Com foco na primeira infância, empresas de Santa Catarina apostam em brinquedos de madeira e papelão para estimular criatividade, autonomia e desenvolvimento cognitivo - Por Mauro Geres.
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Em um mundo em que crianças nascem praticamente conectadas – as chamadas gerações nativas digitais – a discussão sobre o papel dos brinquedos analógicos na educação infantil vem ganhando tração, ao mesmo tempo que indústrias de Santa Catarina encontram novas oportunidades de mercado. “É preciso buscar alternativas que estimulem o aprendizado de forma concreta, sensorial e criativa. É nesse cenário que brinquedos educativos de madeira voltam a ganhar espaço, mas agora aliados à tecnologia, ao design e a uma proposta pedagógica bem definida”, afirma Denis Henrique Pauletti Iob, sócio-diretor da empresa IOB Artepinus, de Lages.

Com trajetória iniciada em 2001, a empresa tem mais de 400 itens em sua linha, entre brinquedos de madeira e utilidades domésticas. O foco está nos brinquedos voltados à primeira infância, para crianças entre três e seis anos, fase crucial para o desenvolvimento cognitivo, em que se inicia o processo de alfabetização. “Os produtos nascem dentro da própria empresa, desenvolvidos por uma equipe interna de design. Os designers dialogam com educadores, pedagogos e professores, além de buscar referências em metodologias educacionais e estudos sobre a primeira infância”, detalha o empresário.

Fabricados a partir de madeira de reflorestamento, os brinquedos passam por um processo industrial cuidadoso desde a origem da matéria-prima. O objetivo é garantir estabilidade, durabilidade e segurança ao produto final. Alfabetos, números, formas, cores, quebra-cabeças, jogos de sequência lógica e brinquedos de soletração fazem parte do portfólio.

Estímulos | Para a empresária Geraldine Dalchau, proprietária da empresa Brincando com Papelão, de Araquari, a tecnologia faz parte da vida atual e não pode ser ignorada, mas o excesso de estímulos digitais tem reduzido o tempo de experiências fundamentais da infância, como brincar livremente, criar com as mãos e interagir fisicamente com outras crianças. “O que preocupa não é a tecnologia em si, mas a substituição do brincar ativo por estímulos prontos e passivos. A infância precisa de espaço, tempo e silêncio criativo para se desenvolver plenamente”, pondera.

A Brincando com Papelão foi fundada em 2016 por Geraldine, que é arquiteta, e pelo marido, o engenheiro Jean Dalchau. Desde o início o objetivo era bem definido: usar a simplicidade do papelão como ferramenta de transformação no desenvolvimento infantil. A abordagem é inovadora, pois o design neutro dos brinquedos permite que crianças de dois a oito anos pintem, desenhem e criem sem limite. “A lógica da marca está na união entre engenharia, arquitetura, design e pedagogia, sempre com foco na brincadeira livre, criativa e significativa”, define Geraldine.

Os brinquedos são feitos com uma mescla de papelão especial de alta gramatura (1000 g/m²) e papelão reciclado com espessura mínima de 7 mm, características que garantem segurança, resistência e durabilidade, suportando até 30 quilos. Podem ser montados, desmontados e transformados, usados para criar histórias e cenários. São leves, fáceis de montar, não exigem ferramentas e permitem que a criança os personalize com tintas, canetinhas e adesivos. A linha de produtos inclui casinhas, castelos, carros, foguetes, cenários temáticos e estruturas interativas. 
As consequências da hiperdigitalização já influenciam políticas públicas, sendo o melhor exemplo a lei que proibiu o uso de celulares em escolas de ensino fundamental e médio. Embora não existam normas federais que obriguem a adoção de brinquedos analógicos nas escolas brasileiras, políticas incentivam escolas a adotarem ambientes menos digitalizados, o que favorece o uso de materiais pedagógicos físicos.

Licitações | Para empresas como a Blubrink, de Indaial, que tem nas licitações públicas a principal ferramenta para venda dos seus produtos, abrem-se janelas de oportunidades. A empresa iniciou as atividades em 2023 fabricando objetos de madeira como rampas, gangorras, escorregadores, plataformas e jogos de escalada, assim como elementos que simulam o cotidiano como minicozinhas, e objetos domésticos. “As vendas vêm crescendo e nossos implementos ganham espaço nas instituições de ensino com a ressignificação de ambientes escolares”, afirma Bruna de Lima Bagateli, uma das sócias da Blubrink.

Para participar deste mercado a empresa precisa dedicar cuidados especiais às normas, como a ABNT NBR 300, que estabelece os requisitos de segurança e qualidade aplicáveis a este tipo de material pedagógico. Já o desenvolvimento dos produtos é realizado sob a ótica de pedagogias participativas baseadas nas ideias de importantes pensadores da educação, como Emmi Pikler, Maria Montessori e Loris Malaguzzi. “As contribuições destes autores convergem para a valorização da criança como protagonista”, destaca Bruna.

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