A importância crescente no País de fontes renováveis de energia como a solar e a eólica impulsiona investimentos em um tipo de tecnologia que permite armazenar eletricidade gerada em períodos de grande produção para distribuí-la posteriormente, reduzindo o risco de apagões em momentos de grande consumo. São os BESS (sistemas de armazenamento de energia em baterias, na sigla em inglês), instalações modulares formadas por baterias, inversores e outros componentes.
Um estudo publicado no ano passado pela consultoria Greener calculou que o mercado de armazenamento de energia em baterias pode movimentar R$ 22,5 bilhões no Brasil até 2030. Outra estimativa, da Associação Brasileira de Soluções em Armazenamento de Energia (Absae), aponta um potencial de mercado ainda maior, de R$ 44 bilhões, caso o País crie um marco legal consistente para o setor que dê segurança a fabricantes e investidores.
Um exemplo recente desse tipo de investimento é a planta industrial dedicada à produção de BESS que a WEG começa a construir em Itajaí, com previsão de início de operação no segundo semestre de 2027. A unidade terá um alto nível de automação industrial – ainda assim, vai gerar 90 empregos diretos. Além da fábrica, contará com um laboratório para testes, desenvolvimento e qualificação de produtos, e uma subestação de energia para simulação de condições reais de operação.
A capacidade inicial será de até 2 GWh (gigawatt-hora) por ano, o que equivale a uma produção anual de cerca de 400 módulos de 5 MWh (megawatt-hora) – esta quantidade de energia é apropriada para o uso em indústrias e grandes estabelecimentos comerciais. Atualmente, a empresa já produz em outras de suas fábricas o equivalente a 1 GWh em células, módulos e packs e baterias, que são comercializados no Brasil e em países como África do Sul, Colômbia, Estados Unidos, México e Finlândia.
Para construir a nova planta, a WEG obteve financiamento de R$ 280 milhões de um programa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Mais Inovação. O projeto foi o primeiro contratado em uma chamada pública voltada para transição energética e descarbonização, realizada em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência federal de fomento à inovação. “A nova fábrica em Itajaí representa um dos principais investimentos industriais recentes da companhia na área de transição energética”, afirma Manfred Peter Johann, vice-presidente de Automação e Sistemas da empresa.
Data centers | Diferentes perfis de clientes no Brasil e no exterior devem se beneficiar da oferta de soluções BESS da WEG, como empresas do setor elétrico, usinas solares e eólicas, operadores logísticos e data centers, grandes fazendas (que necessitam energia, por exemplo, para irrigação), clientes comerciais com elevado consumo energético, entre outros. Quem comprar um módulo poderá ter acesso a linhas de crédito do Finame, do BNDES. Essa opção já está disponível para os equipamentos produzidos atualmente, graças a um acordo de “nacionalização progressiva” dos componentes celebrado com o banco.
Em um sistema BESS a energia pode ser captada de diferentes fontes por um controlador de carga, responsável por gerenciar o processo de carregamento e descarregamento das baterias. Quando há demanda, a carga acumulada passa por um inversor, que transforma a corrente elétrica no padrão compatível para ser usada em equipamentos elétricos. Além das baterias, do inversor e dos sistemas de gerenciamento, os módulos dispõem de sistemas de refrigeração e de proteção contra incêndio.
A WEG está fornecendo sistemas BESS para garagens de ônibus elétricos da capital paulista – cada módulo com capacidade de 4,5 MWh de energia pode carregar até 120 coletivos. Outro exemplo de aplicação dessa tecnologia é uma parceria com a empresa Neoenergia para descarbonizar a geração de energia em Fernando de Noronha, com a instalação de uma usina com 30 mil painéis solares acoplada a um sistema BESS com capacidade de 49 MWh para armazenamento. O objetivo é viabilizar, até o final de 2026, o fornecimento contínuo de energia limpa durante a noite e mesmo em dias nublados na ilha. A geração hoje é feita por uma termelétrica que utiliza predominantemente biodiesel.
O BESS complementa a atuação da WEG em geração, transmissão, distribuição, automação e energia solar. No futuro, deve ganhar protagonismo por atender uma necessidade estrutural do setor elétrico: trazer estabilidade, flexibilidade e maior eficiência para uma matriz com crescente participação de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica. A produção dos sistemas será integrada à cadeia industrial já consolidada da WEG no Brasil. “O objetivo é ampliar o conteúdo nacional dos sistemas, incorporando equipamentos produzidos localmente, como transformadores, automação, painéis, cubículos de média tensão e sistemas de supervisão e controle”, diz Johann.
Gestão de excedentes | No início de junho, o Ministério de Minas e Energia publicou uma portaria estabelecendo as diretrizes do primeiro leilão de reserva de capacidade dedicado a novos sistemas de armazenamento de energia em baterias no País. Dois leilões estão programados no início de dezembro, um deles voltado para BESS com conteúdo nacional. Com isso, poderão contribuir para a gestão de excedentes de geração de energia renovável e reduzir o chamado curtailment, que é a interrupção deliberada da produção de uma usina, mesmo com capacidade para gerar, para não colocar em risco a estabilidade do sistema. A portaria prevê início de suprimento em agosto de 2028.
De acordo com a engenheira eletricista Francielli Cordeiro, coordenadora dos cursos de engenharia da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), campus Pedra Branca, em Palhoça, a regulamentação e o desenvolvimento do mercado poderão ter impacto na redução dos custos e na ampliação da oferta de energia para grandes indústrias. “Hoje, em horários de muita demanda e pouca produção, os custos podem se elevar no mercado livre de energia, levando à redução do consumo. As indústrias não são como os consumidores residenciais, que podem deixar tarefas para fazer em outros momentos”, explica.
Para além de equilibrar o mercado, sistemas BESS também podem ser adquiridos por empresas, permitindo o armazenamento e o gerenciamento próprios de energia excedente, observa Cordeiro. Um módulo para uma indústria de pequeno porte pode ser adquirido por cerca de R$ 200 mil.
No mundo, a expansão do armazenamento de energia é mais acelerada do que o crescimento da energia eólica e solar. O preço médio global dos sistemas BESS caiu 84% em dez anos, de acordo com o serviço BloombergNEF. O desempenho é atribuído ao avanço do mercado dos carros elétricos, que propiciou escala industrial e ganhos de eficiência à produção de baterias, principalmente de lítio. A capacidade global de armazenamento de energia ganhou 112 gigawatts adicionais em 2025, crescimento de 48% em relação a 2024. Estima-se que, até 2036, a adição anual de armazenamento seja três vezes maior. A China é o grande dínamo do amadurecimento deste setor, com mais da metade das adições anuais – quatro vezes mais do que o segundo colocado, os Estados Unidos.