Provedores de serviços de alta intensidade tecnológica de Santa Catarina se integram profundamente aos processos produtivos da indústria, elevando sua competitividade.
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Foto: Adobestock

A fronteira entre indústria e serviços está se estreitando. Ao lado das máquinas e das linhas de montagem atuam empresas que não fabricam bens mas entregam know-how, software, sensores, análise de dados, integração de sistemas – tudo para que as fábricas produzam mais, com menos desperdício e maior previsibilidade. A convergência é consequência da digitalização e de uma mudança de perspectiva, em que o valor está cada vez mais vinculado ao desempenho do processo e não somente ao produto final. Ao mesmo tempo, as indústrias notaram que era mais vantajoso terceirizar competências altamente especializadas do que desenvolvê-las internamente.

O resultado é o crescimento de um mercado de provedores de serviços industriais capaz de operar como extensão técnica das fábricas, criando soluções em conjunto com os clientes capazes de gerar vantagens competitivas consideráveis. José Eduardo Fiates, diretor de Desenvolvimento Industrial e Inovação da FIESC, destaca que a competitividade industrial contemporânea não está mais apenas no produto físico, mas no conjunto de serviços que está no seu entorno, como engenharia, P&D, design, digitalização, manutenção avançada, integração de sistemas e inteligência de dados. Um dos efeitos mais notáveis da expansão da oferta de serviços intensivos em conhecimento para a indústria é o crescimento da eficiência operacional das fábricas.

Algumas características de Santa Catarina são associadas ao desenvolvimento de um ecossistema de serviços robusto no Estado, como a base industrial densa e diversificada, a forte cultura técnica e a proximidade entre empresas, universidades e instituições de apoio. “Além disso, o empreendedorismo em Santa Catarina é fora da curva. Há muitos casos de trabalhadores ou pequenos fornecedores que, ao conhecer os desafios da indústria, criam empresas e passam a oferecer serviços industriais sofisticados”, afirma Fiates.

Cultura | É o caso da Fersiltec, de Timbó, fundada em 2007 por Jean Ferrari e um sócio, que posteriormente deixou a empresa. Ferrari começou a trabalhar aos 16 anos com manutenção de máquinas industriais e estudou no SENAI, conhecendo desde cedo os desafios das indústrias de sua região. A Fersiltec se propõe a otimizar processos produtivos complexos por meio de soluções que envolvem engenharia, dados, robótica, métodos avançados de gestão e transformação cultural. Em vez de vender soluções padronizadas ou produtos de prateleira, a empresa parte do princípio de que cada planta industrial é um sistema único, com gargalos próprios, cultura organizacional específica e níveis distintos de maturidade técnica. “Levantamos as demandas dos clientes, entendemos suas dores e desenvolvemos soluções customizadas”, diz Ferrari.

O empresário conta que diversas linhas de produção em grandes fábricas do Estado ainda funcionam do mesmo jeito há décadas, e em muitos casos há resistência em realizar mudanças. Mas isso também significa que há muitas oportunidades de ganhos de eficiência, produtividade e competitividade na indústria. “Indústrias de sucesso chegaram até aqui implementando formatos que foram absolutamente necessários, mas que agora precisam ser remodelados. O sucesso dos projetos depende da disposição da empresa em rever práticas consolidadas”, afirma Ferrari.

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Ferrari: sucesso dos projetos depende da disposição de rever práticas consolidadas - Foto: Divulgação

A empresa realiza o diagnóstico de processos combinando observação de chão de fábrica, engenharia, análise de dados operacionais e ferramentas quantitativas avançadas. O objetivo é identificar onde estão as perdas de tempo, energia, matéria-prima, capacidade produtiva ou qualidade, e então desenhar as melhores soluções. Os sistemas de automação são capazes de substituir atividades manuais repetitivas e insalubres, reorganizar postos de trabalho e aumentar a eficiência operacional.

