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A combinação entre o envelhecimento da população e a necessidade de trabalhar mais tempo aumenta a participação dos trabalhadores acima dos 40 anos na indústria

O aumento da idade média da população brasileira é um processo que vai se acelerar muito nas próximas décadas, impulsionado por fatores localizados nos extremos da vida: de um lado, o número de nascimentos vem caindo; de outro, a expectativa de vida se amplia. Assim, a proporção de pessoas acima de 65 anos saltará dos atuais 11% para 25% em 2060, de acordo com projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

É normal e esperado que este mesmo fenômeno se repita dentro das empresas, como microcosmos da sociedade que são. Não é por acaso que a presença de alunos acima dos 40 nos cursos do SENAI de Santa Catarina vem crescendo a cada ano. Do total de matriculados no ano passado, 17,1% estavam nesta faixa etária. Há dez anos, a proporção era de 12,5%. Grande parte desse pessoal já está na indústria e tem que se manter atualizado para os próximos anos de trabalho, que se estenderão graças ao aumento da longevidade e a fatores como a reforma da previdência social.

O aumento da idade média da força de trabalho já é realidade em muitas indústrias catarinenses. Na WEG, passou, desde 2005, de 30,9 para 34 anos. Na RenauxView, a participação de colaboradores com mais de 40 anos saltou de 32,7% para 46,7% nos últimos dez anos. Na Condor, a proporção de funcionários nesta faixa etária evoluiu de 32,6% para 39,2% nos últimos cinco anos.

A mudança de perfil exige novas estratégias para a gestão de pessoas, principalmente nas frentes da educação e saúde. A seguir, acompanhe como algumas das principais empresas catarinenses lidam com a mudança, e conheça soluções oferecidas pelo SESI e o SENAI para auxiliar as indústrias.

Idade média do trabalhador da indústria de SC

  • 33,7 anos em 2014
  • 35,1 anos em 2017

% com mais de 40 anos

  • 27,6% 2009
  • 34% 2019

Fonte: SESI-SC

Perspectivas inesperadas

Para o diretor de Recursos Humanos da WEG, Hilton José Faria, o aumento da idade média no quadro de funcionários certamente tem relação com os fatores estruturais da sociedade brasileira, mas também com a cultura da empresa. “A WEG sempre apostou em estabelecer relações de longo prazo com quem trabalha aqui. Acreditamos que, quanto mais tempo um profissional fica conosco, mais adaptado à cultura da empresa ele se torna, com vantagens para ambas as partes”, avalia Hilton.

O tempo médio de casa na WEG é, atualmente, de 9,2 anos – número que também vem aumentando ano a ano. Não se trata de uma empresa com a cultura do crescimento rápido, mas, em contrapartida, há muitas possibilidades de ascensão para quem permanece. São necessários, em média, dez anos de trabalho para chegar ao primeiro cargo de gestão. Daí em diante a evolução tende a ser mais rápida. “Em geral, quem chega a um cargo de diretoria começou cedo na empresa e trilhou um caminho de pelo menos duas décadas”, descreve o diretor de RH.

Para manter a força de trabalho atualizada, a WEG investiu R$ 40 milhões em capacitação no ano passado. Nas duas primeiras décadas deste século já foram organizados 30 cursos internos de pós-graduação, customizados com parceiros da área educacional – três desses cursos estão em andamento.

Há também preocupação com os níveis mais básicos de ensino, para proporcionar oportunidades a quem precisou parar de estudar cedo. Um exemplo é Erivelton Gonçalves, 43 anos, oito de casa. Quando se candidatou a um emprego de operador de produção na WEG, por insistência de um amigo, ele só tinha estudado até o sétimo ano. Por conta disso, não acreditava na contratação. “Eu sabia que era uma empresa muito grande, com pessoas preparadas, e achava que não teria chance de entrar”, lembra.

Antes, Erivelton havia sido militar por oito anos na terra natal, Ponta Grossa (PR), e trabalhado por nove anos numa fábrica de móveis em Guaramirim (SC). “Tive filhos cedo, precisei correr atrás e parei de estudar”, conta ele – que é pai de cinco, com idades entre 13 e 23 anos.

