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Descartáveis passaram a ser taxados de vilões ambientais, mas o problema não é o produto, e sim o descarte inadequado e o descumprimento da legislação de resíduos sólidos pelas prefeituras. Desafio do setor é promover a reciclagem

Santa Catarina é um dos principais transformadores de material plástico do Brasil: cerca de 1.100 empresas do segmento, responsáveis por 38.700 empregos, produziram 628 mil toneladas em 2018. Mas o vigor econômico e a importância social desta indústria estão ameaçados por uma conjunção de fatores que deverá resultar em redução de consumo. Há mais de 50 projetos tramitando no Congresso Nacional que estabelecem limites à venda de produtos plásticos, que passaram a ser taxados como vilões ambientais por conta do descarte inadequado.

O risco já é palpável. Na cidade de São Paulo, um dos mais importantes centros consumidores do País, será proibida, a partir de janeiro de 2021, a oferta de utensílios plásticos descartáveis, como copos, talheres e pratos, em estabelecimentos comerciais, que precisarão ser substituídos por itens biodegradáveis ou reutilizáveis. De acordo com a lei, quem descumprir pagará multa de R$ 1 mil a R$ 8 mil e poderá ter o estabelecimento fechado em caso de reincidência.

A essa ameaça somam-se outros entraves. Um deles é a velocidade lenta com que avança no Brasil a chamada economia circular, um conceito que envolve ações para o consumo consciente, o descarte correto e o reaproveitamento de produtos recicláveis como o plástico – isso, apesar de o País dispor há dez anos de uma legislação e uma política sobre gestão sustentável de resíduos sólidos.

Outra barreira com efeito cumulativo é a escassez de incentivos para a produção e a comercialização de plástico reciclado, que paga mais imposto e custa mais caro do que a matéria-prima virgem, além de não ter seu valor ambiental devidamente reconhecido pelo mercado consumidor.

“A maior parte do material plástico infelizmente ainda vai parar em aterros após o consumo”, afirma Reginaldo José Cechinel, presidente do Sindicato das Indústrias Plásticas do Sul Catarinense (Sinplasc). “Nosso desafio é conscientizar a sociedade de que o plástico pode ser reaproveitado e fazer com que o material reciclado tenha valor.” No Sul de Santa Catarina está situado um grande polo de produção de descartáveis e de plástico reciclável. Em municípios como Orleans, São Ludgero, Criciúma e Içara estão estabelecidas mais de 200 empresas de tamanhos diversos, que empregam 8.500 pessoas.

Pulverizadas | De acordo com Albano Schmidt, presidente do Sindicato da Indústria de Material Plástico de Santa Catarina (Simpesc), três diferentes tipos de fabricantes coexistem no Estado. Um deles é o que produz insumos para a construção civil, com empresas bem posicionadas no mercado brasileiro e internacional. É neste mercado que se destacam empresas como a Tigre, sediada em Joinville, e a Amanco, multinacional com operações industriais na mesma cidade. Outro nicho é o de empresas de produtos técnicos, como mangueiras para injeção eletrônica de automóveis e peças para equipamentos hospitalares, que estão mais pulverizadas e se encontram em situação mais delicada. “A crise da indústria automobilística comprometeu o crescimento dessas empresas”, diz Schmidt.

Aditivos | E há, por fim, um parque de empresas que fabricam plásticos descartáveis. A líder no País neste segmento é a Copobras, sediada em São Ludgero, que vem apostando na diversificação de sua linha para enfrentar as restrições crescentes ao consumo de plástico. “O futuro será dos produtos com apelo sustentável”, admite Mario Schlickmann, diretor-presidente da companhia. Ele antevê um impacto no mercado da legislação que entrará em vigor no ano que vem em São Paulo e há tempos se movimenta para preservar o espaço conquistado. Em 2017, a empresa lançou uma linha pioneira de bandejas de isopor que se degradam na natureza, graças a um aditivo feito à base de óleo de palmeira e lubrificantes. Segundo o empresário, para substituir os copos plásticos a saída será oferecer produtos de papel.

A trajetória da empresa é emblemática do avanço da indústria do plástico em Santa Catarina. Sua criação remonta ao ano de 1970, quando o empresário Aloisio Schlickmann abriu em São Ludgero uma fábrica de sandálias plásticas. Quatro anos depois a empresa deixou de produzir calçados para fabricar sacolas, tubos e conexões de polietileno. Em 1982 se especializou em embalagens flexíveis e, nos anos 1990, mergulhou nos descartáveis. Nos últimos anos, abriu unidades em estados como Paraná, Minas Gerais, Amazonas, Pernambuco e Paraíba.

