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Os impactos econômicos causados pelo coronavírus serão grandes, mas com bom planejamento e ações antecipadas a produção industrial poderá ser fortemente impulsionada no futuro

Jamais se viu algo parecido. Na região de Brusque, que concentra um dos maiores polos da indústria de confecção e têxtil de Santa Catarina, com 25 mil trabalhadores, as máquinas de costura silenciaram. Na última semana de março, 97% das empresas ali instaladas não produziram uma peça sequer, de acordo com levantamento do sindicato das indústrias do setor. Mesmo podendo funcionar com metade da capacidade, de acordo com as regras de isolamento social decretadas pelo Governo do Estado, não havia razão para produzir. Seus principais clientes, as grandes redes varejistas, tinham fechado as portas de suas lojas no esforço de contenção da propagação do coronavírus.

“O impacto em nossa região é muito grande porque a indústria é muito ligada com a ponta, que é o comércio”, afirma Rita Cassia Conti, sócia-diretora da Mensageiro dos Sonhos e presidente da Associação Empresarial de Brusque. Sua empresa, que fabrica pijamas, vinha realizando dezenas de contratações desde o ano passado para aumentar a produção e atender a demanda crescente dos lojistas. Porém, em uma única manhã a empresa recebeu 40 mensagens e ligações para postergar pedidos feitos anteriormente e solicitar aumento de prazos de pagamento para produtos já entregues. Ali perto, em Blumenau, onde a concentração de indústrias do setor é ainda maior, os problemas eram parecidos. “A maioria das empresas parou completamente”, relata José Altino Comper, presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e do Vestuário de Blumenau (Sintex).

Outro setor que praticamente zerou as atividades em março foi o de autopeças e montadoras de veículos. Elas integram o complexo da indústria metalmecânica, uma das mais relevantes do Estado. O setor vinha em ritmo de retomada, alcançando finalmente o mesmo volume de produção que registrava em 2014 – nos piores anos da recessão, a fabricação de produtos de metal em Santa Catarina caiu pela metade, de acordo com o Observatório FIESC. O que se viu em março foi muito pior. “As vendas despencaram nos mercados doméstico e de exportações, e a grande maioria das empresas parou, entrando em regime de férias coletivas”, conta Hugo Ferreira, presidente da Câmara de Desenvolvimento da Indústria Automotiva da FIESC e diretor regional do Sindipeças, que congrega os fabricantes de componentes para veículos.

Impactos radicais como esses se observaram em diversos setores e empresas, causando perplexidade e muitos temores no meio empresarial. Ninguém sabia ao certo o que fazer diante de medidas altamente restritivas e contraditórias entre as diferentes esferas de governo, em ambiente de extrema insegurança jurídica. Além de apagar incêndios, lideranças começaram a se mobilizar para encontrar meios de minimizar os efeitos da crise motivada pela pandemia. A FIESC, por exemplo, criou a Central de Suporte à Indústria, para orientar empresas em temas como questões jurídicas, de saúde e segurança e comércio exterior. O Governo atuou com assertividade em algumas frentes, como na garantia de normalidade das operações portuárias. “Estamos em uma missão nesse momento, pois há necessidade de garantir o abastecimento para não piorar a situação”, afirma Marcelo Werner Salles, superintendente do Porto de Itajaí.

É guerra | De acordo com José Eduardo Fiates, diretor de Inovação da FIESC, o início da organização para enfrentar os problemas encerrou o que ele chama de Fase Zero da crise, o momento de choque. “Agora é hora de não deixar a peteca cair. Devemos preservar um mínimo de atividades essenciais e pensar em novas atividades que possam funcionar adotando protocolos seguros de operação, para que a economia não pare”, diz Fiates.

