A agroindústria de Santa Catarina, que fornece para mais de 150 países, é avaliada com lupa pelos clientes em relação ao ESG, e tem muito o que mostrar.

Sistema produtivo catarinense é baseado em pequenas propriedades rurais - Foto: Kleyton Kamogawa / Shutterstock

Se há um setor especialmente sensível ao ESG, este setor é o de alimentos. A cadeia produtiva depende de grandes áreas e interage intimamente com o meio ambiente. O desafio da sanidade permeia toda a cadeia produtiva, das matérias-primas ao produto final, que deve ser seguro para o consumo humano. Pelo lado social, um dos desafios é a distribuição mais equitativa da enorme riqueza produzida.

Fornecedora para mais de 150 países, a agroindústria catarinense é avaliada com lupa pelos clientes, que realizam centenas de auditorias nos processos produtivos todos os anos. A boa notícia é que há conquistas dignas de nota em Santa Catarina, estado que é livre de todas as doenças animais que causam exclusão de mercados, possui o maior remanescente de mata atlântica do País e tem o sistema produtivo baseado em pequenas propriedades rurais de organização familiar.

“Não tem outro caminho para o setor que não seja o ESG. Sustentabilidade é o ingresso para o jogo”, diz José Antonio Ribas Junior, diretor de Agropecuária e Sustentabilidade da JBS Foods e presidente do Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados no Estado de Santa Catarina (Sindicarne). A JBS é a maior empresa de alimentos do mundo (recentemente superou o da Nestlé) e opera em Santa Catarina com mais de 30 unidades produtivas e 20 mil funcionários, com destaque no setor de aves e suínos. Na frente do ESG, um dos principais compromissos da companhia é zerar o balanço líquido de emissões de gases de efeito estufa (Net Zero) até 2040.

A empresa desenvolve ações que incluem a diminuição do uso de água em frigoríficos, a melhoria do bem-estar animal, a instalação de cisternas e de painéis fotovoltaicos nas granjas de produtores parceiros e a geração de energia com dejetos suínos, dentre muitas outras iniciativas. Um dos feitos mais impactantes para a elevação da sustentabilidade é a evolução da conversão alimentar – a quantidade de ração que deve ser consumida pelo animal para que ele atinja as condições para o abate.

Entre 2014 e 2021 a conversão na Seara foi reduzida em 100 gramas por animal, em média, graças a avanços genéticos e na qualidade das rações, dentre outros fatores. Isso significa, por ano, a redução da necessidade de 73 mil hectares de lavouras de soja e milho, as matérias-primas das rações. A dieta mais eficiente também poupa 30 mil viagens de frete de ração (menos 687 mil litros de diesel), culminando na redução de 832 mil quilos de CO2 equivalente. Os números demonstram o impacto dos avanços tecnológicos na agenda ESG, e vem mais por aí.

“Os próximos cinco anos serão mais revolucionários para o nosso setor do que os últimos 30 anos”, afirma Ribas Junior. Além das pesquisas das grandes empresas, há mais de mil startups voltadas para o agronegócio em atividade no País, as chamadas agtechs, que fazem a digitalização de propriedades rurais, usam inteligência artificial para gestão da produção e viabilizam insumos biológicos em lugar de adubos e defensivos químicos, por exemplo. Ao fim das contas, o objetivo é gerar maior produção por área, economia de insumos e redução de emissões, melhorando os resultados dos produtores.

Por seu lado, os produtores rurais vivem situação muito diferente da observada alguns anos atrás, de acordo com Neivor Canton, presidente da Aurora, cooperativa com sede em Chapecó e mais de 40 mil funcionários. A cooperativa central, criada para industrializar a produção dos associados, tem em sua base 72 mil famílias associadas. Antes que o agronegócio ganhasse a atual musculatura, o cenário era de êxodo rural, com os jovens migrando em massa. “Era muito difícil uma propriedade obter renda suficiente para manter a família no campo”, diz Canton.

Canton, da Aurora: produtores devem atingir altos padrões de qualidade - Foto: Divulgação Aurora

Desde então houve uma transformação nas propriedades envolvidas com a produção de frangos, suínos e leite em parceria com a agroindústria. O serviço meramente braçal passou a ser substituído por novas tecnologias, e técnicas avançadas de gestão foram incorporadas.

Sucessão | Um dos vetores que permitiram a transição foi o programa Encadeamento Produtivo, desenvolvido há 23 anos pela Aurora em parceria com o Sebrae. Considerando aspectos ambientais, sociais e gerenciais, são mais de 100 itens em que os produtores têm que avançar para atingir padrões de qualidade e produtividade exigidos pela Aurora. É comum encontrar, nessas propriedades, painéis exibindo a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) de cada atividade.

“Não teríamos como colocar alimentos confiáveis na mesa do europeu, do japonês, se não adequássemos os processos no campo”, relata Canton – a Aurora exporta para mais de 60 países e vem aumentando a participação no mercado externo. A profissionalização da cadeia produtiva trouxe benefícios para todos, e hoje várias propriedades rurais possuem planejamentos estratégicos que contemplam a sucessão familiar, já que há perspectiva de continuidade dos negócios. “Isso demonstra que não dá para dissociar o ESG da questão econômica. Sem ela não é possível implementar os demais requisitos”, afirma o empresário.

Jovem produtor rural: perspectiva de continuidade dos negócios no campo - Foto: Divulgação FAESC