Tão logo foi contratado pela WEG (para sua própria surpresa), Erivelton ouviu do gestor que seria muito importante que continuasse os estudos – e que teria todo o apoio da empresa para isso. Desde então, ele simplesmente não parou de estudar. Fez o curso de qualificação profissional de operador de produção, concluiu o ensino fundamental, o ensino médio e fez o curso técnico em Metalurgia pelo SENAI, como bolsista da WEG – para assegurar uma das 25 vagas, precisou superar mais de 100 concorrentes na prova. “Estudei o máximo que pude, porque queria muito ter mais essa oportunidade”, afirma.

Reinventado | Entre vários outros benefícios, a dedicação aos estudos o aproximou dos filhos. “A gente estudava junto, tirava dúvidas uns dos outros. Acho que dei um bom exemplo a eles de que, com persistência e dedicação, podemos conquistar muitas coisas”, orgulha-se Erivelton.

Sempre que era preciso mudar de turno para se adaptar aos horários das aulas, havia o apoio do gestor. Em reconhecimento a tanto esforço, as oportunidades foram surgindo – ele foi promovido algumas vezes pelo caminho. Hoje, sente-se totalmente reinventado e cheio de horizontes. “Vejo perspectivas para o futuro que nunca imaginaria aos 35 anos, quando comecei a trabalhar na WEG”, anima-se.

Longevidade produtiva

Na RenauxView, tradicional indústria têxtil de Brusque, a turma com mais de 40 anos está crescendo rapidamente e pode se tornar maioria em breve – hoje, 302 dos 646 funcionários estão nesta faixa etária.

Um dos responsáveis diretos por isso é o gerente industrial Anísio Oscar da Silva, já que ele próprio cruzou a fronteira não faz muito tempo. Hoje, aos 44 anos – e 25 de casa –, Anísio se sente motivado para trabalhar por mais algumas décadas. “Como tudo muda muito rápido, temos a sensação de que estamos sempre começando, de tanto que há para aprender”, avalia.

Anísio ingressou na empresa aos 19 anos, com a tarefa de buscar e levar os tecidos para o setor de revisão e controle de qualidade. Foi assumindo novos cargos e responsabilidades na medida em que estudava. Fez curso técnico de Administração, depois curso técnico têxtil, graduação em Tecnologia na área têxtil, pós em Engenharia de Produção, MBA em gestão de negócios. Em meio a tudo isso, vários outros cursos de curta duração e de idiomas.

O ambiente de trabalho agradável e aberto é um fator importante para que Anísio deseje permanecer – mas ele sabe que isso, por si só, não é suficiente. As viagens para participar de feiras e de congressos sempre foram outro forte atrativo – o executivo já esteve em dez países para compromissos profissionais. “Só estou na mesma empresa há tanto tempo porque sempre desfrutei da possibilidade de continuar aprendendo e aplicando o que aprendi.”

Ele conta que, quando era mais jovem, conseguia se relacionar bem com os mais velhos. Agora, como líder, tenta repetir a situação desempenhando o papel oposto. “Tem um pouco de desconfiança de parte a parte, mas isso a gente supera com tato e transparência. Tive a sorte de vir de uma família grande, com oito irmãos de diferentes idades. Isso me ensinou bastante”, descreve.

Recorde mundial | No que diz respeito à longevidade profissional, ele convive com o melhor dos exemplos: é na RenauxView que trabalha Walter Orthmann, 98 anos e recordista mundial de permanência numa mesma empresa, feito reconhecido pelo Guinness Book: são 82 anos de vínculo – e contando. “Acompanhar o entusiasmo e a empolgação do seu Walter no dia a dia é uma grande lição”, afirma Anísio.

As estatísticas da RenauxView se explicam, em grande parte, pelas relações de longo prazo que a empresa estabelece com seus colaboradores. Dos funcionários atuais, um em cada três já rompeu a marca de dez anos de casa.

Nesse cenário, ganha força a preocupação com os cuidados preventivos de saúde e bem-estar. No rol de iniciativas voltadas ao equilíbrio biopsicossocial dos trabalhadores, há atendimento psicológico, alimentação balanceada no restaurante, convênio com academias e atividades como pilates e quiropraxia. “Não podemos nos limitar aos treinamentos técnicos, pois isso é apenas uma parte da vida”, observa a supervisora de Recursos Humanos, Doralice Pereira.

