Na contramão do País, setor secundário se manteve forte em Santa Catarina, respondendo pela maioria dos empregos gerados e pelos resultados melhores da economia.

Supercomputador do Laboratório de Bioinformática do SENAI: apoio a inovações nas áreas de alimentos e de saúde

Supercomputador do Laboratório de Bioinformática do SENAI: apoio a inovações nas áreas de alimentos e de saúde - Foto: Arquivo FIESC

Em meio à terra arrasada, provocada pela pandemia em 2020 e nos primeiros meses de 2021, é possível estabelecer distinções no cenário econômico nacional. Enquanto o PIB brasileiro variou -4,1% no ano passado, a geração total de riquezas em Santa Catarina levou um tombo bem menor: -0,9, segundo estimativa do Governo do Estado. Já quando se toma por referência a geração de empregos, o ano fechou no positivo. Com saldo de 53 mil vagas formais abertas, Santa Catarina revelou-se campeã absoluta na geração de empregos no País, respondendo por mais de um terço do total de postos de trabalho abertos.

A diferença de desempenho pode ser explicada por múltiplos fatores, mas um deles se sobressai: a diversidade e a densidade industrial do Estado, o mais industrializado do País, com 27% do PIB gerado pela indústria, sendo 20% pela indústria de transformação, o que corresponde ao dobro da média brasileira. Em Santa Catarina, mais de um terço dos empregos formais (34%) está na indústria, e foi justamente o setor, que deu uma forte arrancada no segundo semestre, que puxou a abertura de vagas no ano passado, com quase metade do total do saldo. Em janeiro de 2021 a indústria abriu mais 20 mil vagas, o equivalente a 62% do saldo total do Estado.

Mesmo descontando-se os maiores prejuízos do setor de serviços em função da pandemia, o desempenho catarinense se alinha a uma tendência internacional que vem sendo observada – e profundamente estudada: o papel da industrialização para o desenvolvimento econômico e social, que vinha sendo subestimado, volta com força para o centro das atenções.

“Há um renovado interesse pelas políticas industriais nos últimos anos”, afirma Li Yong, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), na publicação “Industrialização como um guia para a prosperidade sustentável” (Industrialization as the driver of sustained prosperity), lançada recentemente pela entidade. Yong completa: “A industrialização não contribui apenas para o crescimento da economia e atualização da infraestrutura, mas também pode apoiar direta e indiretamente a realização dos objetivos socioeconômicos e ambientais dos ODS (17 objetivos da ONU para o desenvolvimento sustentável) por meio da criação de empregos, melhorias nas condições de trabalho, inovação e desenvolvimento de tecnologias de produção novas e mais verdes”.

Escala | De acordo com o estudo, a indústria de transformação é central para o desenvolvimento devido a três fatores. O primeiro é a maior produtividade em relação à agricultura e aos serviços. Isso se deve ao elevado capital aplicado para a produção em massa, que reduz custos por unidade gerada à medida que a produção aumenta. Retornos crescentes de escala distinguem produtos manufaturados de commodities simples e também da maioria das atividades de serviço, o que torna a manufatura o grande motor do crescimento econômico. No Brasil, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), cada R$ 1 produzido pelo setor resulta em um aumento de R$ 2,40 no PIB, enquanto na agropecuária o resultado é de R$ 1,66.

O segundo fator gerador de desenvolvimento, na visão da Unido, é a forte ligação da manufatura com outras partes da economia. O crescimento de uma indústria cria demanda adicional por suprimentos e gera oportunidades para outras indústrias, garantindo o chamado dinamismo econômico. Não é por acaso que as políticas industriais e de desenvolvimento de muitos países se focam na criação de clusters e ecossistemas, arranjos caracterizados por um conjunto de atividades fortemente entrelaçadas.

Em terceiro lugar, a indústria de transformação é a maior fonte de inovações e avanços tecnológicos, que além de tracionarem o crescimento da própria indústria podem ser utilizadas em outros setores da economia. De acordo com a CNI, a indústria é responsável por 69% do investimento empresarial em P&D no Brasil, o que corresponde a uma contribuição muito mais elevada do que sua participação na economia.

Todos esses motivos ajudam a explicar a ascensão econômica e social de países que se industrializaram recentemente, como os do sudeste asiático. Já o Brasil, por outro lado, passa por um processo de desindustrialização e consequente estagnação econômica. A participação da manufatura no PIB declina, assim como o seu peso mundial. A indústria brasileira era a 10ª maior do mundo em 2014, e atualmente é apenas a 16ª.

