Diversos fatores se combinam em Dionísio Cerqueira para fazer o único porto seco de Santa Catarina decolar - Por Leo Laps.
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Dionísio Cerqueira: número de empregos formais cresceu 20% entre março de 2023 e 2026 - Foto: Ass. de Comunicação - Prefeitura de Dionísio Cerqueira

Não fosse pelas convicções de um dedicado funcionário público baiano chamado Dionísio Evangelista de Castro Cerqueira, hoje uma fatia considerável do Oeste de Santa Catarina e do Paraná faria parte da Argentina. No final do século 19, foi ele quem conseguiu convencer o presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland, árbitro da disputa centenária pela região que ficou conhecida na diplomacia como Questão de Palmas, a aceitar as demandas brasileiras e assinar o tratado definitivo em 1898. Naquele ano, o engenheiro que colecionou honrarias pela bravura demonstrada na Guerra do Paraguai e que trabalhou também na definição da divisa com a Guiana Francesa era nada menos que ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Assim, ninguém deve ter questionado quando, cinco anos depois, na inauguração da Vila Peperi-Guaçu, à beira do rio de mesmo nome, em 4 de julho de 1903, autoridades presentes decidiram mudar o nome da nova localidade, então fronteira entre Paraná e Argentina, para Vila Dionísio Cerqueira. Alguns anos depois, acertos pós-Guerra do Contestado trariam para o território catarinense o agora município de Dionísio Cerqueira, emancipado de Chapecó desde 1953.

Situado na ponta noroeste de Santa Catarina, Dionísio Cerqueira forma tríplice fronteira com os municípios de Barracão (PR) e Bernardo de Irigoyen, no estado argentino de Misiones. Os três convivem em simbiose econômica e social e, juntos, formam uma população de quase 60 mil pessoas. Dependendo da época, veículos circulam para aproveitar os preços do combustível de um dos lados da fronteira. O churrasco e o vinho argentino são atrações unânimes. O “portunhol” é língua corrente. O Corpo de Bombeiros e o hospital de Dionísio Cerqueira atendem ocorrências nos três lados. Não há barreiras geográficas – basta atravessar ruas para mudar de cidade ou país.

Dionísio Cerqueira é o único porto seco entre Santa Catarina e a Argentina. Ao longo da segunda metade do século 20, a economia e o desenvolvimento urbano do município foram moldados pelo fluxo diário de caminhões e turistas em viagem. Tanto que a zona urbana está concentrada no noroeste do município, colada à fronteira. “A agricultura e a fronteira são os pilares da economia aqui. É uma circulação constante, o comércio atende à população das três cidades”, resume Guilherme Libardoni, secretário de Planejamento.

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Dionísio Cerqueira - População: 15 mil habitantes; Área: 378,8 km² - Fontes: IBGE, Observatório Sebrae e Multilog - Foto: Jonatã Rocha/SECOM GOVSC

Aduana | O porto seco catarinense tem histórico de movimento bem mais modesto que o dos vizinhos Uruguaiana (RS) e Foz do Iguaçu (PR) – este considerado o maior em toda a América Latina. Com infraestrutura estagnada, a aduana viveu por muito tempo um contraste com os prósperos portos do litoral do Estado. Porém, nos últimos anos, investimentos públicos e privados estão colocando Dionísio Cerqueira em rota de crescimento. A aprovação da Lei 17.762/19 foi essencial. Em resumo, a norma estabelece que todas as importações que recebem isenção de ICMS para entrar em Santa Catarina por via terrestre precisam ser desembaraçadas em Dionísio Cerqueira, ao invés de utilizar aduanas de outros estados.

À época, uma das principais críticas em relação à exigência era a falta de infraestrutura na região, o que foi superado pela restauração do trecho da BR-163 entre Dionísio Cerqueira e São Miguel do Oeste. Atualmente, mais de 45 quilômetros de novas pistas em pavimento rígido, terceiras faixas, vias marginais e acostamentos estão concluídos. A reforma, que teve apoio do Governo do Estado, foi contrapartida para a concessão do Porto Seco de Dionísio Cerqueira para a Multilog, que venceu licitação no final de 2021. O novo terminal teve investimento de R$ 50 milhões e foi inaugurado em 2023.

Mas, logo após a inauguração, foi necessário fazer um recálculo de rota. A aduana não conseguiu lidar com o aumento abrupto do volume de caminhões, gerando tempo de espera de até 10 dias para desembaraçar uma carga. A margem mínima obrigatória de desembaraço caiu. Mesmo assim, em março, quando a margem era de 30%, o Porto Seco de Dionísio Cerqueira bateu recordes históricos de movimentação: foram 2.523 cargas desembaraçadas e corrente financeira (soma total dos valores das importações e exportações) de US$ 84,5 milhões. Antes da inauguração do terminal a aduana movimentava, em média, US$ 40 milhões e 1,5 mil cargas por mês.

Com a otimização do tempo de desembaraço é provável que em breve a exigência retorne aos 100% originalmente previstos na lei – atualmente está em 50%. “As obras de expansão avançam conforme o edital, e quando estiver em plena capacidade o terminal contará com 600 vagas para caminhões, além de um bolsão para outros 100 veículos em espera”, adianta o diretor de Desenvolvimento de Negócios da Multilog, Alexandre Heitmann.

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Dionísio Cerqueira - PIB (2020): R$ 674,8 milhões; Corrente financeira mensal: US$ 84,5 milhões* (*dados de Março de 2026) - Fontes: IBGE, Observatório Sebrae e Multilog - Foto: Ivan Ansolin

A maior movimentação puxa o crescimento de toda a economia. O número de empregos formais cresceu 20% entre março de 2023 e 2026, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). “Começamos a ter vagas que antes não existiam no setor de serviços”, afirma Libardoni. A prefeitura investe R$ 10 milhões em um novo condomínio empresarial focado em logística. São 57 terrenos entre 1,5 mil e 5 mil metros quadrados, em fase de pavimentação. Outros dois condomínios privados, um residencial e outro industrial, estão em análise de projetos.

Depois de 11 anos fechado, o Aeroporto de Dionísio Cerqueira foi reinaugurado co­mo aeródromo em 2024, após obras do Governo do Estado. Os investimentos seguem: em 2025, um convênio de R$ 2,9 milhões foi assinado para implementar equipamentos de auxílio à navegação e iluminação noturna. Também estão sendo construídos hangares e um posto de abastecimento. “Com isso, empresários que têm negócios na cidade poderão se deslocar com agilidade para as capitais”, informa o secretário de Planejamento.

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Novo terminal do porto seco, ampliação do aeroporto e restauração da BR-163 transformam a economia regional - Foto: Ass. de Comunicação - Prefeitura de Dionísio Cerqueira
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