E vão obter: terminal de regaseificação, suprimentos adicionais na rede e nova legislação abrem caminho para ampliar a oferta do combustível, reduzir preços e atrair indústrias para Santa Catarina.

ArcelorMittal conta com gás para sua terceira linha de galvanização em implantação em São Francisco do Sul - Foto: Divulgação

Um gargalo no abastecimento de gás natural destinado à indústria de Santa Catarina promete ser superado em meados de 2022, quando começar a operar o Terminal de Gás Sul (TGS), unidade flutuante de armazenamento e regaseificação na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul. No final de maio, o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina concedeu licença ambiental para a construção do terminal a 300 metros da costa. Ele terá capacidade de armazenar até 160 mil metros cúbicos de gás natural em estado liquefeito trazidos por navios e vai reconvertê-los para o estado gasoso, fornecendo até 15 milhões de metros cúbicos por dia. Hoje, a oferta nos três estados do Sul é limitada a cerca de 5 milhões de metros cúbicos, o que impede a expansão do consumo em segmentos industriais interessados em usar o combustível para reduzir custos e ganhar competitividade. Em Santa Catarina, a oferta total deverá ser elevada para 6,7 milhões de metros cúbicos, o que corresponde a um crescimento de 179% em relação à atual.

O terminal será construído pela americana New Fortress Energy (NFE), que investirá R$ 400 milhões na unidade. “O TGS é uma nova rota de fornecimento de gás natural que vai mudar a configuração de Santa Catarina e trazer mais indústrias para o Estado”, afirma Edson Real, diretor geral do TGS.

O combustível regaseificado deixará a unidade por um gasoduto submarino até a cidade vizinha de Itapoá. De lá seguirá por terra por 30 quilômetros até o município de Garuva, onde será construída uma estação de redução da pressão, permitindo que o gás natural seja injetado no Gasoduto Bolívia-Brasil. O projeto deve criar cerca de 1.300 empregos e oxigenar a economia catarinense. A siderúrgica ArcelorMittal Vega, em São Francisco do Sul, conta com a expansão da oferta de gás natural para sua terceira linha de galvanização, fruto de um projeto de expansão que deve estar concluído até 2023 com investimentos de R$ 1,95 bilhão.

“Trata-se de uma fonte de energia amplamente utilizada em todas as fases do processo siderúrgico – desde o início, com a transformação do minério de ferro em aço, até a última etapa, com a entrega da bobina de aço para o cliente final. Em uma indústria siderúrgica moderna e ambientalmente responsável, o uso desta energia limpa é vital para garantir a sustentabilidade das atividades da empresa”, afirma Abel Ramos, gerente de Engenharia e Manutenção Central da ArcelorMittal Vega.

O prefeito de Garuva, Rodrigo Adriany David, espera que mais empresas se instalem na cidade para aproveitar a proximidade com a oferta de gás. “Há a possibilidade inclusive de construção de uma usina termelétrica”, conta, referindo-se a projeto de empreendimento de geração de energia que poderá aproveitar a oferta do insumo. Formalmente, a venda do gás natural será feita em Garuva. Estima-se um aumento de arrecadação de R$ 360 milhões por ano em ICMS em Santa Catarina – 15% disso caberá a Garuva. “Nossa receita, que hoje é de cerca de R$ 90 milhões, será acrescida de R$ 50 milhões.”

Ao ampliar a oferta do gás natural, o terminal ajudará a mover as peças de um mercado resistente a mudanças, que oferecia opções limitadas para as indústrias e preços mais altos do que os praticados em outros países. O abastecimento propiciado pela construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, a partir da década de 1990, teve um impacto significativo na indústria catarinense, que hoje é responsável por 82% do gás natural comercializado no Estado. Além do custo mais baixo que o de outras matrizes energéticas, o combustível garantia vantagens tecnológicas, por exemplo, para a indústria de cerâmica e revestimentos – ele fornece calor de forma regular e consistente, que permite o funcionamento dos fornos em condições ideais para uma produção de alta qualidade.