Acima da média
PIB de SC cresce mais - ou cai menos - que o do Brasil (%)
Ano Brasil Santa Catarina
2016 -3,3 -2,0
2017 1,3 4,0
2018 1,8 3,7
2019* 1,4 3,5
2020* -4,1 -0,9
Fonte: IBGE/SDE-SC; (*) Estimativa SDE-SC

Reinvenção | Em Santa Catarina, felizmente, o tecido industrial se mantém firme, o que é associado aos resultados do Estado, superiores à média nacional nos últimos anos (veja o quadro). Da mesma forma, a indústria será a chave para a recuperação da economia no pós-pandemia e o principal “drive” de crescimento de Santa Catarina. “Uma das nossas diretrizes para os próximos anos é fazer com que o Estado seja cada vez mais industrializado”, afirma o presidente da FIESC Mario Cezar de Aguiar.

A “bússola” para orientar esse processo é o Programa Travessia, lançado no ano passado. O objetivo é a reinvenção da indústria e da economia do Estado, em sintonia com as tendências aceleradas pela pandemia e com foco na sustentabilidade. O Programa foi concebido como um movimento para envolver toda a sociedade na definição dos rumos e tomada de ações. É inspirado no New Deal americano, o grande pacto econômico e político que permitiu a superação da crise de 1929. A instalação do Instituto da Indústria Eggon João da Silva em Jaraguá do Sul, voltado à mobilidade elétrica, é uma ação concreta da FIESC para a reinvenção da indústria (leia a matéria de capa desta edição). Já a construção de um novo Instituto SENAI de Tecnologia para o setor de alimentos em Chapecó (leia o box) e a instalação do Laboratório de Bioinformática em Florianópolis contribuem para o fortalecimento do cluster de alimentos.

Masterplan | A sintonia com o se­tor público é fundamental para o intento de aumentar o grau de industrialização do Estado, e o Governo Estadual já demonstrou estar alinhado com as premissas do Programa Travessia. Uma prova é a recente criação de um programa para atração de investimentos ao Estado, a Invest SC, em parceria com a FIESC e outras organizações privadas. Além disso, o Governo pode tornar o Programa Travessia o masterplan para o planejamento econômico catarinense.

O potencial é elevado: a FIESC trabalha com o horizonte de ampliar substancialmente o PIB industrial de Santa Catarina. “O Estado pode virar um modelo. Queremos construir uma proposta e congregar os empresários para provocar as mudanças necessárias e fazermos um país melhor e mais desenvolvido”, afirma Mario Cezar de Aguiar.

Densidade tecnológica

Novo Instituto de Tecnologia para alimentos reforça o cluster do setor no Oeste catarinense.

ARK7 ARQUITETOS

Foto: ARK7 ARQUITETOS

A agroindústria catarinense exemplifica o poder da indústria de multiplicar riquezas e oportunidades. O setor, que processa 3 milhões de aves e 34 mil suínos por dia, garante a manutenção de 18 mil produtores integrados com suas famílias no campo e sustenta uma vasta cadeia de produção que envolve produção agrícola e de ovos, incubação de filhotes, transporte especializado, produção de insumos e incontáveis fornecedores, incluindo indústrias de estruturas metálicas, bens de capital, química, farmacêutica, embalagens, gráfica e outras, além de startups.

Santa Catarina abriga um dos maiores clusters globais do setor de alimentos, e a partir do ano que vem terá também uma das maiores e mais bem-equipadas fornecedoras de serviços tecnológicos. É o novo Instituto SENAI de Tecnologia em Alimentos e Bebidas, que começará a ser construído em Chapecó no segundo semestre, com investimentos de R$ 20 milhões.

O atual Instituto, em operação há mais de 20 anos, foi o segundo do Brasil a ser acreditado pelo Ministério da Agricultura. Com o novo, a capacidade salta de 500 para 2 mil ensaios diários. Além de ensaios microbiológicos e físico-químicos, o Instituto terá novos produtos e serviços, como ensaios de sanidade animal, de bebidas com leveduras, ensaios cromatográficos, alergênicos, de toxidade e de metais em produtos de carne, ensaios de grãos, diversas consultorias e desenvolvimento de produtos. “Prestaremos serviços que a indústria atualmente tem que buscar no exterior”, diz Geferson Santos, gerente executivo de Tecnologia do SENAI-SC.

Alguns deles provêm do Laboratório de Biologia Molecular, que já começou a atuar produzindo testes de diagnósticos para Covid-19. Com a nova estrutura, os serviços serão ampliados para as áreas de saúde animal, meio ambiente e agroindústria, além da realização de pesquisa e desenvolvimento. O novo Instituto terá uma área total de 8 mil metros quadrados, onde se incluem também espaços para eventos, estudos, pesquisas e atendimento a clientes.

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