O Exército Brasileiro (EB) deu um passo decisivo para modernizar sua capacidade de dissuasão ao definir o sistema EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), da MBDA, como sua nova plataforma de defesa antiaérea de média altura. Esta decisão soluciona uma vulnerabilidade histórica: a incapacidade de atingir alvos a altitudes e distâncias superiores ao alcance dos sistemas de baixa altura (como o RBS 70). Com o EMADS, o Brasil passa a operar na camada de defesa que protege contra aeronaves de caça modernas, mísseis de cruzeiro e drones de ataque em raios superiores a 25 km.
SINERGIA COM A MARINHA: O CONCEITO DE MÍSSIL COMUM
O ponto de maior relevância estratégica desta aquisição é a comunalidade tecnológica com a Marinha do Brasil. O sistema EMADS utiliza o míssil CAMM (Common Anti-air Modular Missile), que é o mesmo vetor utilizado no sistema Sea Ceptor, embarcado nas novas Fragatas Classe Tamandaré (F200).
Essa escolha gera uma sinergia logística sem precedentes:
- Logística e Manutenção: O estoque de munição e a cadeia de suprimentos tornam-se unificados, facilitando a manutenção e reduzindo custos operacionais.
- Treinamento Unificado: A doutrina de emprego e o treinamento de operadores podem ser compartilhados entre as Forças.
- Economia de Escala: A aquisição conjunta permite melhores negociações de preços e maior volume de compensações tecnológicas (offsets) para o país.
O DIFERENCIAL TÉCNICO DO SISTEMA EMADS
O EMADS destaca-se por ser um sistema de "Lançamento Vertical a Frio". O míssil é ejetado do lançador antes de acionar seu motor principal, o que traz vantagens táticas imediatas:
- Cobertura Total (360°): O míssil faz a curva no ar, permitindo resposta instantânea a ameaças vindas de qualquer direção sem a necessidade de girar a plataforma.
- Buscador Ativo de RF: O míssil possui seu próprio radar interno para a fase final, permitindo o engajamento de diversos alvos simultaneamente.
- Mobilidade e Discrição: Montado em viaturas 8x8, possui alta mobilidade e assinatura térmica reduzida no lançamento, dificultando a localização da bateria pelo inimigo.
ESTRUTURA OPERACIONAL E COMPOSIÇÃO DAS UNIDADES
A arquitetura do sistema EMADS selecionada pelo Exército Brasileiro é baseada em uma estrutura modular composta por diferentes veículos especializados, montados sobre plataformas de rodas Iveco 8x8. Uma unidade de fogo padrão (bateria) é tecnicamente composta pelos seguintes elementos:
- Centro de Operações de Artilharia Antiaérea (COAAe): Unidade de comando e controle responsável pelo processamento de dados, designação de alvos e coordenação dos disparos.
- Unidade de Sensor (Radar): Composta pelo radar M200 Vigilante, de fabricação nacional pela Embraer, que realiza a vigilância, detecção e o rastreamento de alvos.
- Unidades de Lançamento (iLauncher): Veículos equipados com casulos de lançamento vertical para os mísseis CAMM. Estas unidades são capazes de operar de forma distribuída em relação ao centro de comando.
- Unidades de Recompletamento: Veículos logísticos destinados ao transporte de munição reserva e equipamentos de recarga das plataformas de lançamento.
O funcionamento do sistema utiliza o método de lançamento vertical a frio, onde o míssil é expelido do tubo por um sistema pneumático antes da ignição do motor, permitindo uma cobertura de 360 graus sem a necessidade de orientação prévia do lançador. Em termos de integração sistêmica, o EMADS opera conectado ao SISDABRA (Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro), permitindo a troca de dados táticos entre os sensores terrestres e os centros de controle da Força Aérea Brasileira e da Marinha.
Esta configuração permite que a bateria atue de forma centralizada ou com seus componentes dispersos geograficamente, mantendo a capacidade de engajamento simultâneo de múltiplas ameaças, como aeronaves de asa fixa, rotativa e mísseis de cruzeiro, dentro do envelope de alcance previsto para sistemas de média altura.
SOBERANIA E O RADAR NACIONAL M200 VIGILANTE
A integração com a Base Industrial de Defesa (BID) foi um requisito fundamental. O sistema EMADS operará integrado ao radar M200 Vigilante, desenvolvido pela Embraer. Esta integração assegura que o Brasil detenha a autonomia sobre o sistema de comando e controle, garantindo que o país não dependa de protocolos estrangeiros fechados para a defesa do seu espaço aéreo.
A escolha do EMADS representa a construção de um escudo integrado. Ao alinhar a defesa terrestre com a defesa naval das Fragatas Tamandaré e utilizar sensores nacionais da Embraer, o Brasil cria uma rede de proteção multicamadas inteligente e soberana, fortalecendo sua posição estratégica na América do Sul.
Fotografia: MBDA.