As soluções podem incluir a automação de linhas completas, células produtivas e fluxos internos de materiais. Abrangem desde transportadores automáticos, esteiras e sistemas de abastecimento de máquinas até linhas integradas que conectam diferentes etapas da produção, que podem contar com robôs tradicionais ou colaborativos e outros equipamentos. Painéis de automação produzidos pela empresa controlam motores, atuadores pneumáticos e hidráulicos, sensores e todos os dispositivos necessários para o funcionamento automático de equipamentos e linhas produtivas.

De acordo com Ferrari, os projetos de automação e robotização costumam gerar ganhos médios de produtividade entre 30% e 40% por célula, além de maior regularidade na produção, redução de falhas humanas e melhor aproveitamento da mão de obra. “A automação não elimina pessoas, mas elimina postos de trabalho repetitivos, permitindo que os profissionais sejam realocados para funções de maior valor agregado”, enfatiza o empresário.

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Um efeito da expansão dos serviços intensivos em conhecimento é o crescimento da eficiência operacional das fábricas - Foto: Divulgação

Complementares | Santa Catarina congrega o quinto maior polo de empresas de tecnologia do Brasil, levando-se em conta o faturamento conjunto do setor: R$ 42,5 bilhões, de acordo com a Associação Catarinense de Tecnologia (Acate). Um dos segmentos mais atuantes no Estado é a chamada Vertical Manufatura 4.0 da Acate, que reúne mais de 80 empresas com competências complementares que oferecem soluções e serviços em Internet das Coisas (IoT), Big Data e Inteligência Artificial (IA) para indústrias.

Uma dessas empresas é a Aquarela Analytics, de Florianópolis, especializada em Inteligência Artificial. Fundada em 2010, foi incubada no início de sua trajetória na Miditec, a incubadora da Acate, e hoje em dia tem clientes do porte da Embraer, Mercedes-Benz, Scania, Coca-Cola e empresas do setor de energia. As soluções em IA corporativa desenvolvidas pela Aquarela são complexas. Diferentemente de softwares prontos ou de automação convencional, projetos de IA exigem estruturação prévia de dados, integração de sistemas, mudanças de processos e, muitas vezes, uma nova cultura de tomada de decisão baseada em evidências.  

“IA não é mágica. Se os dados não estiverem organizados, ela não funciona”, diz Marcos Santos, CEO da Aquarela. Por isso, grande parte dos projetos começa pela construção de Data Lakes – ambientes que centralizam dados operacionais, financeiros, logísticos e de mercado, criando a base para análises avançadas e modelos preditivos. Os resultados não vêm na hora, pois há fases de diagnóstico, desenvolvimento, testes e ajustes até que os modelos estejam maduros, o que pode exigir alto investimento inicial.

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Aquarela, de Florianópolis, desenvolveu plataformas de IA para empresas como Embraer, Mercedes-Benz e Coca-Cola - Foto: Embraer/Divulgação

Apesar das barreiras de entrada, os resultados são compensadores quando a tecnologia é aplicada a problemas críticos do negócio. Para Santos, o ponto central é compreender que a IA não atua como um acessório tecnológico, mas como uma ferramenta estratégica capaz de intervir diretamente no núcleo do negócio industrial. Seu maior potencial se revela quando é aplicada a problemas complexos, que envolvem grande volume de dados, múltiplas variáveis e decisões que precisam ser tomadas com alto grau de precisão.

Um exemplo é o desenvolvimento de uma plataforma de inteligência artificial voltada à otimização logística e de estoques para a Embraer – em um setor em que cada componente pode custar milhares de dólares, pequenas melhorias representam economias significativas. O sistema é capaz de aprender com dados históricos de manutenção. “A gente pegou dez anos de dados da frota, treinou o modelo e ele aprendeu relações de causa e efeito”, explica Santos. “Quando surge um sintoma, o sistema consegue indicar com muito mais precisão qual é o componente que vai dar problema.”

