Como Santa Catarina pode superar obstáculos e aproveitar oportunidades em uma nova ordem mundial? Carta da Indústria, elaborada pela FIESC, elenca prioridades para orientar políticas públicas.
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Santa Catarina reúne vantagens para aproveitar as oportunidades, como base industrial diversificada, tradição exportadora, cultura empreendedora e boa qualidade de vida - Foto: Adobestock

O jogo global mudou de fase, com novos atores, novos objetivos e novas regras. Transformações que avançavam separadamente passaram a ocorrer ao mesmo tempo e em ritmo acelerado. A transição energética ganhou urgência diante das mudanças climáticas. A inteligência artificial saiu dos laboratórios e começou a alterar modelos de negócios inteiros. Cadeias globais de produção foram redesenhadas após pandemia, guerras e tensões geopolíticas. Recursos antes periféricos, como minerais críticos e bioinsumos, tornaram-se estratégicos.

Aos olhos dos mais argutos observadores não se trata de mais uma oscilação econômica, de um ciclo passageiro ou de uma crise localizada. O que está em curso é uma mudança estrutural na forma como países produzem, inovam, comercializam e competem. “Em momentos assim surgem oportunidades extraordinárias, mas também riscos proporcionais para quem demora a reagir. Santa Catarina tem tudo para aproveitar as oportunidades se conseguir se organizar, estabelecer objetivos comuns e superar algumas dificuldades históricas”, diz Gilberto Seleme, presidente da FIESC.

É nesse contexto que a FIESC apresenta a Carta da Indústria 2027-2030, documento que será entregue aos candidatos a cargos públicos nas eleições deste ano contendo uma agenda com prioridades para o desenvolvimento econômico e social catarinense. Mais do que um conjunto de propostas, a Carta consolida a contribuição da indústria para o debate sobre o futuro de Santa Catarina. “A Carta mostra que a indústria conhece os desafios estruturais do Estado e que existem soluções construídas a partir da experiência prática das empresas e da atuação técnica da Federação. O objetivo é oferecer uma referência para os tomadores de decisão, independentemente de quem estiver no Governo”, afirma Seleme.

O documento tem inspiração em políticas que têm sido adotadas com sucesso em diversos países. Em cada um dos 10 temas analisados, a Carta apresenta uma visão de longo prazo para Santa Catarina, identifica os principais obstáculos ao desenvolvimento e propõe ações prioritárias para os próximos anos. Estrutura-se em pilares como a parceria entre o setor produtivo e as políticas públicas, o que inclui a não elevação da carga tributária. O objetivo é oferecer aos futuros governantes e legisladores uma agenda baseada em desafios concretos que afetam a competitividade da indústria e o desenvolvimento do Estado. A Carta está alinhada e se complementa ao documento Construindo o Brasil 2050, elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que apresenta propostas aos candidatos à presidência da República e ao Congresso Nacional.

Os impactos das transformações para a indústria são evidentes – e consequentemente são também impactantes para a economia e o desenvolvimento de Santa Catarina. Durante décadas, a competitividade industrial esteve associada principalmente a fatores como custo, escala, localização e acesso a mercados. São elementos que continuam importantes, mas já não bastam. O novo ambiente global exige capacidade de adaptação rápida, domínio tecnológico, integração entre setores e visão estratégica de longo prazo. “A construção de um ambiente favorável à inovação e ao empreendedorismo é fundamental. Assim como um planejamento estratégico para o Estado envolvendo os setores público e privado”, diz José Eduardo Fiates, diretor de Desenvolvimento Industrial e Inovação da FIESC.

A inteligência artificial impacta desde a produtividade fabril até o desenvolvimento de novos medicamentos. A busca por segurança energética redefine investimentos públicos e privados. As transformações em curso também alteram profundamente a geopolítica e as relações econômicas internacionais. “O mundo atravessa uma transição comparável às grandes reorganizações da ordem econômica global ocorridas após a Segunda Guerra Mundial”, diz Pablo Bittencourt, economista-chefe da FIESC.

A dinâmica internacional caminha para uma configuração mais polarizada entre Estados Unidos e China, com impactos diretos sobre cadeias produtivas, investimentos e estratégias empresariais. “Estamos saindo de uma ordem internacional relativamente estável para um ambiente mais incerto, marcado por disputas tecnológicas, comerciais e geopolíticas. Isso exige que regiões e países fortaleçam suas capacidades competitivas para não perder espaço”, afirma Bittencourt.

Nesse novo cenário, a indústria catarinense enfrenta um duplo desafio. De um lado, precisa competir com economias altamente inovadoras e intensivas em tecnologia. De outro, disputa mercados com países que operam sob estruturas produtivas de menor custo e regras diferentes das praticadas no Ocidente. A capacidade de adaptação passa a ser um fator decisivo para o desenvolvimento econômico. O Brasil como um todo não está bem posicionado. O País recuou sete posições no ranking mundial de competitividade do IMD World Competitiveness Center neste ano, passando para a 65ª colocação. O ranking engloba 70 países.

