar maior diversidade de produtos em lotes menores. “Era uma tendência que já observávamos, mas que se acelerou com a pandemia”, diz Tesser.

Ao mesmo tempo que novas linhas de produtos são concebidas, o parque fabril é reprogramado. Nos últimos meses, o número de itens produzidos triplicou e cada lote passou de 1.200 peças, em média, para apenas 300 peças. A essência do negócio, entretanto, permanece a mesma, independentemente da taxa de câmbio. “Somos produtores de móveis muito focados nos custos e com visão de longo prazo”, define Tesser.

É nesse contexto de transformações e volatilidade do mercado que ganham relevância iniciativas como a rodada internacional de negócios do setor de alimentos e bebidas que aconteceu de forma virtual em junho, organizada pela Confederação Nacional da Indústria, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Sebrae e APEX, além da FIESC. O evento conectou micro e pequenas indústrias brasileiras – sendo mais de 30 delas catarinenses – com compradores dos Estados Unidos, Canadá, Índia, Emirados Árabes e outros países.

Apoiar a inserção de empresas no mercado mundial é considerado um dos eixos estratégicos de atuação da FIESC, que mantém o Programa de Internacionalização da Indústria de Santa Catarina, composto por uma série de iniciativas e programas interconectados. Um dos focos é o universo de empresas de micro e pequeno porte. Elas são a imensa maioria das indústrias de Santa Catarina, empregam metade do total de funcionários do setor, mas respondem por apenas 3% das exportações e 4% das importações. Um dos principais programas voltados a essas empresas é o Go To Market, iniciativa da FIESC e Sebrae-SC.

Em junho, no âmbito deste programa, as empresas participantes foram “diagnosticadas” quanto ao atual grau que possuem em relação à internacionalização. A partir do diagnóstico, elas podem estabelecer um plano de ação para implementação de suas estratégias de comércio exterior – seja para exportação, importação ou formação de alianças estratégicas. “O programa foi concebido para as empresas buscarem mais competitividade especialmente após a pandemia, considerando que uma das alternativas para a recuperação da indústria é a abertura de novos mercados para a exportação de produtos catarinenses”, afirma Mario Cezar de Aguiar, presidente da FIESC.

Cadeias globais | O Programa de Internacionalização contempla ainda iniciativas como a inteligência comercial, a promoção comercial em eventos internacionais, cursos de capacitação e seminários e a emissão de certificados de origem, dentre outras iniciativas. O objetivo supera o da internacionalização por meio da exportação, pois busca elevar os padrões da indústria para que ela possa integrar cadeias globais de fornecimento e competir globalmente, inclusive com empresas estrangeiras no mercado brasileiro. “A bandeira do programa é a competitividade, a capacidade de disputar mercados locais e globais com qualquer concorrente”, diz Maria Teresa Bustamante.

De todo modo, o câmbio é um fator de competitividade e, caso o dólar se mantiver em patamares elevados, a situação pode favorecer a indústria também no mercado interno, pois grande parte das matérias-primas e dos componentes de setores como a indústria automotiva é importada. “Do ponto de vista da indústria brasileira, esperamos que seja uma oportunidade para ampliarmos as vendas domésticas em produtos que podemos fabricar no Brasil, mas que hoje são importados”, afirma Fernando de Rizzo, presidente da Tupy.

Altos e baixos

Exportações e importações catarinenses (janeiro-maio 2020).

Exportações US$ milhões Variação sobre 2019
Carnes de aves 597,7 -35,9%
Carne suína 430,6 45%
Soja 387,3 54,9%
Motores elétricos 141,1 -12,6%
Partes de motores 139,1 -18,7%
Total SC 3.377 -11,3%
Importações US$ milhões Variação sobre 2019
Cobre refinado 266,9 2,2%
Polímeros de etileno 144,5 -4,7%
Fios de filamento sintético 133,1 -30%
Semicondutores 129,9 92,3%
Borracha 94,0 -26,4%
Total SC 6.312 -7,54%

Fonte: MDIC/Observatório FIESC

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