Praticante do montanhismo, Guilherme Bertani realizou escaladas épicas enquanto expandia os mercados da Docol pelo mundo. Seguiu subindo, e em 2016 assumiu a presidência da companhia.

Bertani e o alpinista Eduardo Keppke no cume do monte Vinson, na Antártida

Bertani (à dir.) e o alpinista Eduardo Keppke no cume do monte Vinson, na Antártida - Foto: Divulgação

Há muitas metáforas possíveis entre a prática do montanhismo e a vida corporativa. Uma delas é que, por mais que você tente planejar e prever as dificuldades, sempre surgirão imprevistos, pois há variáveis totalmente fora do controle – seja uma nevasca inesperada, seja uma pandemia. “Mas há uma diferença fundamental”, ressalta o CEO da Docol, Guilherme Bertani. “Enquanto o montanhismo é basicamente uma atividade individual, a administração depende do esforço coletivo.”

Aos 50 anos, ele sabe bem do que está falando. Em paralelo com a carreira de 25 anos na conhecida fabricante de metais sanitários sediada em Joinville – incluindo os últimos cinco como o principal executivo –, Guilherme se tornou praticante de montanhismo. Desde 2001, quando subiu o Aconcágua, a montanha mais alta das Américas, já superou dez outros desafios semelhantes.

Ao assumir o comando da empresa, em 2016, ele substituiu o sogro, Ingo Doubrawa, que faleceria no ano seguinte. Era uma grande responsabilidade: filho de um dos fundadores, Ingo permanecera quase 30 anos à frente da companhia, período em que a Docol se consolidou como uma das grandes marcas do setor.

A empresa foi fundada como tornearia e oficina de consertos gerais em 1956, em Jaraguá do Sul, por Edmundo e Egon Doubrawa e Amandus Colin – o nome nasceu da junção da primeira sílaba dos sobrenomes. Dois anos depois, a Docol foi transferida para Joinville e iniciou sua expansão com a fabricação de torneiras, que logo se tornaram a estrela da companhia.

Apesar do laço familiar, Guilherme percorreu uma longa trajetória na empresa para demonstrar que estaria à altura da missão. Nascido em Campinas (SP), filho do médico urologista Milton e da professora da rede estadual Lígia, ele se formou em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV), instituição em que cursaria também uma pós-graduação em Finanças.

Foi durante o curso que conheceu a futura mulher, Vanessa, filha de Ingo. No período em que viveu em São Paulo, Guilherme trabalhou num banco de investimentos e em outra empresa da área financeira. Até que o casal decidiu se mudar para Joinville, em 1993. “Antes de conhecer a Vanessa eu nunca havia me interessado pelo mundo dos materiais de construção e jamais havia vindo a Santa Catarina. Tudo era novidade para mim”, lembra.

A chegada a Joinville não significou o ingresso imediato na empresa da família da mulher, no entanto. O casal abriu um escritório de vendas e só dois anos depois, quando surgiu a necessidade de estruturar o setor de logística, Guilherme foi convidado a assumir o desafio.

“Esse tempo foi importante para que eu me adaptasse à cultura catarinense. Aprendi a admirar este estado que tanto se destaca no cenário nacional, em vários aspectos.” Hoje ele participa ativamente da sociedade local – é, inclusive, um dos vice-presidentes da Associação Empresarial de Joinville (ACIJ).

Instalações da Docol em Joinville e o CEO: maior exportadora de metais sanitários

Instalações da Docol em Joinville e o CEO: maior exportadora de metais sanitários - Foto: Divulgação

Lateral-direito | Não tardaria para que Guilherme acumulasse outra importante missão dentro da Docol: liderar o projeto de expansão das exportações, que então respondiam por apenas 2% da receita. Com uma postura mais ativa na prospecção de novos mercados (o que contribuiu para que o executivo viesse a conhecer cerca de 50 países), as exportações chegaram a responder por 25% do faturamento na década seguinte. Atualmente, com vendas para cerca de 40 países, a empresa é considerada a maior exportadora de metais sanitários da América Latina e uma das líderes na fabricação de torneiras, chuveiros e economizadores de água.

