Depois da revolução promovida pela internet e da transformação acelerada pela inteligência artificial, uma nova fronteira tecnológica mobiliza gigantes globais da indústria: a biotecnologia. E foi em Santa Catarina – mais precisamente em Florianópolis, onde se consolidou um dos principais ecossistemas tecnológicos do País – que a maior empresa de alimentos do mundo decidiu instalar seu centro de biotecnologia avançada, que tem o objetivo de elevar o valor agregado da cadeia global de proteínas. A inauguração da JBS Biotech em abril posiciona o Estado no centro de uma transformação que pode redefinir a forma como os alimentos serão desenvolvidos, produzidos e consumidos.
A companhia avaliou diferentes locais antes de optar pela capital catarinense, onde identificou uma combinação rara de infraestrutura tecnológica, disponibilidade de talentos e qualidade de vida capaz de sustentar um projeto científico de longo prazo. De acordo com a CEO da JBS Biotech, Fernanda Berti, a integração entre tecnologia da informação e biotecnologia é fundamental porque processos biotecnológicos modernos dependem de volumes massivos de dados, modelagens computacionais e inteligência artificial para acelerar pesquisas e reduzir o tempo necessário para validação experimental. “Os dados são o tesouro da biotecnologia”, resume a executiva.
A conexão entre as áreas ajuda a explicar por que ecossistemas tradicionalmente ligados à tecnologia digital vêm se tornando polos globais de biotecnologia, como Cambridge e o próprio Vale do Silício, onde atuam empresas que operam na fronteira da computação com a biologia. No caso catarinense, a presença de empresas de software, ciência de dados, automação e inteligência artificial cria uma base para o avanço de pesquisas ligadas à engenharia molecular, genômica e nutrição de precisão, dentre outras áreas.
A estrutura do centro de pesquisas revela essa convergência. Instalada no parque tecnológico Sapiens Parque, em uma área de 4 mil metros quadrados, a JBS Biotech reúne mais de 20 laboratórios especializados, infraestrutura de supercomputação, sequenciamento genético, sistemas avançados de análise de dados, inteligência artificial e ferramentas de genômica, proteômica e metabolômica – estas últimas estudam o DNA, as proteínas e os metabólitos, que são as moléculas geradas pelo metabolismo como açúcares, aminoácidos e lipídios. Também possui um biobanco, para preservação de amostras biológicas e tem capacidade de cultivo de células, micro-organismos e plantas. “O objetivo é permitir que pesquisadores trabalhem desde a ciência básica até a validação industrial de novas tecnologias em um mesmo ambiente, conectando biologia molecular, engenharia e modelagem computacional”, explica Fernanda Berti.
A iniciativa fortalece a pretensão de Santa Catarina se consolidar como um polo de biotecnologia, com potencial para atrair pesquisadores, startups, fornecedores especializados e novos investimentos ligados à ciência aplicada. A própria JBS promoveu um movimento de repatriação de cientistas brasileiros que atuavam em centros internacionais de pesquisa e retornaram ao País para integrar a equipe da Biotech. Além das dimensões do projeto, a qualidade de vida de Florianópolis foi decisiva para que os pesquisadores topassem o desafio.
Para Berti, a presença da companhia pode funcionar como elemento mobilizador de um ecossistema biotecnológico ainda em consolidação. “Inovação científica não se desenvolve de forma isolada. Mesmo como empresa privada, olhando para inovação incremental ou disruptiva, a gente não faz nada sozinho”, afirma a executiva.
Bioprospecção | A relação construída com a FIESC ajuda a ilustrar essa lógica colaborativa. Antes mesmo da conclusão da sede da JBS Biotech, os primeiros pesquisadores da empresa utilizaram as instalações do Instituto SENAI de Inovação em Sistemas Embarcados (ISI-SE), em Florianópolis. Ali foram planejados os primeiros projetos, laboratórios foram estruturados e parcerias articuladas. A convivência abriu espaço para parcerias, como um projeto financiado pela Embrapii voltado à prospecção de novos insumos para a cadeia de proteína cultivada. A iniciativa reuniu a JBS, a empresa Duas Rodas – hoje DR Aromas & Ingredientes –, as startups BiomeHub e AlgaSul, além de unidades do SENAI de outros estados.
O projeto investigou meios alternativos para cultura celular, reduzindo a dependência de insumos tradicionais utilizados em pesquisas de proteína cultivada – tecnologia que serviu como marco motivador para a criação da JBS Biotech. Uma das entregas foi um protótipo de software voltado à bioprospecção, capaz de investigar como organismos podem contribuir em diferentes contextos industriais. “Embora o sistema tenha surgido dentro do contexto de proteína cultivada, ele pode ser adaptado para outros setores, como cosméticos, materiais e bioingredientes”, diz Leonardo Oliveira, gerente de Operações do ISI-SE.
A parceria se expandiu para outras frentes. O Instituto SENAI passou, por exemplo, a prestar serviços especializados de ensaios laboratoriais, análises proteômicas e metabolômicas, consultorias para implantação de processos industriais e apoio técnico na aquisição de equipamentos científicos. Além disso, serviu como ponto de conexão com a rede de Institutos SENAI de todo o Brasil. “A chegada da JBS Biotech fortalece um ambiente que já reúne startups, centros de pesquisa e empresas ligadas à inovação científica, criando novas demandas por serviços tecnológicos, desenvolvimento de software, modelagem computacional e pesquisa aplicada. A pesquisa biotecnológica como um todo é fomentada com a presença desse centro em Florianópolis”, afirma Oliveira.