O aquecimento global e as mudanças climáticas alçaram o carbono ao posto de principal elemento da matemática do ESG corporativo na última década. Os esforços em reduzir suas emissões foram mensurados e contabilizados em relatórios de sustentabilidade como créditos de carbono, que se tornaram uma verdadeira “moeda climática”. Agora, uma nova classe de ativos começa a ganhar espaço na agenda empresarial global: os créditos de biodiversidade. “São créditos que valorizam financeiramente o que antes não tinha preço, a biodiversidade conservada e restaurada”, afirma José Lourival Magri, presidente do Conselho de Meio Ambiente e Sustentabilidade da FIESC. “Eles seguem a mesma lógica dos créditos de carbono, mas são mais abrangentes porque envolvem não somente emissões, mas todo o conjunto de serviços ecossistêmicos”, diz.
Em termos biológicos, a biodiversidade pode ser definida como a complexidade da vida em todas as suas formas e interações, mas a proposta dos créditos nasce de uma perspectiva econômica. Nesses termos, a biodiversidade representa a infraestrutura natural que sustenta a economia e a própria vida humana, fornecendo uma infinidade de “produtos e serviços” como água limpa, solo fértil, alimentos, estabilidade climática, controle de pragas, polinização, matérias-primas industriais, princípios ativos para fármacos e potencial turístico, que representam valores absurdamente altos se contabilizados economicamente (veja o quadro). Faz sentido, portanto, atribuir valor a projetos que favorecem a biodiversidade.
O nascente mercado de créditos de biodiversidade se insere no contexto do GBF (Global Biodiversity Framework), um acordo internacional adotado em 2022 para tentar conter e reverter a perda de biodiversidade. Suas metas incluem a redução dos impactos por parte de empresas, medidas por métricas padronizadas, e a ampliação do financiamento para a biodiversidade por meio dos créditos e outros mecanismos, direcionando recursos privados para a conservação da natureza.
“Estruturar a biodiversidade como um ativo econômico mensurável, que dialogue com o mundo empresarial e financeiro, é condição essencial para o desenvolvimento de um mercado funcional de créditos”, disse Regiane Borsato, diretora executiva do Instituto Life, em seminário sobre o tema organizado pela FIESC em abril. O Instituto, sediado em Curitiba, é uma das principais certificadoras acreditadas internacionalmente.
A ideia central é que projetos com ganhos de biodiversidade possam gerar créditos que sejam adquiridos por empresas interessadas em compensar seus próprios impactos, fortalecer a agenda ESG ou abrir novas oportunidades de negócios em mercados exigentes. O mecanismo envolve algumas etapas: áreas naturais, como reservas privadas ou parques públicos, devem passar por ações estruturadas de conservação ou restauração. Os projetos são submetidos a indicadores técnicos que avaliam o ganho efetivo de biodiversidade, para então serem convertidos em créditos negociáveis no mercado.
Pode-se comparar o estágio do mercado da biodiversidade ao de carbono de 15 anos atrás. Enquanto em países da Europa e na Austrália já há metodologias definidas, registros oficiais de créditos e participação de investidores, no Brasil ainda há ausência de regulamentação específica, falta padronização metodológica e o mercado é pouco líquido. Porém, sendo dono da maior biodiversidade conhecida do planeta, com seis diferentes biomas e forte pressão por conservação, o País é naturalmente candidato a grande produtor da nova moeda verde.
A criação do Programa de Incentivo à Produção da Diversidade Catarinense pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), apresentado na FIESC no seminário de abril, é uma das iniciativas em curso no Estado. O objetivo é apoiar tecnicamente e com recursos propriedades rurais em projetos geradores de créditos de biodiversidade e conectá-los a empresas demandantes, organizando a cadeia. O modelo fundiário catarinense é apropriado, com pequenas propriedades, água em abundância e relevo acidentado. As limitações à agropecuária existentes em Santa Catarina convertem-se em oportunidades para a preservação remunerada por meio de créditos. “Além disso, projetos costeiros e marinhos no Estado têm grande potencial de atrair investidores”, afirma Magri.
Indenizações | A consolidação de parques estaduais em Santa Catarina é outra questão que pode ser endereçada com o apoio dos créditos, de acordo com o executivo. Muitos dos parques existentes são limitados por questões fundiárias, pois possuem áreas privadas não indenizadas, o que dificulta sua gestão e a conservação. Para Magri, os parques podem gerar créditos e usar os recursos para realizar as indenizações e regularizar a ocupação. Na outra ponta, indústrias fortes no Estado como a de alimentos, a têxtil e a metalmecânica que adquirirem os créditos podem ter acesso facilitado ao mercado externo, melhorar a imagem junto a consumidores e gerenciar melhor seus riscos ambientais.
Empresas podem se beneficiar não apenas comprando créditos para compensar impactos, mas também podem se tornar geradoras de créditos. Quando isso acontece, a natureza passa a integrar seu modelo de negócios, a conservação deixa de ser custo e vira ativo e surge uma nova classe de receita potencial. “Além de compensar as externalidades negativas das empresas, os créditos podem internalizar as externalidades positivas”, diz Regiane Borsato, do Instituto Life.
Exótica | A catarinense C-Pack, fornecedora de embalagens de cosméticos para grandes marcas mundiais como L’Oréal, Johnson & Johnson, O Boticário e Natura, com fábricas em São José e em Portugal, é uma indústria pioneira na geração de créditos de biodiversidade. A empresa está inserida em uma cadeia produtiva altamente exigente quanto à sustentabilidade, e além de reduzir os impactos da operação começou a investir em projetos externos. O programa C-Pack Conserva é desenvolvido desde 2019 no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, administrado pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA).
O problema ali era o avanço do pinus, uma espécie exótica que foi plantada no passado e se alastrou em áreas de restinga, ampliando riscos ecológicos e contribuindo para a propagação de incêndios. A empresa estruturou um programa que passou a executar o corte de pinus e o manejo seguindo critérios técnicos definidos pelo IMA. O projeto incluiu ações de educação ambiental e a instalação de um meliponário com abelhas nativas para estimular a recuperação da floração local, o que acelerou a regeneração da vegetação nativa e proporcionou o reaparecimento de espécies raras.
O objetivo inicial não era gerar créditos, mas a evolução do conceito nos últimos anos permitiu a certificação pelo Instituto Life. O projeto inclui o acompanhamento técnico da evolução ambiental, que é base para a formação de créditos, e mais de 140 mil créditos já foram certificados. Por enquanto, a estratégia da companhia é acumular os créditos até que o mercado se consolide e eles sejam vendidos. “A ideia é aplicar o resultado da venda em novos projetos no próprio parque, onde há uma enorme demanda reprimida por investimentos ambientais”, diz José Maurício Coelho, CEO da C-Pack.