O início do novo milênio viu surgir também o Guilherme montanhista. A convite de um amigo, ele aceitou o desafio de escalar o Aconcágua, na parte argentina da Cordilheira dos Andes, com quase 7 mil metros de altitude. Era uma experiência nova para o executivo, que até tinha um histórico de atleta – inclusive como lateral-direito das categorias de base do seu clube do coração na cidade natal, o Guarani de Campinas. Além do futebol, ele também praticou muito ciclismo e natação.

Guilherme se preparou com grande dedicação durante um ano: comprou vários livros e iniciou um programa específico de preparo físico. A subida foi iniciada com um grupo de mais oito pessoas, incluindo o guia. Guilherme foi um dos três que conseguiram chegar ao topo. “E olha que seis eram praticantes de iron man. Isso porque o montanhismo exige um misto de força, resistência e capacidade aeróbica.” A aventura durou 21 dias e incluiu 45 quilômetros de caminhada, quase sempre com temperaturas próximas a zero.

A partir daí, cada topo alcançado suscitaria o início do planejamento da próxima aventura, programada para as férias seguintes. Foi assim que ele venceu, por exemplo, o célebre Kilimanjaro, na Tanzânia, e o Elbrus, na Rússia, a montanha mais alta da Europa, além do monte Everest. Tornou-se um dos poucos brasileiros a cumprir o “desafio dos sete cumes”, que é subir as montanhas mais altas de cada continente (considerando América do Norte e do Sul em separado e incluindo a Antártida).

Bertani é um dos poucos brasileiros a vencer o ”Desafio dos sete cumes”, que envolve escalar algumas das montanhas mais altas do mundo

Bertani é um dos poucos brasileiros a vencer o ”Desafio dos sete cumes”, que envolve escalar algumas das montanhas mais altas do mundo - Foto: Divulgação

Estratégico | Enquanto estava sempre estudando a próxima montanha, Guilherme acumulava grandes conquistas também na trajetória profissional. Tornou-se diretor de marke­ting da Docol e continuou fazendo uma série de cursos de aperfeiçoamento em algumas das mais relevantes escolas de negócios do mundo: Berkeley, Wharton, Harvard e London Business School.

Quando o processo sucessório começou a ser planejado, ele despontou como um candidato natural. Ainda assim foi submetido ao processo seletivo, realizado por uma consultoria contratada. “Sempre acreditei muito no meu potencial e trabalhei com afinco para ter bom desempenho. Nunca me vi com futuro garantido apenas por fazer parte da família.”

A ascensão de Guilherme à presidência da Docol representou uma mudança considerável no estilo de gestão. “Meu sogro era um empreendedor tipicamente intuitivo, que conhecia muito o dia a dia das operações. Estudei para me tornar executivo e meu pensamento tende a ser mais estratégico”, compara.

O lado racional é contrabalanceado por interesses como a poesia. Em 2012, ele publicou o primeiro livro, Tao Dôgui, com uma seleção de poemas. Embora o título possa à primeira vista evocar algum idioma asiático, trata-se de uma brincadeira com “o tal do Gui”. Em 2017 ele publicou o segundo livro, Sobre a fronte de Atlas, desta vez para relatar o desafio de vencer o Vinson, o monte mais alto da Antártida, com quase 5 mil metros.

No dia a dia, Guilherme procura levar uma vida sem tantas aventuras e bastante regrada, inclusive no que diz respeito à separação entre vida profissional e pessoal. “Em geral encerro o expediente de trabalho às seis, para assegurar o convívio com a família”, conta.

Docol

  • Sede - Joiville
  • Faturamento (2020) - R$ 650 milhões
  • Exportações - 15% do faturamento
  • Países de destino - 40 países
  • Funcionários - 1.800
  • Revendedores - 13 mil

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