Diferentemente da indústria de transformação, que produz no Estado para fornecer a todo o Brasil e ao exterior, a construção civil tem no território de Santa Catarina um dos maiores – e mais valiosos – mercados do País. Com uma aparentemente infindável sequência de novos lançamentos, o Estado se consolidou como polo emergente da construção no Brasil. A área construída em Santa Catarina saltou da casa de 2 milhões de metros quadrados em 2010 para 23 milhões de metros quadrados em 2024, de acordo com dados compilados pelo Observatório FIESC junto ao Cadastro Nacional de Obras (CNO). E desde então, como se sabe, o valor dos imóveis disparou, com cidades do Litoral Norte catarinense encabeçando as listas de metro quadrado mais caro do Brasil.
“O ano de 2025 fechou com o maior VGV (Valor Geral de Vendas) lançado e o maior VGV vendido da história de Santa Catarina”, afirma Marcos Kahtalian, sócio e fundador da Brain Inteligência Estratégica, consultoria especializada no mercado de imóveis. Isso quer dizer que as transações imobiliárias jamais foram tão volumosas no Estado. Pelo critério do VGV, Santa Catarina é hoje o segundo maior mercado brasileiro, atrás somente de São Paulo. Outro indicador que dimensiona o momento atual: o volume negociado em Santa Catarina, em reais, corresponde a quase dois terços do total da Região Sul.
Por outro lado, o Estado é responsável por 30% do PIB da construção civil do Sul, de acordo com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o que representa metade da participação no VGV regional. A diferença entre o valor de venda dos imóveis e o valor adicionado pela atividade industrial, ou seja, o processo de construção propriamente dito, ocorre porque imóveis com metro quadrado mais caro em Santa Catarina geram receitas maiores sem exigir custos de produção proporcionalmente mais altos do que outros estados. “A composição do mercado catarinense é muito diferente do restante do País, com a predominância do alto padrão. Há um volume muito grande de unidades que custam mais de R$ 1 milhão”, diz Marcos Bellicanta, presidente da Câmara de Desenvolvimento da Indústria da Construção da FIESC.
Planejados | A concretização de todos esses projetos torna algumas cidades verdadeiros canteiros de obras. Municípios como Florianópolis, Itapema, Itajaí e Porto Belo superaram a marca de 1 milhão de metros quadrados construídos em 2024, e mantiveram o ritmo acelerado em 2025, erguendo os edifícios que haviam sido lançados em anos anteriores. No ano passado, a construção civil registrou o segundo maior saldo positivo de vagas da indústria em Santa Catarina, puxando outros setores industriais importantes no Estado, como a cerâmica e produtos de metal – este último setor elevou a produção em mais de 10% em 2025.
Nove construtoras catarinenses estão entre as 100 maiores do Brasil, de acordo com o ranking da Intec Brasil, plataforma especializada em dados de obras em andamento pelo País. O ponto que une oito das nove construtoras é o fato de atuarem fortemente – ou exclusivamente – no Litoral Norte catarinense, região que concentra os projetos de alto padrão e de luxo que caracterizam o boom imobiliário de Santa Catarina. Com belos e famosos destinos turísticos e índices de qualidade de vida e segurança acima da média nacional, a região se tornou objeto de desejo e símbolo de status. O Litoral Norte é repleto de projetos ousados, bilionários, que vão de suntuosas mansões verticais a modernos bairros planejados.
É o caso do Viva Park, um empreendimento com mais de 1 milhão de metros quadrados localizado na entrada de Porto Belo que se baseia no conceito de cidade de 15 minutos, em que todos os serviços essenciais (moradia, trabalho, educação, saúde, lazer) ficam tão próximos que é possível fazer quase tudo a pé. Em tempos de cidades colapsadas, com horas de engarrafamento, barulho e poluição, este é um tipo novo de luxo, cada vez mais procurado por brasileiros que podem pagar por ele.
Da mesma forma que outros empreendimentos de alto padrão, o Viva Park está alinhado às tendências contemporâneas que surgem em todo o mundo a partir de mudanças sociais, demográficas, tecnológicas e ambientais. Ao invés de priorizar grandes metragens, os novos empreendimentos desse nicho miram em soluções inteligentes, localização e visão arquitetônica contemporânea.
“Escolhemos Porto Belo porque ali existia a condição ideal para fazer algo que hoje é muito raro: planejar um bairro inteiro desde o início, com lógica urbana, integração com a natureza e diversidade de usos. O objetivo é resgatar atributos que a vida urbana foi perdendo ao longo do tempo, como o senso de comunidade, a convivência nas ruas”, afirma Roderjan Volaco, presidente da Vokkan, incorporadora responsável pelo projeto.
