A produção e a industrialização de leite dispararam em Santa Catarina, mas se não conquistar o mercado externo a cadeia produtiva corre o risco de se desarticular por excesso de oferta. - Por Fabrício Marques

Produção da Lac Lélo: capacidade de 400 mil litros de leite por dia - Foto: Divulgação

Ainda referido por alguns como o patinho feio do agronegócio devido à competitividade inferior à de grãos, suínos e aves, a produção de leite é a atividade agropecuária que mais vem crescendo em Santa Catarina. Segundo estudo do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (CEPA) da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Epagri), a produção no Estado avançou de 869 milhões de litros de leite em 1996 para 2,81 bilhões de litros em 2017 – o aumento foi três vezes superior ao observado no País e quatro vezes maior que a média mundial, só perdendo para a China, onde subiu 250% no período.

O crescimento foi sustentado pelo chamado modelo agrícola catarinense, de pequenas propriedades rurais familiares onde tradicionalmente se faz o manejo de animais como suínos e aves, o que facilitou a incorporação do gado leiteiro. A indústria acompanhou o movimento, erguendo grandes unidades de processamento na região Oeste e também nos estados vizinhos – o Oeste catarinense ocupa o centro da maior bacia leiteira do Brasil, composta também pelo Sudoeste do Paraná e o Noroeste do Rio Grande do Sul.

Mesmo com os solavancos da pandemia, cerca de 3,15 bilhões de litros de leite foram produzidos no Estado em 2020. Desses, 2,8 bilhões de litros destinaram-se às indústrias lácteas, responsáveis por 11,4% da produção nacional – duas décadas atrás, a participação era de apenas 4%. Quarenta e oito mil produtores, espalhados por 80% dos municípios do Estado, mas com importância econômica destacada no Oeste, fornecem matéria-prima para centenas de indústrias e laticínios, em uma cadeia que gera receitas anuais de R$ 3,7 bilhões. Hoje, Santa Catarina é o quarto maior produtor de leite do País, atrás de Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul.

O segmento apresenta resultados vigorosos, mas os produtores catarinenses sabem que é necessário investir cada vez mais em qualidade, logística e redução de custos para que os indicadores robustos não azedem. Santa Catarina produz 2,5 vezes o leite consumido por seus 7,1 milhões de habitantes e depende de conquistar novos mercados para sustentar o crescimento. Apostar apenas no consumo doméstico, seguindo a tradição da indústria leiteira nacional, é uma estratégia de alto risco.

De acordo com o engenheiro agrônomo Airton Spies, ex-secretário da Agricultura e da Pesca de Santa Catarina, é fundamental conquistar mercados fora do País. Segundo ele, os produtores brasileiros precisam se tornar competitivos no mercado de commodities, exportando leite em pó, leite condensado e queijo prato e muçarela. Caso contrário, haverá um excedente de produção capaz de desregular os preços internos, podendo levar muitas famílias a abandonar a pecuária leiteira.

Industrialização: Brasil precisa exportar leite condensado, leite em pó e queijo - Foto: Shutterstock

“Se não formos capazes de vender para o mundo, vamos nos afogar em leite. O leite sempre foi tratado como um produto de consumo social no Brasil, chegando a ter os preços tabelados, e, consequentemente, a produção sempre teve como foco o mercado interno. Isso agora precisa mudar”, afirma Spies. Oportunidades, ele diz, não deverão faltar para quem oferecer qualidade e preços competitivos. Isso porque a tendência de longo prazo é que o mercado mundial cresça, impulsionado pelo aumento do consumo de leite e derivados em países como China, Índia e os da África.

Dispersão | O preço médio do litro de leite no Brasil entre 2011 e 2020 foi de 37 centavos de dólar por litro, cerca de 10% superior à média internacional. Na avaliação de Airton Spies, está ao alcance dos produtores catarinenses melhorarem sua competitividade. “O setor está repleto de bons problemas. Tem muitos ganhos marginais a incorporar e um potencial superior à realidade que pratica”, afirma o engenheiro, que é um dos maiores especialistas em produção de leite – com mestrado e doutorado na Nova Zelândia, país que é a meca mundial da exportação do produto.

Entre os principais obstáculos, ele destaca a heterogeneidade da qualidade do leite no Brasil e a dispersão de sua produção. “Temos excelentes produtores, que rivalizam com os melhores do mundo, e outros que trabalham em condições precárias. E a sua dispersão aumenta os custos logísticos para chegar às indústrias e ao consumidor. O desafio é reduzir custos e nivelar a produção por cima.” Em 2014, quando era secretário estadual da Agricultura, Spies ajudou a fundar a Aliança Láctea Sul Brasileira, entidade criada para fortalecer a cadeia produtiva do leite nos três estados da Região Sul.

A produtividade de Santa Catarina é de 3.942 litros por vaca/ano, bem superior à média nacional, de 2.138 litros por vaca/ano. A comparação com a Nova Zelândia, que é responsável por um terço de todo o leite exportado no mundo, mostra o quanto ainda é preciso avançar em ganhos de custos e de logística. O produtor típico catarinense é um casal dedicado à ordenha de cerca de 30 vacas, o que perfaz 15 vacas por pessoa ocupada nesses minifúndios familiares. Com tecnologia intensiva, a Nova Zelândia ostenta índice de 147 vacas por pessoa na atividade.

No trajeto entre o produtor e a indústria, são transportados no Brasil em média 50 litros de leite por quilômetro rodado – em Santa Catarina, a Aurora, que tem 11 cooperativas afiliadas, chega a transportar mais de 100 litros por quilômetro rodado. Ainda assim isso não chega à metade do desempenho da indústria do leite neozelandesa, cujo índice chega a 215 litros de leite por quilômetro rodado. Em relação ao teor de sólidos (gordura, proteína, lactose e minerais), o leite brasileiro tem 30% menos que o da Nova Zelândia.