Sua avaliação faz parte de uma iniciativa da FIESC para agregar o setor industrial do Estado na elaboração de uma estratégia para a gestão da crise, que tende a ser longa. O plano é dividido em quatro etapas, compreendendo ações nas fases chamadas pré-pico da crise, pico, pós-pico e pós-crise (veja o quadro). O objetivo é vencer a guerra com o menor número possível de vítimas da doença e com a economia em condições de voltar aos níveis anteriores de atividade, ou mesmo superá-los. “Entendemos que é possível fazer com que a gestão da saúde, da economia e dos empregos durante a crise seja trabalhada de maneira harmônica, e que essas dimensões se relacionem positivamente umas com as outras”, afirma Mario Cezar de Aguiar, presidente da FIESC. “A condição a que chegaremos ao final desta guerra depende muito das atitudes que tomarmos no início.”

A estratégia pressupõe superar o maior dilema colocado em um primeiro momento de perplexidade diante da crise. A certa altura, tudo pareceu se resumir a uma escolha entre baixar o nível de cuidados de saúde e tolerar grande número de vítimas fatais, mas com saída rápida e maior preservação de empresas e empregos, ou, em oposição, ser radical no chamado lockdown, preservando assim mais vidas, mas estendendo a crise por mais tempo e obtendo em troca recessão, quebra de empresas, destruição de empregos e retomada lenta da economia. Na verdade, essa é uma falsa dicotomia. “Medidas duras são necessárias, é o que o mundo inteiro está fazendo. Mas isso não significa que os impactos econômicos devam ser desconsiderados. O que podemos fazer é gerir a crise da melhor maneira possível”, diz Aguiar.

Mas como fazer isso? Um dos princípios básicos é a união. Desde sempre ficou clara a relevância do associativismo para lidar com a crise de maneira alinhada e propositiva. Nas diversas regiões do Estado, entidades representativas de setores empresariais se reuniram rapidamente para avaliar o tamanho dos estragos e o seu potencial, para então começar a negociar com o poder público medidas como a postergação de impostos municipais e a adequação de medidas extremamente restritivas que foram tomadas em diversos municípios, como a criação de barreiras físicas para impedir o trânsito de mercadorias e pessoas.

No plano estadual, dentre outras iniciativas, a FIESC encaminhou pedidos para que fosse revogada a restrição total às atividades de construção civil decretada pelo governador Carlos Moisés. A argumentação é de que o trabalho no setor é realizado em ambientes arejados, com distanciamento adequado entre as pessoas, que utilizam equipamentos de proteção e são, em sua maioria, jovens – não fazendo parte, portanto, do principal grupo de risco, o dos idosos. Não havia por que a restrição ser diferente daquelas impostas aos demais setores industriais considerados não essenciais, que ficaram autorizados a operar com até 50% da capacidade.

O setor é formado majoritariamente por pequenas empresas e emprega um total de 100 mil trabalhadores no Estado. Tais números indicam que a união necessária para enfrentar a crise não envolve apenas os empresários, mas também os trabalhadores, que se engajaram na busca de soluções conjuntas com o setor produtivo por meio das maiores centrais sindicais do Estado.

Baixo risco | Da mesma forma que ocorre com a construção, é possível demonstrar, tecnicamente, que atividades produtivas podem ser realizadas com baixo nível de risco, o que permitirá um aumento gradual de atividade na indústria. Nessa frente, o trabalho do SESI na área de segurança e saúde do trabalhador é estratégico. O plano de gestão também vislumbra a criação de uma “economia da crise”, em que novas atividades possam surgir. Um exemplo é a iniciativa do SENAI que, por meio dos Institutos de Tecnologia, compilou normas e desenvolveu fichas técnicas para auxiliar indústrias na fabricação de produtos como álcool, máscaras e aventais de prevenção contra o coronavírus. Outro programa prevê a ampliação da produção nacional de respiradores e a adaptação de produtos similares, além da recuperação de aparelhos danificados (veja o box).