Os ganhos, segundo Santos, são expressivos – especialmente quando a IA atua no chamado core business da empresa. Entre os resultados obtidos em projetos industriais, ele cita reduções de custos logísticos que chegaram a mais de 50% no consumo de combustível por meio da otimização de rotas, ganhos de eficiência em manutenção com redução de paradas não planejadas. Margens operacionais contabilizaram aumentos entre 5% e 8%. A boa notícia é que a tecnologia vem se tornando cada vez mais acessível. “O que antes levava um ano e meio para ser implementado, hoje a gente coloca em pé em seis meses”, diz Santos, referindo-se à evolução das plataformas e metodologias.

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Santos: IA não é acessório tecnológico, é ferramenta estratégica para o núcleo da indústria - Foto: Divulgação

Dores | Uma das indústrias mais icônicas de Santa Catarina, a WEG, que está entre os maiores fabricantes de equipamentos industriais do mundo, vem consolidando uma nova e estratégica frente de atuação: a vertical de eficiência operacional, área que concentra serviços industriais, soluções digitais e softwares voltados ao aumento da produtividade, da confiabilidade e da eficiência energética das fábricas.
De acordo com Carlos José Bastos Grillo, vice-presidente de Tecnologia da WEG, a movimentação é um desdobramento da vocação industrial da empresa, construída ao longo de mais de seis décadas de relacionamento com o chão de fábrica. “A WEG nasceu fazendo equipamentos elétricos, mas sempre teve como foco principal a indústria. A digitalização e os serviços surgem como uma resposta direta às novas dores do cliente industrial”, afirma.

A entrada mais estruturada da WEG no segmento foi a partir de 2019, quando realizou aquisições de startups e de empresas especializadas, como a PPI-Multitask, que fornece sistemas MES (Manufacturing Execution System), capazes de sincronizar o chão de fábrica com a cadeia de suprimentos. “Hoje a WEG conta com um conjunto completo de softwares industriais que vai do sensoriamento e conectividade até plataformas de dados, MES, monitoramento de ativos e camadas de inteligência artificial para otimizar toda a base de dados”, diz Grillo.

Além dos softwares, a vertical de eficiência operacional reúne um conjunto integrado de serviços, plataformas digitais e soluções de automação que podem ser contratados de forma associada aos produtos da WEG ou de maneira independente, como serviços puros, voltados à melhoria de processos industriais já existentes. 

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Grillo: prestação de serviços para indústrias é desdobramento de vocação da WEG - Foto: Divulgação

Os serviços estão estruturados em quatro frentes. Uma delas é a gestão de ativos industriais, com soluções de monitoramento da condição dos ativos, com sensores, softwares e análises preditivas que permitem antecipar falhas, reduzir paradas não planejadas e prolongar a vida útil dos equipamentos. Outra frente é a gestão da execução da manufatura, que compreende coordenar pessoas, máquinas, materiais e processos. Os ganhos de eficiência podem chegar a mais de 20%, de acordo com Grillo.

A terceira frente é a gestão energética, em que a WEG combina seu portfólio de equipamentos com soluções digitais para monitorar, otimizar e reduzir o consumo, identificando perdas como degradação de sistemas térmicos, falhas em estufas, fornos ou motores operando fora da faixa ideal. Por fim, os serviços contemplam a integração de sistemas e plataformas digitais, pois muitas indústrias convivem com sistemas isolados, fornecedores distintos e dificuldades de integração. A plataforma WEGnology, por exemplo, integra-se a ERPs, sistemas legados e plataformas de terceiros.

Como tudo na WEG atinge grandes dimensões, a vertical de eficiência operacional tende a ganhar corpo. Vem crescendo a um ritmo de 50% ao ano, ancorada em algumas vantagens competitivas que vão além das soluções em si. Uma delas é a possibilidade de desenvolver e testar as soluções nas próprias fábricas – são mais de 60 ao redor do mundo, com diferentes especialidades. Outra é a parceria já existente com milhares de clientes que utilizam seus motores, geradores e demais produtos de um portfólio que soma 1,4 milhão de produtos distintos. “A prestação de serviços industriais exige presença local, conhecimento dos processos e relacionamento contínuo com os clientes”, diz Grillo.

