A saúde mental entrou na ordem do dia da indústria, impulsionada por dados alarmantes sobre o sofrimento emocional dos trabalhadores e os impactos diretos no desempenho organizacional. Cada nova estatística divulgada demonstra o agravamento da situação. O Ministério da Previdência Social contabiliza mais de meio milhão de afastamentos do trabalho em 2025 devido a problemas de saúde mental, o que se configura na continuidade de uma escalada e no registro de um novo recorde. Agora, doenças como ansiedade e depressão se constituem na segunda maior causa de afastamentos do trabalho, atrás somente de dores nas costas.
Trata-se de um fenômeno mundial, mas o Brasil está especialmente exposto. O País é considerado o mais ansioso do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), além de ocupar o segundo lugar em níveis de estresse e o quinto em depressão. Proporcionalmente à população, Santa Catarina foi o estado que mais registrou afastamentos do trabalho por saúde mental em 2025. Devido à complexidade dos quadros, os afastamentos podem durar de três meses a muitos anos.
O absenteísmo – que além de licenças médicas inclui faltas ao trabalho, atrasos e saídas antecipadas – não é a única consequência para as empresas. O chamado presenteísmo pode ser ainda mais grave. Trata-se de situação descrita como uma presença improdutiva, em que a pessoa está com o foco reduzido. É causa de acidentes de trabalho, baixa qualidade nas entregas, custos invisíveis, turnover alto e clima organizacional comprometido, com baixo engajamento das equipes.
Com tantas evidências acumuladas no ambiente empresarial, há uma notável mudança de paradigma para lidar com a situação. De acordo com levantamento do SESI catarinense, 76% das empresas estão ampliando o investimento em saúde mental. “As empresas já entenderam que não se trata de uma questão de ‘fraqueza individual’ do trabalhador, mas um problema de saúde pública”, diz Daniel Tenconi, superintendente regional do SESI/SC. “O desafio atual não é mais reconhecer o problema, mas saber como enfrentá-lo de forma estruturada dentro das organizações”, afirma.
Lideranças | A experiência da Calwer Mineração, fabricante de calcário de Botuverá, ilustra como o desafio pode ser superado. No final de 2023, um funcionário pediu demissão. Como o superior hierárquico dele não estava presente naquele dia, coube ao CEO José Manoel Werner entrevistar o funcionário sobre os motivos da saída, uma prática do RH da companhia. “Tratava-se de um funcionário excelente, e eu perguntei por que estava nos deixando – se era porque havia recebido uma proposta melhor ou estava insatisfeito com o trabalho”, recorda Werner.
Ele respondeu que não tinha nenhum problema, que se dava bem com o líder e com a equipe. Diante da insistência do empresário para compreender os motivos, o funcionário começou a chorar. “Ele estava com problemas pessoais, se separando da esposa. Queria ir embora da cidade e não via outra solução senão se demitir”, lembra. Werner acolheu-o. Ofereceu água e um abraço. Disse que a empresa gostava de seu trabalho e sugeriu que tirasse um período de férias para reorganizar a vida pessoal. “Deu certo. O colaborador continua trabalhando conosco. E continua casado”, conta Werner, que comanda a empresa criada há mais de 40 anos por seu pai.
O episódio levou o CEO da Calwer a estruturar um programa, em parceria com o SESI/SC, a fim de disponibilizar atendimento de saúde mental para todos os seus 115 funcionários. Uma das primeiras ações propostas foi o treinamento dos líderes, capacitando-os a identificar mudanças de comportamento entre os colaboradores e a melhorar a comunicação com eles. Em seguida houve a incorporação de uma psicóloga, que fica à disposição um dia da semana durante o horário de trabalho da equipe.
“Ficamos receosos, a princípio, de que aquilo pudesse se tornar um muro de lamentações, mas não foi o que aconteceu. Os colaboradores compreenderam que o intuito é auxiliá-los a superar problemas pessoais, e hoje chegamos a ter fila de espera por atendimento”, diz Werner. A melhora é perceptível em indicadores de clima no ambiente de trabalho. A participação dos funcionários na pesquisa, que é voluntária, cresceu de 65% para 95% de 2024 para 2025, assim como o índice de satisfação (NPS) subiu da zona de qualidade para a de excelência.
Causa externa | A maioria dos casos é de baixa complexidade, mas às vezes há situações em que o colaborador sofre de depressão, já com sintomas físicos decorrentes de causas emocionais, e o acolhimento o ajuda a tomar ciência do problema e a entender a necessidade de ser encaminhado para um tratamento especializado. As causas principais das queixas giram em torno de problemas pessoais, dificuldades financeiras e efeitos de estresse. Só em quarto lugar aparece algo relacionado ao trabalho: problemas de relacionamento com o chefe. Os achados da Calwer se alinham com a percepção geral de que a maioria dos transtornos mentais não tem origem no ambiente de trabalho.
“A empresa é uma amostra da sociedade. O que acontece fora entra pelos portões da fábrica e tem consequências internas”, diz a psicóloga Daniela Zanatta, especialista em Saúde Mental no Trabalho do SESI/SC. Questões como endividamento, conflitos familiares, luto, uso de drogas, solidão e fragilização das redes de apoio social aparecem com frequência entre os trabalhadores. Quando não são identificadas precocemente, as situações evoluem para quadros mais graves. Por isso, boa parte das soluções desenvolvidas pelo SESI tem foco na identificação do problema.