“Estamos passando por um sistema de mudanças conectado, em que uma transformação puxa a outra”, diz José Eduardo Fiates. “Nesse cenário, empresas, regiões e países entram em uma espécie de encruzilhada: ou avançam para novos patamares de competitividade ou perdem espaço para concorrentes mais rápidos e coordenados.”

Diante desse novo ambiente, pequenas correções deixam de ser suficientes, de acordo com Fiates. A mudança exigida é mais profunda: envolve rever estratégias, reposicionar setores e acelerar decisões. Para empresas, isso pode significar sair da disputa exclusivamente por preço e avançar em tecnologia, marca e serviços. Para regiões, implica conectar vocações produtivas e infraestrutura. Para governos e entidades, requer criar condições para investimento, atração e retenção de talentos e inovação.

Com base nessa leitura do contexto geral, a Carta da Indústria foi estruturada a partir da identificação de prioridades consideradas estratégicas para Santa Catarina para os próximos anos. Elas abrangem desde temas ligados à infraestrutura, educação e qualificação profissional até internacionalização, inovação, meio ambiente, relações de trabalho e competitividade tributária. “Em vez de apresentar reivindicações isoladas, o documento busca organizar prioridades capazes de produzir efeitos sistêmicos sobre o ambiente de negócios e sobre a qualidade de vida da população catarinense”, explica Gilberto Seleme.

As propostas vão na direção do fortalecimento de ecossistemas competitivos, a partir da constatação de que a competitividade depende cada vez mais da qualidade do ambiente ao redor das empresas: fornecedores preparados, universidades conectadas, mão de obra qualificada, logística eficiente, financiamento, regulação adequada e capacidade de cooperação.

Santa Catarina reúne vantagens importantes para aproveitar as oportunidades: base industrial diversificada, tradição exportadora, cultura empreendedora, boa qualidade de vida e forte presença de pequenas, médias e grandes empresas. O Estado está bem posicionado para aproveitar algumas das melhores oportunidades em áreas como transição energética, biotecnologia, alimentos, minerais e transformação digital.

Ao mesmo tempo, enfrenta desafios que pressionam sua competitividade. A escassez de mão de obra tornou-se um gargalo transversal. A produtividade é baixa em setores intensivos de mão de obra. A infraestrutura logística precisa acompanhar o ritmo de crescimento. Mudanças tributárias, com o fim do atual sistema de incentivos fiscais, exigirão novos modelos de atração e retenção de investimentos. A fragmentação regional pode limitar ganhos de escala e articulação.

Para converter potencial em crescimento efetivo são necessárias ação coordenada e capacidade de fazer boas escolhas. A Carta da Indústria parte do princípio de que a FIESC acumulou conhecimento aprofundado sobre os obstáculos que limitam o desenvolvimento catarinense e sobre os caminhos capazes de ampliar sua competitividade, ao mesmo tempo que possui um olhar privilegiado sobre as novas condicionantes da competitividade.

“A FIESC reúne competências técnicas construídas ao longo de décadas e mantém contato direto com empresários, trabalhadores, pesquisadores e lideranças regionais. Isso permite compreender problemas concretos da economia e transformá-los em propostas. Não se trata de substituir o papel do Governo, mas de atuar como um parceiro qualificado na construção de soluções”, diz Bittencourt. A lógica é que enquanto empresários identificam dificuldades e oportunidades no dia a dia, a Federação organiza esse conhecimento, agrega análise técnica e cria canais de interlocução com o poder público, construindo um ambiente mais favorável ao desenvolvimento.

A Carta da Indústria 2027-2030 se soma a importantes iniciativas históricas da FIESC, que a consolidaram como uma das instituições responsáveis por formular visões de longo prazo para o desenvolvimento catarinense, com resultados notáveis. Celso Ramos, fundador e primeiro presidente da FIESC, a partir de 1950 reuniu empresários, economistas e gestores públicos para discutir Santa Catarina e levantar suas maiores necessidades – foram os Seminários Socioeconômicos. O material serviu de base para a sua gestão como governador do Estado (1961-1966). Com ênfase no planejamento, Ramos implantou o primeiro orçamento plurianual do Brasil a partir de seu plano de metas denominado Plameg.

Desde então a FIESC é uma interlocutora permanente dos governos estaduais e municipais, contribuindo para a elaboração de políticas públicas, projetos estratégicos e programas voltados ao fortalecimento da competitividade. 

Em 2012, por exemplo, o Programa de Desenvolvimento Industrial Catarinense (PDIC 2022) serviu de base para a política industrial de Santa Catarina. O Programa Travessia foi desenvolvido durante a pandemia para superar a crise e reinventar o futuro. Já o Plano Avança SC Indústria, atualmente em curso e alinhado ao Avança SC, conduzido pelo Governo do Estado, busca planejar o desenvolvimento de forma integrada. “A Carta da Indústria reforça uma característica histórica da FIESC, que é a convicção de que o desenvolvimento sustentável depende da cooperação entre empresas, governos, universidades e sociedade civil”, diz o presidente da FIESC Gilberto Seleme.

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