O objetivo maior de todo o esforço é a manutenção de empregos e a sobrevivência de empresas durante a travessia do deserto para uma retomada à frente, em novas bases. A fragilidade das pequenas empresas está no centro das atenções. Indústrias desse porte são predominantes em setores intensivos de mão de obra, como o têxtil e confecções, que é o maior empregador industrial de Santa Catarina. “Muitas empresas não conseguirão pagar os direitos trabalhistas, seus fornecedores e os impostos. Poderemos ter um número de desempregados nunca visto até hoje no Brasil, e o setor será muito atingido”, afirma Comper, do Sintex.

Médias | Célio Bayer, presidente da Câmara de Desenvolvimento da Micro e Pequena Indústria da FIESC e vice-presidente regional da entidade, concorda que as pequenas são as mais expostas às agruras da crise, mas a situação será difícil também para as médias. “São empresas com capacidade limitada de giro nos seus recursos financeiros e sem capital suficiente para suportar períodos prolongados sem atividades”, alerta.

Por isso a irrigação do caixa das empresas é central para o enfrentamento de uma crise dessa magnitude. Não é à toa que países como Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido criaram pacotes para injetar trilhões de dólares, euros e libras na economia, destinados a bancar parte dos salários dos trabalhadores e garantir o fluxo de caixas das empresas. Todos, dessa forma, podem continuar pagando, recebendo e consumindo. No Brasil, que passou os últimos tempos perseguindo ajustes fiscais, mas realizando grandes déficits, há dificuldades maiores para se adotar essa estratégia em larga escala. O sistema financeiro privado, que poderia complementar o esforço, em um primeiro momento restringiu o crédito e elevou os juros. É preciso reverter o quadro.

“Se houver grande impacto nos empregos e no consumo das famílias, a situação será muito grave para a nossa indústria. Para haver liquidez será necessário que o Governo ofereça crédito de maneira extensiva”, avalia Luiz Gonzaga Coelho, sócio-fundador da C-Pack, de São José, fabricante de embalagens plásticas para medicamentos e cosméticos. Sua empresa sentiu fortemente o impacto do fechamento de shopping centers, ainda que tenha mitigado prejuízos direcionando parte de sua capacidade para a produção de embalagens para álcool em gel. Mesmo assim suspendeu o projeto de expansão em curso, a exemplo da maior parte das indústrias em situação equivalente.

Desde o início ficou claro que o País não sairá desta crise se o setor público não ajudar a pagar a conta, que recaiu pesadamente sobre o setor privado. Para a FIESC, além da contribuição do servidor público, os governos devem imediatamente cortar gastos não essenciais e rever privilégios e benefícios. “Também faz todo o sentido postergar as eleições e usar o fundo partidário no enfrentamento da crise da saúde”, pontua Mario Cezar de Aguiar.

A nova agenda que rapidamente se impôs eclipsou, em um primeiro momento, a agenda de reformas estruturais que se buscava levar adiante no Brasil. Embora no período emergencial mais agudo as reformas pareçam sem sentido, elas serão essenciais para sustentar a retomada. “Além de aportar recursos e postergar impostos, o setor público terá que fazer as reformas administrativa e tributária. É isso que vai consertar não só a crise, mas o País”, acredita André Odebrecht, vice-presidente regional da FIESC para o Alto Vale do Itajaí.

A missão é complexa. José Eduardo Fiates compara a crise a uma mola que ficará retraída por um bom tempo. O tamanho da força que ela terá para impulsionar a economia mais à frente depende muito de um bom planejamento e disciplina para a tomada das ações necessárias desde já. Espera-se, por exemplo, que um dos motores da retomada seja o investimento em infraestrutura, que estava parado desde antes da pandemia. Será preciso desenhar um novo modelo. “Vamos vencer, mas precisamos trabalhar de maneira integrada e criativa para obter resultados”, afirma. Este é o tamanho do desafio da indústria em 2020.