Nessa linha, o trabalho com as lideranças é fundamental. Um erro recorrente das indústrias é promover bons técnicos para cargos de liderança sem prepará-los para gerir pessoas. Além de preparar os líderes para que não se tornem fonte de estresse adicional, eles devem aprender a ajudar o trabalhador a lidar com problemas que vêm de fora. Outra solução desenvolvida pelo SESI são as Brigadas de Saúde Mental, que capacitam trabalhadores voluntários para realizar os “primeiros socorros”. “Hoje é comum pessoas terem crises de ansiedade ou pânico no trabalho. Saber lidar com esse primeiro momento faz toda a diferença, muitas vezes pode salvar vidas”, afirma Sendi Lopes, gerente de Saúde do SESI/SC.
Diante do crescimento da demanda, a área de saúde mental vem ganhando protagonismo no SESI catarinense, que oferece soluções estruturadas que podem ser implementadas de forma modular pelas empresas (veja o box). Os resultados não demoram a aparecer. Na Karsten, há dois anos uma psicóloga designada pelo SESI passou a trabalhar no ambulatório da fábrica em Blumenau, a princípio por um período de quatro horas por semana, que logo se mostrou insuficiente e cresceu para 15 horas semanais. Em 2025 foram 322 atendimentos.
“A escuta aberta da nossa psicóloga permite separar os funcionários que só estão precisando falar sobre sua realidade e ter alguma orientação, caso dos que enfrentam problemas financeiros, por exemplo, daqueles colaboradores que têm um problema agudo e precisam de alguma intervenção medicamentosa no próprio ambulatório e os que necessitam de ajuda de um psiquiatra – nós encaminhamos o atendimento quando é necessário”, explica Claudia Bastos Padilha, especialista em enfermagem do trabalho e supervisora do ambulatório.
O trabalho está sendo expandido por meio de atendimento on-line, para garantir assistência psicológica aos funcionários, além da sede em Blumenau, nas unidades de Blumenau e Ibirama e em lojas em várias cidades – no total a Karsten tem 2,5 mil funcionários. Em paralelo, os gestores são capacitados para identificar funcionários com sinais de sofrimento psíquico. O treinamento de supervisores e coordenadores acontece duas vezes por ano. Em 2025 foi realizado um treinamento extra, voltado para uma escala mais alta da hierarquia, envolvendo pela primeira vez também os gerentes e os diretores da Karsten. “O importante é que as lideranças estejam cientes de seu papel de estimular uma cultura de cuidado e de promover a saúde mental”, diz Padilha.
Engajamento | Atualmente, mais de 100 empresas utilizam as soluções em saúde mental do SESI/SC, com cerca de 10 mil trabalhadores atendidos de forma direta. Embora os impactos quantitativos em indicadores como absenteísmo e produtividade ainda estejam sendo sistematizados em estudos mais robustos, os resultados qualitativos são claros. “As pessoas relatam mais disposição para o trabalho, melhora nos relacionamentos e percepção de lideranças mais acessíveis”, afirma Zanatta. “As famílias agradecem. O trabalhador muda em casa. Isso volta para a empresa em engajamento.”
Percepções como essa posicionam a gestão da saúde mental como estratégia de competitividade e de atração e retenção de talentos em um cenário de escassez de mão de obra, mas não é só. “A saúde mental é uma porta de entrada para discutir liderança, cultura organizacional e gestão de pessoas. Quando o empresário percebe o tamanho do problema e decide agir, os resultados aparecem – não só nessa área, mas em toda a empresa”, afirma Daniel Tenconi.
ALERTA VERMELHO
Posição do Brasil em “ranking” mundial de problemas de saúde mental
- 1º em ansiedade
- 2º em estresse
- 5º em depressão
Região Sul tem 50% a mais de casos de depressão do que a média nacional
Fonte: SESI/SC
Como estruturar um programa
Mesmo reconhecendo o problema, muitas organizações ainda tratam a saúde mental de forma reativa ou pontual, sem políticas estruturadas de monitoramento, prevenção e acolhimento, perpetuando estigmas e deixando lacunas importantes na gestão de riscos psicossociais. “É necessário integrar as ações com a gestão operacional e com indicadores que permitam acompanhamento contínuo”, diz Sendi Lopes, gerente de Saúde do SESI/SC. Conheça algumas soluções desenvolvidas pela entidade:
• Trilhas de lideranças para formação contínua por meio de workshops e oficinas com foco em escuta, acolhimento, identificação de sinais de sofrimento e encaminhamento adequado
• Ações educativas e rodas de conversa com trabalhadores para reduzir estigmas, ampliar o autocuidado e estimular a busca por ajuda
• Atendimentos psicológicos individuais e em grupo, presenciais ou on-line
• Atuação em situações de crise, como luto coletivo, acidentes ou eventos traumáticos
• Estruturação de Brigada de Saúde Mental, com capacitação de voluntários para atuarem nos “primeiros socorros”
• Monitoramento do ambiente de trabalho e geração de indicadores de bem-estar para tomada de decisões baseadas em dados.