“Para crescer, não dava para produzir apenas a partir de Santa Catarina. Era necessário estar próximo dos centros consumidores de embalagens”, afirma Mario Schlickmann. Hoje, a empresa fabrica 70 mil toneladas de produtos por mês e sua linha inclui copos, pratos e potes de plástico e de isopor descartáveis, além de embalagens para indústria, como as de ração para cães.

Para Alceu Lorenzon, sócio-proprietário da Alcaplas, uma das principais recicladoras de plástico do País com sede em Xanxerê, no Oeste catarinense, uma saída para superar a crise que se avizinha é fazer valer a política nacional de gestão de resíduos sólidos, de 2010, que prevê a responsabilidade compartilhada entre fabricantes, comerciantes e consumidores pelo ciclo de vida dos produtos e incentivos para a separação, a coleta e o reaproveitamento de material reciclável.

“Esperávamos um grande crescimento da reciclagem de plástico por conta da lei, mas todo mundo cruzou os braços. Raríssimas prefeituras criaram programas de coleta seletiva e os ministérios públicos estaduais também não cobraram a aplicação da lei”, afirma. Segundo ele, há mercado e potencial para multiplicar a produção, mas faltam matéria-prima e incentivos. “O segmento de reciclagem é menos competitivo porque pagamos tributos na entrada e na saída.”

Segundo Lorenzon, uma mudança recente nas regras tributárias referentes ao uso de créditos presumidos de ICMS impõe um desafio adicional. De acordo com ele, Santa Catarina tornou-se um dos estados com maior número de empresas recicladoras porque uma legislação em vigor desde 2010 garantia maior competitividade, proporcionando crédito presumido de ICMS na venda de material reciclado – a empresa pagava 4,25% de ICMS, em vez de 12%. Mas essa vantagem deixou de vigorar em março. “Estamos nos mobilizando para reverter isso”, afirma.

Bobinas | Com 200 colaboradores diretos e indiretos, a Alcaplas foi fundada no ano 2000 e tem capacidade instalada para reaproveitar mensalmente 700 toneladas de resinas plásticas e produzir 250 toneladas de embalagens flexíveis de polietileno. A empresa recolhe resíduos plásticos de grandes companhias e certifica a destinação correta e a reciclagem do material. Para cumprir essa tarefa, dispõe de uma estrutura de logística com caminhões próprios para fazer coletas e entregas. A Alcaplas fabrica produtos como sacos para lixo e embalagens, lonas e bobinas, comercializados com indústrias e empresas agrícolas.

A estratégia para enfrentar o cerco ao plástico, naturalmente, vai além da busca de produtos alternativos e do incentivo à reciclagem. Também há uma intensa mobilização para mostrar que os problemas ambientais causados pelo plástico derivam não do seu uso, mas do descarte inadequado, e que o material não se tornou onipresente à toa. O plástico é essencial para a vida moderna. Seus possíveis substitutos, como papel, vidro ou metal, causariam outros problemas ambientais ou poderiam inviabilizar a logística da distribuição de alimentos, devido ao seu peso ou fragilidade.

“Levou muito tempo para as empresas entenderem o tsunami que está por vir”, diz Albano Schmidt, do Simpesc, que participa de uma mobilização, em parceria com empresas do segmento e entidades como a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), para evidenciar a importância econômica e as alternativas de consumo ambientalmente responsável. A ideia é mostrar, de um lado, como o uso de embalagens plásticas pode, por exemplo, ampliar a vida útil dos alimentos. E, de outro, que a solução para evitar que o plástico se torne um vilão ambiental é simples e acessível: a reciclagem. “Mas todo mundo tem que fazer a sua parte”, afirma.

Para que a mobilização dê certo, duas condições têm de ser cumpridas. Uma é conscientizar empresas e consumidores sobre as possibilidades de reciclagem e criar uma estrutura para coleta e reprocessamento. “Muita gente ainda acha, por exemplo, que não dá para reciclar bandejinhas de isopor que acondicionam alimentos. Mas basta remover o alimento com um lenço de papel que a bandeja pode ser reaproveitada.” O fato é que a disseminação dessas bandejas no comércio de alimentos divididos em porções não é ocasional. Elas não absorvem umidade, como as embalagens de papel, e protegem os alimentos de forma adequada.

Outra condição é desfazer a ideia de que o plástico reciclável deve custar mais barato do que a matéria-prima virgem. Proprietário da Termotécnica, tradicional fabricante de EPS (mais conhecido como isopor) de Joinville, Schmidt conta que desenvolveu um tipo de isopor reciclável. “Os clientes acharam muito interessante, mas logo perguntaram: qual é o desconto? Expliquei que o produto custava 20% mais caro e que isso representava o custo para reaproveitar a matéria-prima e oferecer um produto mais sustentável. Como os departamentos de suprimentos pouco conversam com os responsáveis pelas políticas sustentáveis, ninguém se interessou.”