“O polo cerâmico sozinho consome 55% do gás que vem para o Estado”, explica Otmar Müller, diretor de Operações da Eliane Revestimentos, uma das líderes deste mercado no País, com unidades em Cocal do Sul e Criciúma, e presidente da Câmara de Assuntos de Energia da FIESC. Outros segmentos também dependem do gás natural, como a indústria de vidros e cristais, de laminação de aço e metalúrgica. O combustível também é essencial para a fabricação de louças de mesa, cristais e beneficiamento de argilas.

Polo cerâmico consome mais de metade do gás natural disponível em Santa Catarina - Foto: Edson Junkes / Arquivo FIESC

“Além de ser um combustível limpo, que não gera cinzas e fuligens, possibilita uma temperatura estável, necessária para maior eficiência dos processos”, explica Antônio Marcos Schroth, diretor da Oxford Porcelanas, que produz 72 milhões de peças de louças e cristais nas unidades de São Bento do Sul e Pomerode, em Santa Catarina, e São Mateus, no Espírito Santo.

Linha de produçã da Oxford: gás não gera cinzas e proporciona temperatura estável. - Foto: divulgação

Limite de vazão | Nos últimos tempos, o arranjo feito no final dos anos 1990 para garantir o fornecimento de gás natural deu sinais de esgotamento. “Estamos consumindo cerca de 2,3 milhões de metros cúbicos por dia, mas a quantidade disponibilizada é de pouco mais de 2,1 milhões, e volta e meia a concessionária de distribuição tem que pagar multas por excesso de consumo”, afirma Müller. Segundo dados da concessionária SCGÁS, a demanda das indústrias no Estado tem crescido desde agosto de 2020. Na comparação entre abril de 2021 e abril de 2019, antes da pandemia, o aumento da demanda foi de 8,6%. Atualmente, são atendidas 321 indústrias – e a estimativa da concessionária é que este contingente suba para 440 até 2025. O uso residencial é responsável por 18% do consumo, mas o número de clientes desta categoria é bem maior – chega a 16 mil.

A dificuldade de ampliar o fornecimento é de ordem técnica. Há um limite de vazão nas saídas do gasoduto que servem Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, que foi atingido. “Há um problema relacionado ao transporte para o Sul do País, que só será resolvido com mais investimentos no Gasoduto Bolívia-Brasil”, explica Marcos André Tottene, gerente de Suprimento de Gás da SCGÁS. Para atenuar a restrição, a distribuidora tem feito chamadas públicas para injetar suprimentos adicionais em sua rede de distribuição. “Estamos buscando soluções para um problema que não é propriamente nosso, mas que afeta nosso mercado”, afirma. A ideia é trazer gás de fora e injetá-lo na rede.

A SCGÁS também planeja implantar uma rede isolada no Planalto Norte catarinense para atender principalmente indústrias do segmento de papel e celulose de Canoinhas e Três Barras, que se interessam por usar o combustível mas não têm acesso a ele. A região receberá investimentos acima de R$ 12 milhões a partir deste ano e a obra deve ser concluída em 2023. O projeto é semelhante ao que foi implantado em Lages em 2020. O gás natural comprimido é conduzido por logística terrestre para abastecer redes locais. “Esse modelo de antecipação de atendimento é mais eficiente do que construir primeiro a rede principal. Ele desenvolve o mercado e ajuda a ancorar o investimento. A rede vem depois”, explica Tottene.

Novo marco | Em abril foi sancio­nada a nova Lei do Gás, marco legal que estabeleceu uma flexibilização do mercado a fim de ampliar a oferta e a concorrência. “A lei busca garantir segurança jurídica para que investidores coloquem recursos no mercado, tanto na produção quanto na aquisição de gasodutos de transporte”, explica Müller. Desde 2015, a Petrobras iniciou um programa de desinvestimento de ativos do setor de gás natural, desfazendo-se de trechos de gasodutos.

Marcio Guimarães Fenelon, gerente de Energia e Gases na ArcelorMittal Brasil, ressalta a importância da mudança regulatória em curso, que virá com a regulamentação em âmbito federal e estadual da Lei do Gás. “Esperamos que a regulamentação seja bastante flexível de forma a fomentar a competição. A possibilidade de comprar gás natural de outros players aumenta a competitividade da indústria em geral, o que viabiliza expansões e o desenvolvimento dos negócios”, afirma.