O Viva Park é apresentado como um “bairro parque” e está dividido em um setor que deve contar com até quatro edifícios de uso misto – incluindo um prédio em formato piramidal que já chama a atenção de quem passa pela BR-101 na entrada do município – e mais uma área para 90 casas. Dentro do bairro já operam seis restaurantes, uma escola de idiomas, um colégio particular e uma academia. Há ainda quadras poliesportivas, além de lagos, parquinhos e área verde. Com acesso livre mesmo para quem não mora ali, o Viva Park se tornou um destino de lazer na região, registrando mais de 120 mil acessos por mês, segundo a Vokkan.
As vendas de unidades começaram em 2020, com os primeiros terrenos esgotados em menos de um dia e, desde então, acumulando valorização de 250%. Em setembro do ano passado, o Viva Park atingiu o marco de R$ 2 bilhões em VGV. Mas, pelos planos dos seus idealizadores, este é apenas o começo: até 2047, este VGV deve atingir os R$ 25 bilhões. Com futuras expansões, que preveem 2 milhões de metros quadrados de área total para o bairro, esse total pode mais que dobrar.
Porto Belo, com menos de 30 mil habitantes, representa o novo pulmão de crescimento imobiliário do Litoral Norte. Além da vocação turística e a proximidade da BR-101, o município ainda possui grande quantidade de áreas inexploradas. Em 2020, uma revisão do Plano Diretor alterou o zoneamento, permitiu a construção de prédios maiores e expandiu a taxa de ocupação – índice que aponta quanto a construção pode ocupar no lote. Desde então as coisas aconteceram tão rápido que Porto Belo já é apontada como candidata a “Nova Balneário Camboriú”, com a diferença de que ali o crescimento tem sido mais ordenado, com maior espaçamento entre os prédios e integração de áreas verdes.
Parceria | Já na icônica Balneário Camboriú original, o que não existe mais é espaço para novas edificações na disputada orla de 6 quilômetros de extensão – a não ser para cima. O Senna Tower, novo lançamento da FG Empreendimentos, considerada a maior empresa do setor em Santa Catarina, terá 550 metros de altura, tornando-se um dos edifícios residenciais mais altos do planeta. Para se ter uma ideia, terá quase o dobro dos dois prédios mais altos da cidade: o One Tower, também da FG, e o Yachthouse by Pininfarina, da Pasqualotto. O VGV é estimado pela construtora em R$ 8,5 bilhões, com cerca de R$ 2,2 bilhões já comercializados.
A fórmula da FG para viabilizar seus grandes projetos inclui o uso de capital próprio obtido por meio do reinvestimento contínuo dos resultados, além de contar com parceiros estratégicos. Um dos mais conhecidos é o dono da rede de lojas Havan, Luciano Hang, que há pelo menos duas décadas apoia projetos da FG. O empresário começou a investir em Balneário Camboriú na virada do milênio. Uma das histórias mais faladas é sobre a mansão na Avenida Atlântica que ele adquiriu na época por menos de R$ 500 mil e que agora é avaliada em R$ 150 milhões. “Naquela época houve um êxodo dos argentinos com a crise no país. E eu comecei a investir e comprar terrenos. Eu falo sempre o seguinte: numa cidade onde há valorização imobiliária, todo mundo quer investir”, relembra Hang.
Para ele, a parceria entre poder público e privado, com a prefeitura estimulando empreendimentos ao liberar o gabarito dos edifícios, sustentou um ciclo de crescimento. “Então, o que aconteceu? As empresas começaram a investir em prédios cada vez mais bonitos, trazendo pessoas que querem investir, e a cidade passou a contar cada vez mais com bons restaurantes, bons lugares para passear. E hoje Balneário Camboriú esbanja beleza, qualidade de vida e segurança”, opina o empresário.
De fato, a explicação para o desenvolvimento do mercado de alto padrão no Litoral Norte passa pelo poder de atração exercido junto a consumidores de altíssimo poder aquisitivo, como empresários do agronegócio da Região Centro-Oeste. Ou de profissionais de alto nível que estão migrando para Santa Catarina em busca de qualidade de vida – tanto o Litoral Norte quanto Florianópolis estão entre as regiões que mais têm recebido novos moradores de alta renda em todo o País.
“Os empreendedores acre- ditaram no potencial do mercado e foram em busca de clientes, trazendo grandes investidores para a nossa região”, avalia Olvacir Bez Fontana, fundador da Construtora Fontana. Com sede em Criciúma e forte atuação no Sul catarinense, a empresa lançou recentemente um empreendimento de alto padrão em Balneário Piçarras para aproveitar a tendência do Litoral Norte.