Preparando a retomada

Plano de gestão da crise e de reinvenção da economia guiará atuação da FIESC durante o período de dificuldades

Com medidas sanitárias adequadas, os doentes pelo coronavírus não ultrapassarão a capacidade do sistema de saúde, evitando o seu colapso. Entretanto, o famoso achatamento da curva, tão desejado, tende a estender as privações e os cuidados por mais tempo, ampliando o tempo de duração das dificuldades econômicas. É fato que elas são inevitáveis, mas podem ser atenuadas, se bem gerenciadas. Os objetivos devem ser não deixar o desemprego disparar e nem a economia se retrair tanto que não possa se recuperar rapidamente ao final da crise de saúde pública.

Trabalhar para a construção deste cenário otimista é o objetivo da proposta de gestão da crise encabeçada pela FIESC, que norteará suas ações durante o período de dificuldades. A gestão será acompanhada de um plano de reinvenção, capaz de criar soluções inovadoras tanto para a travessia do período quanto para estimular a retomada. O princípio é o de que as decisões iniciais é que determinarão resultado final. O planejamento identificou fases distintas da crise que são passíveis de gestão, e quais deverão ser as prioridades em cada uma delas:

  • Fase 0: Choque | Impacto inicial, perplexidade. Medidas de isolamento
  • Fase 1: Pré-pico | Planejamento e operação para crise. Preservar o mínimo de atividades essenciais e desenvolver protocolos seguros de operação
  • Fase 2: Pico | Resiliência antes e disciplina depois do pico, para não relaxar nos padrões e fazer descer a curva de infectados. Avançar com segurança na retomada gradual de atividades
  • Fase 3: Pós-pico | Preparação para a retomada, mobilizando trabalhadores e estruturas. Momento de soltar a mola da economia que ficou retraída, objetivando o máximo de impulso para a fase seguinte
  • Fase 4: Pós-crise | Aceleração sustentável. Execução de plano de recuperação e consolidação de um novo modelo econômico

Economia da solidariedade

FIESC cria fundo para centralizar doações destinadas à importação e fabricação de respiradores

A mobilização solidária de indústrias pode atenuar os efeitos da pandemia. Há várias iniciativas em curso, como o caso da WEG, que voltou seu setor de tintas para a fabricação de álcool 70%, destinado ao abastecimento de hospitais públicos e também começou a fabricar respiradores. Já o fechamento de um contrato de importação de 200 respiradores pelo Governo do Estado se concretizou graças a uma articulação com a FIESC e a participação da Intelbras. A indústria de equipamentos eletrônicos destacou seu escritório na China para encontrar fornecedores e realizar as tratativas. Este foi o primeiro resultado prático do programa + Respiradores, iniciativa da Rede SENAI de Institutos de Inovação. Além da importação, o programa promove a produção nacional.

Os fundos para financiar este programa e outras iniciativas estão sendo levantados por meio de doações de empresas, organizações e pessoas físicas. Para isso a FIESC estruturou o Fundo Empresarial para Reação Articulada de Santa Catarina Contra o Coronavírus. Além de apoio financeiro para o programa de respiradores e a compra de diversos equipamentos para hospitais do Estado, outra frente prevê ações no âmbito da economia da crise, como operação segura da indústria e geração de novos negócios.

  • Informações para depósito
  • Banco: 085 Cooperativa Central Ailos
  • Agência: 0105
  • Conta: 19.273-2
  • Nome: Federação das Indústrias de SC
  • CNPJ: 83.873.877/0001-14

Ações responsáveis

Exemplos de práticas para a gestão equilibrada da pandemia do coronavírus

  • Isolamento dos grupos de risco
  • Realização de testes em massa e de forma planejada
  • Adoção de protocolos rigorosos e customizados
  • Adoção de EPIs em larga escala
  • Sistemas de controle, monitoramento e fiscalização
  • Definição de sistema de punição progressiva
  • Adoção de medicamentos e infraestrutura técnica adequados nos hospitais e clínicas
  • Análise permanente da evolução de casos no mundo, gerando conhecimento técnico-científico
  • Comunicação maciça e eficaz
  • Gestão estratégica, tática e operacional da crise

Fonte: FIESC

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