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Soluções criadas pela WEG são testadas nas próprias fábricas, que são mais de 60 ao redor do mundo - Foto: Divulgação

Serviços inteligentes proporcionam:

• Maior flexibilidade: fábricas tornam-se plataformas digitais onde funções são ativadas por software e serviços externos;
• Mais previsibilidade: manutenção preditiva e monitoramento contínuo reduzem paradas imprevistas e aumentam eficácia dos equipamentos;
• Escalabilidade de inovação: empresas ganham acesso rápido a novas capacidades (IA, visão computacional, algoritmos de otimização) sem esperar por anos de desenvolvimento interno;
• Surge um novo tipo de dependência: a relação com provedores torna-se estratégica e exige governança de contratos, proteção de dados e gestão de risco;
• Países e empresas que souberem organizar o ecossistema de serviços industriais intensivos em conhecimento sairão na frente na próxima rodada de competitividade manufatureira.

Fonte: Unido (Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial)

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Foto: Adobestock

Número 1 em serviços para a indústria

A FIESC é a maior provedora de serviços para a indústria em Santa Catarina. Não é à toa que suas maiores entidades levam “Serviço” no próprio nome: Serviço Social da Indústria (SESI/SC) e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI/SC). Além de uma ampla gama de serviços em educação, saúde, segurança, gestão, jurídico e ambiente de negócios, dentre outros, a oferta de serviços tecnológicos é crescente. A ponta-de-lança é a rede de Institutos SENAI de Inovação e Tecnologia de Santa Catarina, que contabiliza mais de 27 mil empresas atendidas, 300 projetos de pesquisa aplicada e 11 mil consultorias realizadas, em áreas como transformação digital e IA, robótica, manufatura avançada, transição energética, bioeconomia e desenvolvimento de satélites. “Aceleramos a competitividade da indústria com soluções que elevam eficiência, qualidade e inovação, aliadas à gestão eficiente de recursos, redução de riscos e desenvolvimento de novas tecnologias, em sintonia com as tendências globais”, diz Fabrízio Pereira, diretor regional do SENAI/SC.

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27 mil empresas atendidas pelos serviços dos Institutos SENAI de Inovação e Tecnologia de SC - Foto: Adobestock

Diversos níveis de serviço

Serviços Empresariais Intensivos em Conhecimento são chamados de KIBS, sigla em inglês para Knowledge-Intensive Business Services. Eles fornecem suporte para os processos de negócios de outras organizações e se relacionam com a indústria em diferentes níveis. Há aqueles diretamente associados aos processos produtivos e operacionais, como automação, otimização de produção, logística, engenharia de processos e manutenção avançada, que estão descritos nesta reportagem. Outros se vinculam às funções estratégicas da indústria, como Pesquisa & Desenvolvimento, design, inteligência tecnológica, marketing industrial, desenvolvimento de mercado, gestão de pessoas, finanças, importações e exportações.

Há diversos provedores catarinenses de serviços nessas áreas, e um bom exemplo é a Resultados Digitais, de Florianópolis. Sua plataforma RD Station introduziu processos, métricas e previsibilidade nas áreas de marketing e vendas industriais, permitindo que empresas médias e pequenas acessem práticas avançadas de gestão comercial e relacionamento com clientes. “Em um nível ainda mais sofisticado estão os serviços que agregam valor ao produto final, transformando bens industriais em soluções, experiências e plataformas de relacionamento com o cliente”, informa José Eduardo Fiates.

Um exemplo de Santa Catarina é a Portobello, indústria de revestimentos cerâmicos que criou a rede Portobello Shop. Ela atua como um braço de varejo verticalizado, funcionando como um canal de distribuição direta que conecta a fabricação a arquitetos e designers, aumentando margens e fortalecendo a marca. Assim o revestimento cerâmico, que é quase uma commodity, se torna uma solução de alto valor ao agregar design, serviço e experiência.

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