Schmidt observa, porém, sinais de que essa postura começa a mudar. Ele menciona iniciativas de indústrias de cosméticos, como a Natura, que oferecem produtos com embalagens descartáveis e criam esquemas de coleta e reciclagem. “Outros fabricantes começam a entrar nessa pegada de economia circular”, conta.

Campanha | O Simpesc, em parceria com a Abiplast e diversas empresas, lançou um programa piloto para disseminar esse conceito. O projeto Isopor@Amigo foi inaugurado no final de janeiro no Perini Business Park, em Joinville, onde funcionam 240 empresas e um dos campi da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Cerca de 11 mil pessoas circulam por dia no parque. O objetivo é engajar os frequentadores de lanchonetes e restaurantes a promover a separação, limpeza e descarte dos produtos de poliestireno e levá-los até os pontos de entrega voluntária. A intenção é que as pessoas também tragam descartáveis de casa e a ampliação da campanha para todo tipo de descartável. Os recursos arrecadados com a venda dos materiais coletados serão revertidos em benefício da APAE de Joinville.

Campanhas desse tipo são importantes para educar consumidores e comerciantes. A Copobras, por exemplo, promoveu uma ação no Bloko Rosa, tradicional no carnaval de Laguna, para recolher materiais descartáveis e sensibilizar o público sobre as formas de reaproveitá-los. Também é importante demonstrar a importância do plástico para a classe política, a fim de neutralizar iniciativas radicais que tramitam em Brasília, nos estados e em municípios.

No ano passado, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou a Lei 17.727/2019, que regulamentou o uso de canudos plásticos em estabelecimentos comerciais do Estado. Em vez de banir o uso, o projeto aprovado reforçou a ideia do consumo consciente e do descarte adequado: os canudinhos não devem ser oferecidos espontaneamente, mas disponibilizados apenas quando forem requisitados pelos consumidores. Também é necessário dispor de coletores para descarte adequado e reciclagem do material que fiquem visíveis aos clientes. “A lei catarinense é uma das poucas que efetivamente incentivam a reciclagem, e esperamos que possa servir de referência para outras iniciativas”, diz Reginaldo Cechinel, do Sinplasc. “Proibir materiais recicláveis é um contrassenso e uma incoerência.”

Indústria de plásticos em SC

  • 1,1 mil empresas
  • 38,7 mil empregos
  • 628 mil toneladas produzidas

Obs.: Em 2018. Fonte: Simpesc

Polo de descartáveis

  • Sul catarinense é o maior centro produtor nacional do segmento
  • Segundo maior polo nacional de reciclagem, em número de empresas e empregos
  • 200 indústrias
  • 8,5 mil empregos diretos

Fonte: Sinplasc

Oportunidades da reciclagem

Indústria Santa Luzia converteu a produção e abriu novos mercados

A Indústria Santa Luzia, sediada em Braço do Norte, mostra que o mercado de produtos sustentáveis pode gerar boas oportunidades para empresas já consolidadas. A companhia, criada em 1942 como uma fábrica de espelhos pelo empresário João Effting e administrada pela quarta geração da família, especializou-se em molduras e rodapés de madeira até que, no início dos anos 2000, precisou lidar com um desafio. Exportadora para países como Estados Unidos e China, não conseguia atender a demanda por produtos feitos de madeira de origem certificada. A solução foi investir em reciclagem de poliestireno, o tradicional isopor.

A empresa recebe sobras, aparas e resíduos de isopor recolhido de 130 cooperativas de reciclagem ou fornecidos por empresas que fazem logística reversa de seus produtos. Hoje, 95% da produção da Santa Luzia provém de isopor reciclado e só 5% é de madeira. Os principais produtos são rodapés e perfis de acabamento. “São produtos que têm um ciclo de vida grande, de mais de 15 anos, e um bom custo-benefício em comparação com a madeira e o MDF, além de não ser alvo de pragas e cupins”, afirma Stephanny Wiggers May, coordenadora da pesquisa da empresa.

O custo do isopor reciclado chega a ser 20% superior em relação ao virgem, mas o apelo ecológico e a qualidade são diferenciais. A empresa, que já reciclou mais de 65 milhões de quilos de poliestireno, investe também na reciclagem de poliuretano, usado no isolamento de refrigeradores e assentos de automóveis, para produzir placas decorativas de revestimento de paredes.

Por Fabrício Marques.

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