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Há 70 anos a FIESC defende os interesses e dá sustentação ao setor, ajudando Santa Catarina a se tornar o estado mais industrializado do Brasil

O primeiro estabelecimento industrial erguido em Santa Catarina teve origem na nobreza. Em 1856, o Príncipe de Joinville investiu numa serraria nas terras que recebera de dote da família real brasileira. Francisco d’Orléans, filho dos reis da França, casara-se alguns anos antes com a princesa D. Francisca de Bragança, filha de Dom Pedro I e de D. Maria Leopoldina. As terras na província de Santa Catarina eram a colônia Dona Francisca, atualmente Joinville. A Serraria do Príncipe fornecia madeira para o Rio de Janeiro. Mas o príncipe, que vivia com a esposa na França, decidiu se desfazer da empresa pouco antes da proclamação da República no Brasil, em 1889.

É uma história curiosa, que merece registro, mas o primeiro ato da indústria catarinense não condiz com as linhas mestras de sua trajetória. Os verdadeiros protagonistas da indústria do Estado não foram nobres como o Príncipe de Joinville, mas empreendedores que iniciaram suas atividades sem muito capital ou mesmo conhecimento específico. O insumo mais importante que ergueu e sustentou as principais indústrias foi o trabalho, no mais das vezes envolvendo inicialmente somente os núcleos familiares. É por esse motivo que a história da indústria catarinense é marcada por desafios e superações, cuja resultante é aquele considerado hoje, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o mais diversificado parque industrial do País, além de ser um dos maiores.

Esta história começou de verdade quando começaram a chegar grandes grupos de imigrantes à província, principalmente italianos e alemães que se estabeleceram no Vale do Itajaí e Norte catarinense. Os anos de maior afluxo foram entre 1860 e 1880. Os imigrantes partiam em busca de oportunidades, desalentados que estavam pela crise profunda vivida em seus países de origem. Não havia nobres entre eles, mas muitos agricultores e tecelões, além de alguns técnicos da indústria europeia. O primeiro setor a tomar forma foi o têxtil e de confecções, a partir de 1880. Empresas como Hering, Karsten e Döhler, fundadas no período por imigrantes, hoje são líderes nos mercados em que atuam.

Efervescência | Já a diversificação da indústria e a expansão para todas as regiões do Estado intensificaram-se somente em meados do século 20. A agroindústria se estabeleceu no Oeste, baseada no sistema de parcerias entre a indústria e produtores rurais; a indústria de base florestal, que já era forte no Planalto Norte e Planalto Central, ficou mais moderna; a mineração de carvão no Sul do Estado ganhou impulso com a Segunda Guerra Mundial; a indústria de revestimentos cerâmicos também surgiu no Sul, enquanto a de plásticos estabeleceu-se em diversas regiões; a indústria têxtil e de confecções fez do Vale do Itajaí um dos maiores polos nacionais do setor; e o complexo eletrometalmecânico tornou-se robusto nas regiões Nordeste e Norte.

Foi nesse contexto de efervescência industrial que nasceu a FIESC, há 70 anos – sua ata de criação data de 25 de maio de 1950. A partir de então, o trabalho da Federação foi central para a formatação do moderno parque industrial catarinense. “O Brasil se industrializava, mas à base de altos investimentos estatais e de capital externo, concentrados na Região Sudeste. Em Santa Catarina, que ficou à margem, o setor evoluiu de um modo muito particular, com a FIESC ajudando a sustentar o seu crescimento”, afirma Mario Cezar de Aguiar, presidente da FIESC.

Nos anos seguintes à fundação da FIESC foram implantados os departamentos regionais do SESI e do SENAI, que deram suporte ao desenvolvimento da indústria. O setor empregava cerca de 10% da população economicamente ativa do Estado, em grande parte oriunda do meio rural, e havia limitações educacionais e de saúde que não ajudavam a modernização das empresas. Muitos industriais, entretanto, não percebiam a importância da qualificação profissional para a nova fase do setor. Além de ter sido importante no convencimento dos empresários, o SENAI catarinense foi pioneiro no Brasil na aplicação de um método de treinamento rápido dentro da fábrica, uma metodologia que fora desenvolvida nos Estados Unidos.

Ainda mais relevante foi o papel da FIESC para o desenvolvimento do próprio Estado de Santa Catarina, o que sustentou em bases sólidas o crescimento da indústria. A partir de 1958, a Federação realizou um trabalho até então inédito, o Seminário Socioeconômico. O objetivo era fazer um levantamento completo do Estado, in loco, com a presença de lideranças dos setores público e privado, de todas as regiões. Abriu-se assim um amplo debate sobre questões sociais, de infraestrutura e de planejamento.

Quem liderou o processo foi Celso Ramos, fundador da FIESC e seu presidente desde a fundação até 1960. Neste mesmo ano, Ramos elegeu-se governador do Estado e seu programa de governo, o Plameg – Plano de Metas do Governo –, foi integralmente alicerçado no Seminário Socioeconômico. O plano foi aprovado pela Assembleia Legislativa e se tornou o primeiro orçamento plurianual do Brasil, uma inovação que se distanciava das improvisações administrativas comuns no período.

