Bombeiro voluntário há 17 anos e CEO da indústria Catarinense Pharma há oito, Adriano Silva, 43 anos, acumulava experiência em serviços comunitários e gestão quando decidiu se candidatar à prefeitura de Joinville. Mas apenas a experiência não bastou. Para disputar a vaga pelo Partido Novo teve que passar por um processo de seleção que eliminou a maioria dos postulantes a vagas equivalentes no Brasil. Nas urnas foi o único do partido a se eleger em 2020, quando deixou a presidência da empresa para propor um conjunto inédito de políticas liberais para a maior cidade catarinense.

Prefeito Adriano Silva

Rogério da Silva, prefeito de Joinville - Foto: Divulgação

O que o motivou a postular o cargo?
Parar de reclamar e começar a agir no ambiente em que a gente pode fazer as maiores transformações, que é o político. Infelizmente, a grande maioria dos brasileiros ainda reclama do ambiente político e fala do Governo como se fosse uma entidade separada do cotidiano, e isso eu venho tentando quebrar. É difícil sair do dia a dia e virar vidraça, mas faço isso principalmente pelas novas gerações, para que possam acreditar na política como um processo de transformação positivo. Hoje a grande maioria desacredita no sistema político.

Não ser um político tradicional ajudou em sua eleição?
Sem dúvida. Teve outro fator: aceitei o convite (para a candidatura) por ter sido feito pelo Partido Novo. Acredito que a transformação política no Brasil passa necessariamente por uma reforma política, e o partido já fez uma reforma política dentro de sua própria estrutura. As pessoas são chamadas através de processo seletivo e entrevista, e há regras como não coligar com outros partidos e ter que terminar o mandato. São coisas nas quais eu já acreditava e que sustentaram a narrativa que tivemos durante a campanha, de mostrar por que (a política) pode ser diferente: não era só por ser o meu nome, mas era o meu nome através de um processo diferente.

Qual é a contribuição que o industrial pode dar para a gestão pública?
Fazer administração pública e não política. Não trazer gente sem meritocracia. É claro que gestão pública é diferente de tocar um negócio, tem que ter comunicação diferente, intercolaboração diferente, mas isso não me exime de ter os melhores ao meu lado. Essa é a forma com que o empresário trabalha. Fizemos processo seletivo para os cerca de 500 cargos de confiança e liderança da prefeitura. A maioria foi ocupada pelos próprios servidores, que eram capacitados mas não tinham oportunidade porque eles acabavam com pessoas indicadas politicamente. Também queremos que todas as políticas municipais sejam sustentáveis, exterminando a politicagem. Se for só para trazer custos, não serão adotadas.

Alguns princípios associados à ideia de “nova política” foram abandonados por governos eleitos em 2018.
A forma como conduzimos o trabalho é muito transparente. Tenho contato com 100% dos vereadores e trago todos ao meu gabinete para divulgação das políticas na cidade, como volta às aulas, imunização ou contingências da pandemia. A forma do Partido Novo de não personalizar a política, mas tratar de ideias ou projetos, me dá condições de conversar com todos. O partido tem seis princípios que determinam uma política liberal: liberdade individual com responsabilidade, livre mercado, visão de longo prazo, indivíduo como agente gerador de riqueza, indivíduo como agente de transformação e todos iguais perante a lei. Se os projetos são bons e não ferem os princípios que acreditamos, eu consigo conversar com todos os lados.

O incentivo ao empreendedorismo é uma de suas principais plataformas. Qual é o papel do setor público nesta frente?
O maior legado que o líder pode deixar é a geração de empregos, e isso provém dos empreendedores. Se não os tratarmos como grandes fomentadores da economia, estaremos totalmente errados. Por isso falamos que temos que estender um tapete vermelho para eles. Estamos bolando formatos para que os empreendedores possam ser recebidos como fazem os bancos, que têm suas salas prime. O Brasil é campeão em botar pedras no caminho de quem produz. Temos que inverter.

O que está sendo feito?
Um dos primeiros códigos municipais de defesa do empreendedor, que a prefeitura está elaborando. É um grande marco político-legal de como o empreendedor deve ser tratado em todas as esferas do Governo e também do legislativo. O rito deste código tem que ser seguido quando se for executar uma lei, decreto ou exercer uma função. Qualquer mudança legal terá que ter estudo de impacto econômico para não se fazer uma lei e daqui a pouco ela prejudicar a abertura de empresas ou levar ao fechamento de negócios. Outro ponto é admitir que todo empreendedor tem boa-fé, e não o contrário. Hoje há tanta burocracia que é como se todos fossem bandidos. O código dará essas macrodiretrizes, será quase uma constituição municipal para tratar o empreendedorismo.

E quanto à redução da burocracia?
Temos uma frente na Secretaria do Meio Ambiente, que está em reestruturação para focar mais no trabalho de licenciamento. Outra frente é o mutirão da desburocratização. Um comitê está trabalhando full time no redesenho de decretos, normas, fluxos e processos. Algumas coisas podem ser feitas por decreto e outras, como a lei municipal da liberdade econômica, tramitará no legislativo. Ela terá a mesma lógica da lei federal já existente, que chancela modalidades como autodeclaração.

Como o senhor avalia o estágio de desenvolvimento econômico da cidade, e quais os principais desafios?
Muito do que temos se deve à diversificação econômica, por isso nunca tivemos uma crise – fora a pandemia, é claro – que gerou desemprego generalizado, por exemplo. A grande dificuldade é a infraestrutura, precisamos lidar com isso de forma muito célere para darmos conta do crescimento do município, tanto populacional quanto econômico. Teremos região conurbada de 1 milhão de habitantes em poucos anos e logo seremos obrigados a discutir questões de região metropolitana.

Grandes questões de infraestrutura que impactam Joinville são de competência federal e estadual. Como o município pode influir?
Criando um banco de projetos executivos prontos. Governos entram e saem, e às vezes temos oportunidades de crédito ou de projetos a fundo perdido do Governo Federal, e as prefeituras que não têm projetos executivos perdem o timing e os recursos. Nosso objetivo é ter esse banco, com projetos prontos para licitar e executar.

Que tipo de experiência uma crise como a da Covid traz para o gestor?
Estou envolvido com a pandemia desde o ano passado: coordenei a ajuda humanitária pela ACIJ, juntamente com a FIESC, para compra de respiradores e novos leitos de UTI. Nós, empreendedores, tentamos trabalhar com previsibilidade. Criamos uma metodologia que nos dava uma visão de 14 dias da necessidade de UTI, e já vínhamos até administrando cirurgias eletivas. Mas a nova cepa do vírus mudou radicalmente o cenário, e em cinco ou seis dias degradou nossos planos de contingência (esse panorama é de meados de março). A situação é muito crítica. Nós, brasileiros, temos que pensar em ter uma política nacional mais coesa, unida em favor de um propósito maior. O que sinto é uma desarticulação entre as políticas municipais, estaduais e federais muito grande, o que prejudica o País.

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