O efeito esperado da ampliação da oferta e da concorrência é uma redução dos preços, que hoje ainda são muito regulados por fornecedores tradicionais, como a Bolívia e a própria Petrobras. O gás no Brasil é um dos mais caros do mundo. “Para nós chega por US$ 13 por mmbtu, que é a unidade utilizada para mensurar seu custo”, diz Otmar Müller. “Na Europa, varia de US$ 6 a US$ 8. Nos Estados Unidos são US$ 4 e no México cerca de US$ 6.”

A conta é alta
Preço do gás natural para a indústria
Local US$/mmbtu
EUA 4
México 6
Europa 6 a 8
Brasil 13
Fonte: FIESC

De acordo com Silvio Rosa, gerente de Regulação da Agência Reguladora de Serviços Públicos de Santa Catarina (Aresc), a possibilidade de importar uma grande quantidade de gás pelo terminal de São Francisco do Sul terá força para mudar este mercado. “O fornecimento de 15 milhões de metros cúbicos por dia vai suprir a demanda da Região Sul”, afirma. Ali Abdul Ayoub, diretor da fábrica de papel da multinacional WestRock, em Três Barras, vê oportunidades para as empresas da região ante a perspectiva de se ampliar a oferta de gás natural.

Fábrica da WestRock: gás poderá ser usado em equipamentos de alto consumo. - Foto: divulgação

Disparada | “O combustível, apesar de origem fóssil, tem papel estratégico como fonte de energia para o mundo, principalmente em razão de seu menor impacto ambiental em comparação a outros”, diz Ayoub. “Quando os gases combustíveis são adequadamente utilizados em equipamentos apropriados, a combustão é praticamente isenta de emissões nocivas e produz menos fuligem.” Ele afirma que a adaptação de equipamentos para a combustão correta de gás natural exigiria a realização de estudos de viabilidade financeira. A unidade de Três Barras utiliza principalmente energia de fontes renováveis, como biomassa e licor preto. Mas o gás natural, segundo diz, traz boas perspectivas para uso em equipamentos com alto consumo de combustível, como fornos de cal.

À parte o esforço para flexibilizar o mercado, a indústria catarinense também precisará lidar com contingências da desvalorização do real e do aumento do custo de combustíveis no mercado internacional. No início do ano, o preço do gás natural subiu 31%, e em julho a tarifa industrial foi reajustada em mais 36,57%. O impacto nos custos das indústrias é sensível e acarreta em perda de competitividade. Para as empresas de revestimentos cerâmicos, por exemplo, o gás corresponde a 25% dos custos.

“No início da década de 2000, o Brasil exportava 27% a 30% da produção de revestimentos. A Eliane chegou a exportar 50% de sua produção para mercados exigentes, como Estados Unidos e Canadá”, informa Otmar Müller. “Hoje exportamos cerca de 15%, e estava havendo uma pequena retomada, mas tememos perder fôlego agora.”

Um problema adicional é o custo da distribuição. De acordo com Silvio Rosa, da Aresc, os contratos celebrados com a concessionária SCGÁS nos anos 1990, com validade de 50 anos, preveem taxas de retorno que hoje estão distantes do que é praticado no mercado. Antônio Marcos Schroth, da Ox­ford Porcelanas, considera necessário atuar em duas frentes. “A primeira é ampliar a infraestrutura de distribuição, para fazer o produto chegar aos consumidores em maior escala, e a implantação de novos gasodutos, especialmente para atender a demanda do Sul do Estado”, diz. “A segunda frente é a ampliação da oferta de gás. Atualmente há uma limitação da quantidade adquirida da Petrobras, conforme definem os contratos de abastecimento. É preciso rever essa questão e discutir o contrato de concessão que não está adequado ao momento econômico”, resume Schroth, que também é presidente do Conselho de Administração da Infragás, entidade que reúne mais de uma centena de indústrias do Paraná e de Santa Catarina que são grandes consumidoras de gás natural.

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