Sua aplicação transformou o Estado. Teve ano em que os investimentos em infraestrutura chegaram a consumir 55% da receita estadual. Houve intensa abertura de estradas e construção de escolas. A insuficiência energética foi contornada com a criação da Celesc – a disponibilidade de energia per capita elevou-se em 2,5 vezes no período. Ramos criou o Banco do Estado (BESC), a universidade estadual (Udesc) e o Fundo de Desenvolvimento de Santa Catarina (Fundesc), que financiou a expansão da indústria. Diversos industriais, a propósito, formaram o secretariado de Ramos, fato que aproximou o setor público das demandas da área e foi fundamental para que entraves ao seu crescimento fossem superados.

Com infraestrutura logística e energética, melhora dos padrões educacionais e crédito, a indústria catarinense decolou de vez, entrando em uma nova fase. Nos anos 1960 o setor cresceu a uma média anual de 8%, com alguns segmentos se destacando ainda mais. O setor de alimentos, por exemplo, se expandia a uma razão próxima a 20% ao ano. Muitas pequenas indústrias tornaram-se grandes no período, passando a ter, pela primeira vez, milhares de funcionários, enquanto mais de 3 mil novos estabelecimentos industriais foram abertos.

Ciclo | Baseado na iniciativa de empreendedores locais e no ambiente favorável aos negócios, Santa Catarina diferenciou-se do modelo de industrialização nacional, que se desenvolveu graças a aportes em setores como siderurgia, indústria automotiva e petroquímica. O Estado saiu de uma condição predominantemente agrícola até 1950 para se tornar industrializado, participando diretamente – e com destaque – do ciclo econômico brasileiro. Em todos os outros grandes ciclos econômicos anteriores do País, Santa Catarina ficou à margem.

O papel da FIESC no apoio e na defesa dos interesses da indústria prosseguiu na década seguinte, sendo relevante para sua internacionalização. A Federação criou, em 1969, o Consórcio Catarinense de Exportação, que diminuiu custos e tornou mais assertiva a prospecção de novos negócios. Foi a partir do Consórcio que as exportações catarinenses quintuplicaram de valor entre 1970 e 1975, abrindo as portas para o Estado se tornar uma das maiores plataformas de exportações de industrializados do Brasil. Ao mesmo tempo, a atuação da FIESC foi interiorizada, com a abertura de estruturas do SESI e do SENAI por todo o Estado, além da criação do IEL, para aproximar universidades da indústria.

O crescimento da indústria de transformação de todo o País no período do chamado Milagre Brasileiro foi notável, e ela chegou a representar um terço da formação do Produto Interno Bruto nacional. A partir dos anos 1980, entretanto, a curva começou uma trajetória declinante, dando início ao processo que mais tarde seria chamado de desindustrialização. Década perdida nos anos 1980, abertura comercial indiscriminada nos anos 1990, crise econômica mundial nos anos 2000 e a pior recessão da história brasileira no triênio 2015-2018 debilitaram o setor industrial brasileiro. Sua participação no PIB decresceu a meros 11%.

Em Santa Catarina, entretanto, a indústria de transformação seguiu forte, em grande parte graças ao espírito empreendedor e à capacidade de superar desafios presentes desde a experiência de seus pioneiros. A parcela na geração de riquezas totais segue na casa dos 30%, o que coloca Santa Catarina na condição de estado mais industrializado do Brasil – somente o Amazonas registra maior participação setorial no PIB, mas o índice é distorcido pela Zona Franca de Manaus.

Incentivos | A FIESC segue relevan­te para o elevado desempenho da indústria, oferecendo serviços de educação e saúde de acordo com as novas demandas do setor e serviços de tecnologia e inovação por meio de uma rede de 11 institutos. Na articulação política, destacou-se recentemente o trabalho da Federação para a renovação dos incentivos à economia no Estado, que deixariam de existir em 2019. Se isso acontecesse, setores altamente relevantes para a economia e a geração de empregos perderiam competitividade, como o têxtil e o de alimentos. Com os incentivos, a indústria catarinense liderou a geração de empregos do setor no Brasil em 2019 e a produção cresceu 2,5%.

“Caso o Governo não tivesse voltado atrás, teríamos um verdadeiro caos na indústria. Muitas companhias se mudariam do Estado para sobreviver, e consideramos essa possibilidade também”, diz Moacir Fachini, fundador da Fakini Malhas, de Pomerode, empresa que recentemente adquiriu a marca de roupas femininas Angel e se preparava para investir R$ 18 milhões em novos centros administrativos e de distribuição.

O caos temido por Fakini não veio pelo aumento de impostos, mas com a pandemia do coronavírus. As altas expectativas alimentadas por industriais, que percebiam melhoria no ambiente de negócios, foram tragadas do dia para a noite. Uma nova recessão certamente afligirá a indústria, que pode, mais uma vez, contar com a FIESC na defesa de seus interesses. “A superação de desafios é, talvez, o fator mais determinante da história da indústria catarinense. Vamos nos reerguer”, afirma Mario Cezar de Aguiar, presidente da FIESC.

  • Primeiro setor a ganhar corpo, a indústria têxtil e do vestuário tem 53 estabelecimentos registrados em 1920 em Santa Catarina
  • Anos 1960: Investimentos em infraestrutura chegam a 55% da receita estadual em SC
  • Anos 1970: Exportações de industrializados quintuplicam com criação de Consórcio, pela FIESC
  • 50 mil: Indústrias de Santa Catarina hoje em dia, que empregam 735 mil trabalhadores

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