Enquanto examinava a centena de nomes que havia reunido para batizar o primeiro negócio próprio, uma meta de vida prestes a se concretizar após anos de trabalho em empresas como Audi e Embraer, a engenheira Maitê Lang tinha uma regra: a escolha final deveria ter pronúncia fácil em qualquer idioma. “Eu sonhava com as estrelas. Eu ia exportar, conquistar o mundo. Queria que a marca fosse pronunciável no mundo todo”, explica a criadora da Nugali. A empresa fundada há 22 anos em Pomerode, no Vale do Itajaí, tornou-se pioneira no mercado de chocolates premium brasileiro – até então dominado por importados. Abraçou o método bean to bar, em que o fabricante controla toda a cadeia de produção, do cultivo do cacau ao produto embalado, e hoje domina 20% do mercado nacional no segmento.
Bem-humorada e franca ao falar sobre os erros e acertos em duas décadas à frente da Nugali – onde tem como sócio o marido e ex-colega na Embraer, o também engenheiro Ivan Blumenschein –, Maitê demonstra paixão pelos processos na indústria. Segue dedicando tempo para tarefas operacionais, trabalhando com os colaboradores em busca de soluções e oportunidades. Confessa a falta de talento culinário, mas é dela o conhecimento para criar novas receitas de produtos. E, sempre que possível, Maitê aproveita para conversar com os consumidores. “É quando você mais aprende sobre o que deve fazer, que novo produto pode criar, como atender melhor”, avalia.
Logo de início, Maitê teve de repensar o modelo de negócio. A ideia de fabricar chocolates premium no Brasil nasceu com as muitas viagens internacionais que ela fazia pela Embraer. A cada embarque, amigos encomendavam chocolates e ela, que não era consumidora frequente, foi entendendo que a qualidade dos produtos disponíveis no Brasil deixava a desejar. Mas quando decidiu trocar São Paulo pela terra natal, a aposta era fazer e vender a massa de cacau, matéria-prima do chocolate. “Eu faria algo melhor do que havia no mercado e ia cobrar 30% a mais”, resume.
A proposta, porém, não seduziu os clientes e Maitê teve de pivotar rapidamente, criando embalagens para fazer os primeiros tabletes por conta própria – “eram feias, uma catástrofe”, confessa. Pouco depois ela conheceu designers de Joinville em um curso de desenvolvimento de embalagens no Sebrae.
“Eles também estavam começando, e estão com a gente até hoje. Com as embalagens mais bem trabalhadas, o negócio foi andando. Sempre a passos curtos e firmes”, conta Maitê, revelando a influência do pai, o industrial Cid Lang, em sua visão de negócios. O empresário, hoje com 80 anos, fundou em Pomerode a fábrica de portas Göede & Lang e foi um dos fundadores da Associação Empresarial de Pomerode, tendo também integrado a FIESC por vários anos. “As empresas, na visão dele, precisam ser corretas, ter governança – algo que se fala muito hoje, mas que ele praticava há 50 anos”, conta.
Maitê e Ivan começaram a trabalhar diretamente com produtores de cacau para operar como empresa bean to bar, modelo de negócio com o objetivo de oferecer produtos com maior compromisso socioambiental. “Hoje se chama fair trade, mas a gente só achava que era o certo. Nosso interesse era comprar cacau bom, essencial para fazer chocolate bom. E ao mesmo tempo ajudar os produtores a fazer um cacau melhor e garantir que ficassem no campo. É ganha-ganha”, avalia.
Medalhas | Os produtos feitos pela Nugali logo encontraram respaldo no mercado. Em 2016, o Serra do Conduru 80% Cacau, produzido com grãos da região baiana, foi considerado o terceiro melhor chocolate amargo de origem única do planeta no International Chocolate Awards. Uma conquista inédita para marcas brasileiras. De lá pra cá, a empresa passou a empilhar medalhas internacionais. Já são mais de 40, muitas delas de ouro.
“Não imaginava esse reconhecimento lá no começo. Pensava em exportar, mas não sabia que era isso que elevaria o nome do chocolate brasileiro, que não tinha boa fama, pelo mundo”, considera Maitê. Japão, Emirados Árabes, Estados Unidos, França, Peru e Inglaterra já foram clientes, mas a empresa cessou negócios externos devido à crise do cacau em 2024, que restringiu acesso à matéria-prima. Por hora a opção é se manter no mercado interno, enquanto avança em outro processo orientado pela vontade de “fazer o certo”: a empresa reduziu o uso de plásticos em 84% desde 2020, e em 2023 lançou a primeira embalagem de chocolates biodegradável do Brasil.
A Nugali também ajuda a fomentar o turismo que hoje movimenta boa parte da economia de Pomerode. Foi a primeira empresa a fazer parte da Osterfest, a famosa feira de Páscoa do município. Em 2021 inaugurou no bairro histórico de Testo Alto, onde está a Rota do Enxaimel, uma simpática fábrica com loja e um tour que conta a história do chocolate pelo mundo e, claro, da própria empresa. Visitantes podem acompanhar etapas de produção pelas vidraças, incluindo uma estufa com pés de cacau onde o aroma costuma deixá-los surpresos – foram mais de 150 mil visitantes em 2025. No início do ano Ivan e Maitê fundaram um café colonial no mesmo bairro, em uma casa centenária, batizado de Mahlzeit – “bom apetite”, em alemão.
Aos 51 anos de idade, a empresária e mãe de duas jovens gosta de acordar às 5h e dar longas caminhadas. No ano passado, percorreu sozinha, a pé, o caminho de Santiago de Compostela. Esse gosto parece combinar com o jeito de conduzir a Nugali. “É um ramo que parece ter muito glamour, mas é preciso ter constância. Não é sprint. É todo dia, com perseverança, com passos curtos e firmes”, reitera ela, para confirmar o método que levou a Nugali a se tornar o que é.