Queijos nobres | Uma boa notícia é que há empresas em Santa Catarina já bastante mobilizadas para enfrentar a concorrência de países avançados na produção e industrialização do leite. Um exemplo é a Gran Mestri Alimentos, produtora de queijos nobres sediada em Guaraciaba. Seus cerca de 300 fornecedores, que produzem 150 mil litros de leite por dia, recebem assistência técnica da empresa e utilizam o mesmo tipo de pasto e de raça bovina adotados na Nova Zelândia. Eles foram adaptados às condições do Oeste catarinense graças ao esforço do empreendedor Acari Menestrina, dono da empresa, que já esteve no país da Oceania muitas vezes.

Menestrina: mesmo pasto e raças bovinas utilizados na Nova Zelândia - Foto: Divulgação

Se a Nova Zelândia é referência para produzir um leite com alto teor de sólidos e baixa concentração de bactérias e células somáticas, como exigem as normas do mercado internacional, a Gran Mestri foi buscar em regiões da Itália, como Sardenha, Lácio e a Toscana, as receitas para produzir 85 diferentes produtos. “Visitamos 800 fábricas no mundo para obter as melhores tecnologias. Nossos equipamentos foram importados da Itália”, conta Menestrina.

Mestres queijeiros italianos foram contratados para monitorar a produção e visitam as fábricas da Gran Mestri periodicamente. Nos últimos 20 anos a empresa experimentou taxas de crescimento que chegaram a 30% ao ano – com a crise recente, elas têm oscilado entre 8% e 12%. A aposta de Menestrina tem sido o mercado interno, onde há espaço para produtos com maior valor agregado, capazes de rivalizar com os importados, ou com baixo teor de lactose. Ele afirma que a conexão das indústrias e produtores com as práticas mais avançadas do exterior é fundamental para o crescimento da indústria do leite no País. “Para regular oferta e procura, precisamos exportar, mas temos gargalos e um dos maiores é a matéria-prima. Temos de produzir leite de padrão internacional”, destaca.

O desafio não é desprezível, mas parece possível de alcançar quando se observa o quanto a cadeia leiteira catarinense evoluiu no passado recente. Até o início dos anos 2000, boa parte do leite produzido em Santa Catarina era vendida localmente ou consumida pelos próprios agricultores. Nas últimas duas décadas houve um grande esforço de organização, impulsionada por três pilares, que foram a disponibilidade de assistência técnica para os produtores fornecida por empresas, governos e cooperativas, a adoção de novas tecnologias e o trabalho de defesa agropecuária.

Hoje o Estado é uma zona livre de febre aftosa e seus rebanhos não precisam mais ser vacinados. Cem por cento da ordenha é mecânica e o leite é acondicionado em tanques de expansão, reservatórios térmicos de aço inoxidável que resfriam o leite prontamente após a ordenha. Os tanques substituíram os tarros de leite, aqueles prosaicos tambores de latão usados para transportar o produto, que não são mais vistos sacolejando em caminhões nas estradas de Santa Catarina.

Investidores | O crescimento da indústria de laticínios no Estado também vem despertando a atenção de investidores. Um exemplo disso pode ser visto na trajetória da Lac Lélo, marca da empresa Laticínios São João. Fundada em 1999 em São João do Oeste, extremo oeste de Santa Catarina, por empresários dedicados à suinocultura, a empresa hoje tem uma capacidade de produção de 400 mil litros de leite por dia fornecidos por 500 produtores da região e detém 14% do market share de queijos em Santa Catarina, com uma linha de 70 produtos.

Etapa de produção da Lac Lélo: capacidade de 400 mil litros de leite por dia - Foto: Divulgação

Em 2020 a Lac Lélo recebeu um aporte do fundo de investimentos Aqua Capital, criado pelo gestor Sebastian Popik, e se tornou a ponta de lança de uma plataforma nacional, batizada de UltraCheese, que agregou tradicionais empresas de laticínios de vários lugares do País: a Cruzília, de Minas Gerais, a Búfalo Dourado, de São Paulo, e, recentemente, a Itacolomy, de Goiás.

De acordo com o administrador de empresas Edson Martins, diretor operacional da plataforma UltraCheese, o mercado de queijos e cremes é a nata da cadeia leiteira, mas o nível de fragmentação das empresas conspira contra ganhos de escala. O objetivo da plataforma, cujos produtos estão presentes hoje em 22 estados, é reunir empresas campeãs regionais em um portfólio de marcas, que garanta vantagens em inovação e serviços. “Queremos reunir marcas que gerem valor para o consumidor e os acionistas e que atinjam o maior número de lares possível no Brasil”, afirma Martins, que antes de ser contratado pela UltraCheese fez carreira nos quadros de um dos laticínios mais importantes de Santa Catarina, a Tirol.

Martins, da UltraCheese: marcas líderes regionais reunidas em portfólio - Foto: Divulgação

Por sua vez a Tirol, com sede em Treze Tílias, já conseguiu romper as fronteiras do mercado internacional e iniciou este ano exportações diretas para países da América do Sul. Com unidades industriais em Treze Tílias, Pinhalzinho e Chapecó, a companhia inaugurou recentemente uma fábrica no município de Ipiranga, no Paraná.

Maiores produtores de leite
(bilhões de quilos)
Índia 195,0
UE 169,8
EUA 100,8
Paquistão 48,6
China 34,1
Brasil 34,0
Principais exportadores
(equivalente a bilhões de quilos)
UE 22,4
Nova Zelândia 19,9
EUA 11,8
Bielorrúsia 4,3
Austrália 2,6
Argentina 2,3

Obs: em 2020 | Fonte: FAO/Epagri

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