Mudanças na política econômica da Argentina restauram previsibilidade, impulsionam exportações e fortalecem perspectivas de integração produtiva com Santa Catarina - Com reportagem de Leo Laps.
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Política econômica liberal incluiu desregulamentação e eliminação de barreiras à importação - Foto: Adobestock

Brasil e Argentina têm uma relação complexa e de longa data, marcada por altos e baixos, crises cambiais, disputas comerciais e reaproximações. Atualmente, por mais que os presidentes Javier Milei, da Argentina, e Luiz Inácio Lula da Silva vivam às turras em função de diferenças ideológicas, boas oportunidades estão surgindo. Tanto que as exportações brasileiras para a Argentina cresceram 31% no ano passado, posicionando o Brasil como principal exportador para o vizinho, de acordo com a ApexBrasil. As vendas de Santa Catarina tiveram alta de 17%, atingindo o maior patamar da década (veja o gráfico).

No passado, durante muitos anos, a Argentina foi o principal destino das exportações catarinenses. Antes mesmo do Mercosul já havia forte intercâmbio, especialmente nos setores têxtil, metalmecânico e de alimentos. A partir da segunda metade dos anos 1990, com a ascensão da China e, mais tarde, com a consolidação dos Estados Unidos como principal mercado externo de Santa Catarina, Buenos Aires perdeu espaço relativo. Pesaram as sucessivas crises econômicas e o gradual fechamento do país vizinho, que impôs barreiras administrativas e financeiras às importações. Mesmo com o Mercosul em vigor, as medidas tornaram o mercado argentino caro, imprevisível e arriscado para o exportador catarinense. O cenário agora é outro.

“A gestão de Milei marca uma guinada liberal na política econômica. Seu foco é reduzir ao mínimo a intervenção do estado no comércio exterior”, afirma Maria Teresa Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da FIESC. Com um programa que incluiu cortes na máquina pública, desregulamentação e eliminação de barreiras à importação, o governo reduziu licenças, flexibilizou controles e restaurou previsibilidade ao ambiente de negócios. A inflação desacelerou, a confiança empresarial melhorou e o mercado voltou a importar com maior fluidez.

Para exportadores brasileiros, isso se traduz em menos entraves operacionais e maior segurança jurídica nas transações. Significa também um mercado mais comprador e dependente de fornecedores externos, pois a indústria argentina está sucateada. É por isso que, diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos para a indústria de madeira e móveis do Brasil, diversas empresas do setor de Santa Catarina passaram a prospectar o mercado argentino.

Missão | O setor moveleiro foi destaque em missão organizada pela FIESC em novembro, que levou mais de 20 empresários para a Argentina. Em mais de 200 reuniões de negócios realizadas, abriu-se uma perspectiva de vendas de US$ 4 milhões. “Os móveis catarinenses eram conhecidos, mas não comprados, porque nenhum empresário catarinense estava trabalhando o mercado argentino”, diz Bustamante.

A gerente comercial Gisele Schneider foi a enviada da Interlink, indústria de móveis de São Bento do Sul, para participar da missão em Buenos Aires. Voltou de lá com a expectativa de gerar US$ 600 mil em vendas para o país até o final de 2026. “Quase metade das importações de móveis da Argentina é de móveis de quarto, nosso principal nicho. Então, há um grande mercado no país”, avalia a executiva.

A Interlink é uma multinacional de origem francesa que direciona a maior parte da produção brasileira para a União Europeia. Sofre com os efeitos da Guerra da Ucrânia, que desaqueceu o mercado europeu, e também com o aumento da concorrência no mercado interno, por causa das barreiras americanas aos exportadores brasileiros. A empresa acelerou a busca por novos mercados, e a meta é que América Latina e Europa dividam, cada uma, 50% do faturamento da empresa. Argentina, Paraguai e México são os alvos preferenciais. A estratégia está definida. “Não vamos brigar por preços. Queremos mostrar o diferencial do nosso produto”, afirma Schneider.

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De acordo com Schneider, da Interlink, a Argentina é a aposta principal para diversificação de mercados da empresa - Foto: Divulgação

Após os bons resultados de 2025, as exportações para a Argentina recuaram na virada do ano. Reflexo de instabilidade cambial e incertezas políticas, de acordo com Aline Martins Faraco, CEO da Faracomex, empresa de comércio exterior de Florianópolis. Ela conta que o clima com o país é de cautela, mas não de recuo, e projeta um cenário de retomada gradual nas exportações no segundo semestre.

“Ninguém quer sair da Argentina, o país é visto como um mercado estratégico. O que mudou foi a postura: os argentinos estão mais seletivos, comprando lotes menores, negociando prazos e pedindo mais previsibilidade”, avalia Faraco. Para acessar a Argentina, Santa Catarina está bem posicionada em relação aos concorrentes chineses. Além da tarifa zero do Mercosul, pesa a proximidade geográfica e cultural. “Temos prazo de entrega muito menor, flexibilidade para customização, suporte técnico e pós-venda próximo do cliente”, diz Faraco.

As oportunidades não se restringem às exportações. Na nova geografia dos negócios, a tendência é que Brasil e Argentina fortaleçam cadeias regionais para atender mercados como a União Europeia, que possui acordo com o Mercosul – o acordo já foi aprovado pelos legislativos dos dois países. “Não se trata apenas de vender produtos acabados, mas de construir alianças que envolvam investimento, tecnologia, capital humano e desenvolvimento conjunto”, afirma Bustamante, da FIESC.

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Foto: Divulgação

Máquinas | A melhora do ambiente de negócios, reforçada pela recente reforma trabalhista aprovada no país vizinho, pode fomentar parcerias estratégicas. A avaliação é que a reindustrialização argentina baseada em uma maior integração produtiva deva gerar mais demanda por componentes, insumos, máquinas e produtos industriais catarinenses. É o que a Potenza, fabricante de soluções para movimentação de carga como garras hidráulicas e gruas, pretende aproveitar. 

A empresa de Lages já tem presença comercial na Argentina e enxerga novas oportunidades no horizonte, como o acordo de livre comércio e de investimentos que vem sendo costurado entre o país vizinho e os Estados Unidos, fora do âmbito do Mercosul. De acordo com o CEO Eliel Burigo Borges, uma possibilidade à vista é implantar uma filial da Potenza para acessar o mercado americano pelo país. “Contudo, fatores como investimentos, custos e logística precisam ser avaliados ante o preço final nos mercados de destino”, pondera Burigo.

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Burigo Borges, da Potenza, analisa implantação de filial na Argentina para acessar mercado dos EUA - Foto: Filipe Scotti

Apetite renovado

Exportações de SC para Argentina e participação no total exportado pelo Estado:

2020 - US$ 369,6 milhões (5,0%)
2021 - US$ 537,2 milhões (5,6%)
2022 - US$ 845,1 milhões (6,9%)
2023 - US$ 887,5 milhões (7,0%)
2024 - US$ 760,7 milhões (6,4%)
2025 - US$ 889,4 milhões (7,3%)
 

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