Espírito jovem

É cada vez mais comum encontrar pessoas que chegam muito bem à maturidade e continuam jovens de espírito, interessadas em aprender e evoluir”, afirma Cleison Alves, gerente de Recursos Humanos da Condor, conhecida fabricante de produtos de limpeza, beleza e higiene bucal sediada em São Bento do Sul.

A empresa vem registrando um aumento gradual na proporção de funcionários mais experientes. Em 2016, eram 359 com mais de 40 anos, dentro do universo de 1.100 colaboradores. Hoje, com um quadro ligeiramente mais enxuto – 1.078 funcionários –, há 423 que estão acima dos 40 anos.

O gestor credencia o fenômeno a nada além de um processo natural. “Não temos preferência nem discriminamos as pessoas simplesmente pela idade. Mas certamente valorizamos aspectos como a experiência, e nisso é claro que os mais velhos tendem a levar vantagem”, diz ele.

Aos 42 anos, a analista de suporte Denise Pscheidt é um dos exemplos entre os funcionários da Condor de quem não se acomoda com o que já domina. Ela acaba de se matricular em mais um dos inúmeros cursos que fez ao longo de 27 anos de trabalho na empresa.

Todo ano | Desta vez é o Programa de Desenvolvimento Empresarial (PDE), oferecido pela Associação Empresarial de São Bento do Sul (Acisbs). Trata-se de um curso que apresenta a colaboradores das empresas associadas conceitos, ferramentas e estudos de caso para proporcionar uma visão mais ampla do negócio. “Sempre atuei na área de tecnologia, mas me interesso em saber como funcionam as outras áreas para aprimorar os serviços que presto”, explica Denise.

Com duração de um ano, período em que serão realizados dois encontros mensais e disponibilizado um extenso material de leitura, o curso será 70% pago pela empresa e 30% por Denise, dentro da política de formação e educação continuada da Condor. “Não recordo de algum ano em que não tenha feito algum tipo de curso”, conta a analista de suporte, que conhece bem o valor do conhecimento. Ela começou na empresa aos 15 anos, na área produtiva, dentro do departamento de pincéis, e passou para a área de tecnologia sete anos depois, quando se graduou em Informática.

Acompanhando a tendência

SESI e SENAI oferecem soluções para atualizar e manter saudáveis os trabalhadores mais velhos

A necessidade de poder contar com trabalhadores ativos por mais tempo já integra as soluções oferecidas pelo SESI e o SENAI. Na educação, cursos de requalificação e aperfeiçoamento capacitam continuamente o profissional, de olho na modernização do mercado de trabalho e com foco na atualização dos trabalhadores. Em 2019, mais de 97,4 mil matrículas foram realizadas em formações continuadas e extensão profissional. São cursos planejados para quem já tem boa experiência e precisa ganhar novos conhecimentos, em temas como gestão de projetos, controle de qualidade, eletrônica, robótica e desenho em CAD.

Na frente da saúde, o envelhecimento da força de trabalho é foco de estudos de um dos Centros de Inovação do SESI. Instalado no Paraná, o centro pesquisa e oferece soluções para melhorar as condições de saúde, aprimorar tecnologias e alterar estruturas econômicas para que a população idosa possa aumentar sua participação no mercado. As soluções têm abrangência nacional e podem ser aplicadas na indústria.

O SESI catarinense se destaca no desenvolvimento de soluções em saúde e qualidade de vida. Diversas indústrias já utilizam o programa Planeja Saúde, que é capaz de investigar e mapear o perfil de saúde dos trabalhadores, identificando grupos de risco e sugerindo ações de curto, médio e longo prazo para lidar com cada um, de forma customizada. A ideia é incentivar bons hábitos e alimentação saudável, atividade física, gestão de doenças crônicas e engajamento com a comunidade. Mais de 17 mil trabalhadores têm seus perfis mapeados e recebem atenção personalizada da indústria.

Outros programas do SESI também dão suporte para o envelhecimento saudável, como é o caso das academias, dos grupos de corrida, dos grupos de emagrecimento, treinamentos funcionais e a preocupação com uma alimentação saudável. Todas as ações buscam a prevenção: ao invés de colocar o foco em tratamento de doenças, as empresas e os trabalhadores obtêm resultados muito melhores quando a preocupação central é manter os quadros saudáveis e produtivos.

Por Maurício Oliveira.

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