Mas nem só de luxo nas praias vive o mercado imobiliário catarinense. Ele também é movimentado pela economia real, fora dos círculos do luxo, e o crescimento populacional. Enquanto a economia cresce a taxas muito maiores que a média brasileira – o Governo do Estado estima 5% em 2025 –, Santa Catarina tem 2 milhões de moradores a mais do que em 2010, chegando aos atuais 8,2 milhões de habitantes. “Além disso, o Estado tem a menor taxa de desemprego e a menor taxa de informalidade do Brasil”, acrescenta Marcos Kahtalian, da Brain. “Isso gera renda, previsibilidade e capacidade de compra.”
O mercado para moradias populares tem oportunidades espalhadas por todo o Estado, afastando-se dos territórios mais valorizados, e tem sido explorado por construtoras como a mineira MRV. A empresa iniciou suas operações em solo catarinense no ano 2000, e desde então entregou mais de 50 empreendimentos com quase 14 mil unidades lançadas em cidades como Biguaçu, Blumenau, Jaraguá do Sul, Joinville, Palhoça e São José.
Nos últimos dois anos, a MRV intensificou a atuação em Santa Catarina. Só em 2025 foram mais de 1,2 mil unidades vendidas, um crescimento de 11% em relação ao ano anterior. “Nosso foco é sempre a habitação popular, trabalhando dentro das faixas do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). A grande dificuldade é o custo dos terrenos, há cidades no litoral que não conseguimos entrar por causa disso, mas a gente vem crescendo”, conta Thiago Mendonça, diretor de produção responsável por obras da MRV em toda a Região Sul.
Amenidades | Entre os mais novos empreendimentos está o Flores de Bragança, no bairro Forquilhas, em São José. O condomínio terá 288 unidades de dois quartos e área de lazer que inclui quadra coberta, salão de festas, espaço gourmet, gazebo, playground e pet place. Esta oferta de amenidades, inclusive, é nova tendência entre moradias populares: “Antes, a gente só precisava de um salão de festas. Mas isso vem mudando, e as pessoas vêm valorizando e exigindo esses diferenciais”, comenta Mendonça.
As unidades no Flores de Bragança medem a partir de 40 metros quadrados e os preços partem dos R$ 290 mil, através do MCMV. Apesar de projetos como esse, a utilização dos recursos do programa federal em Santa Catarina é pouco significativa. Entre 2023 e 2025, cerca de 2,1 milhões de unidades foram contratadas pelo programa no Brasil. Dessas, somente 58 mil foram em Santa Catarina. É menos da metade do que foi contratado no Rio Grande do Sul e no Paraná. Isso quer dizer que a oferta de moradias populares é insuficiente no Estado, e preocupa formuladores de políticas públicas. Ao mesmo tempo é uma oportunidade para o crescimento do setor.
Além desse desafio, a continuidade do boom imobiliário catarinense enfrenta alguns percalços. Do ponto de vista conjuntural, a taxa de juros elevada restringiu o crédito e levou a uma redução do número de lançamentos no segundo semestre do ano passado, especialmente de imóveis voltados à classe média. No segmento de luxo, menos dependente de financiamento, o mercado seguiu célere. De todo modo, há consenso no setor de que a situação será normalizada ainda no primeiro semestre de 2026, diante da expectativa de queda de juros, do programa MCMV e de instrumentos como LCIs, CRIs e fundos imobiliários, que ganharam espaço no funding do setor.
Se o momento segue favorável, o mais preocupante para o setor no longo prazo é a sustentabilidade. Em outras palavras, garantir que a infraestrutura acompanhe o crescimento populacional e dê conta da pressão ambiental causada pelo desenvolvimento urbano. “A valorização imobiliária sustentável depende não apenas da força do mercado, mas da capacidade das cidades de acompanhar esse crescimento com estrutura, serviços e previsibilidade. Não há valorização contínua sem saneamento, abastecimento de água, mobilidade e serviços públicos eficientes”, diz Jean Graciola, presidente da FG.
Se os desafios forem superados, há um futuro auspicioso para empresas como a MS Empreendimentos, uma incorporadora fundada há 26 anos em Rio do Sul que aposta em imóveis populares no Alto e Médio Vale do Itajaí a edifícios de alto padrão no Litoral Norte e está entre as maiores do Estado. “Santa Catarina está vivendo um reposicionamento urbano e demográfico muito forte, e tem um grande potencial para os próximos anos. Isso vai sustentar uma demanda sólida por moradia para vários públicos e obras de infraestrutura”, afirma a CEO Carla Taynara de Brito.
A opinião é compartilhada por Marcos Bellicanta, da FIESC. Ele cita a continuidade do crescimento populacional no Estado ainda por algumas décadas, de acordo com projeções do IBGE, para sustentar a tese. Também considera tendências como a redução do número de habitantes por domicílio, o que naturalmente cria demanda por novas moradias, além da continuidade do aumento de renda que tem sido observado no Estado. “Teremos demanda por novas moradias em Santa Catarina pelos próximos 40 anos”, afirma.