Investimentos bilionários estão tornando a Baía da Babitonga uma das principais plataformas logísticas da América do Sul, ajudando a elevar a competitividade da indústria

Mário Cezar de Aguiar, presidente da FIESC: "A Baía da Babitonga tem características únicas de porte, calado, àguas abrigadas ee uma localização estratégica. Pode receber novos investimentos de maneira sustentável" - Foto: Divulgação

Os recordes de movimentação de cargas obtidos pelos portos de Itapoá e São Francisco do Sul no ano passado, mesmo durante a pandemia, representam a largada para uma década de crescimento capaz de colocar a Baía da Babitonga, localizada no litoral norte catarinense, na posição de maior complexo portuário da América do Sul. Até 2030 são previstos investimentos de R$ 15 bilhões no local, que vão multiplicar por seis vezes a geração de renda e quintuplicar o número de empregos gerados diretamente na região. As principais empresas que operam na baía estão com o pé no acelerador para chegar lá.

“A retomada da economia global após a crise causada pela Covid-19 está sendo mais forte do que as previsões iniciais, e o setor portuário cresce na mesma proporção”, afirma o presidente do Porto Itapoá, Cássio José Schreiner, responsável pelas projeções para a Baía da Babitonga. Em 2021, o Porto Itapoá se consolidou como o quinto maior terminal do Brasil em movimentação de contêineres, com crescimento de mais de 13% em relação a 2020.

Schreiner, do Porto Itapoá: R$ 750 milhões para ampliar estrutura - Foto: Divulgação

No final de dezembro a empresa concluiu a captação de R$ 750 milhões para aplicar na ampliação do porto. O dinheiro será investido na expansão do terminal que ganhará mais 200 mil metros quadrados de área de pátio, pulando para 450 mil metros quadrados. A atual capacidade de movimentação de 1,2 milhão de TEUs (medida padrão de um contêiner com 20 pés de comprimento) por ano será ampliada. “Com a captação no mercado financeiro vamos viabilizar um acréscimo de capacidade de estrutura para 1,6 milhão de TEUs, o que deve ser uma das maiores capacidades operacionais entre os portos de contêineres do País”, diz Schreiner.

Já a movimentação no Porto de São Francisco do Sul, o mais antigo da Baía da Babitonga e o sétimo maior do País em movimentação de carga geral, cresceu 14% no ano passado. Para o biênio 2022/2023 estão previstos investimentos público-privados para um novo berço de atracação – além dos sete já em operação – e a modernização do terminal graneleiro. O porto atua na exportação de produtos como soja e madeira e na importação de material siderúrgico, fertilizantes e ureia, dentre outros. “A perspectiva de incremento no transporte aquaviário para os próximos anos decorre de gargalos logísticos históricos, sendo inegável que há uma demanda reprimida a ser atendida”, aponta o presidente Cleverton Vieira.

Vieira: perspectiva de crescimento do transporte aquaviário nos próximos anos - Foto: Gustavo Camargo / Divulgação

Liquefeito | O complexo portuário da Baía da Babitonga responde por cerca de 60% da movimentação de carga geral, em toneladas, de Santa Catarina. A nova safra de investimentos poderá triplicar o total de empresas portuárias e retroportuárias (veja o quadro) operando na região, além de outras operações logísticas. Um dos destaques é o Terminal Gás Sul (TGS), que começará a funcionar nos próximos meses. A estrutura flutuante de armazenamento e regaseificação receberá gás natural liquefeito trazido por navios para convertê-lo para gás. A capacidade de fornecimento do TGS será de 15 milhões de metros cúbicos diários, ampliando a oferta para toda a Região Sul do País – atualmente a região obtém apenas 5 milhões de metros cúbicos. Em Santa Catarina, além de abastecer indústrias, o gás poderá alimentar uma nova usina termelétrica no município de Garuva.

O interesse despertado pela Baía da Babitonga decorre, em primeiro lugar, de suas características naturais. A proteção natural da baía, que é livre do vento sul e do mar agitado, e as profundidades de até 20 metros favorecem as operações portuárias de larga escala. Com 160 quilômetros quadrados de espelho d’água, a baía abriga também atividades de pesca e turismo. Ao mesmo tempo, o estuário, onde deságuam vários rios, é um enorme criadouro de espécies marinhas. Seu entorno abriga diversos remanescentes de Mata Atlântica e cerca de 75% dos manguezais de Santa Catarina.

Este complexo ecossistema natural e econômico se situa no coração de um dos maiores centros industriais do País. A baía é cercada pelos municípios de Joinville, a maior cidade catarinense, além de Araquari, Balneário Barra do Sul, Garuva, Itapoá e São Francisco do Sul. “A Baía da Babitonga tem características únicas de porte, calado, águas abrigadas e uma localização estratégica. Pode receber novos investimentos de maneira sustentável”, afirma Mario Cezar de Aguiar, presidente da FIESC.

Porto de São Francisco do Sul: novo berço em parceria com setor privado - Foto: Gustavo Camargo / Divulgação

Ao mesmo tempo que a movimentação econômica do entorno favorece novos investimentos logísticos, a infraestrutura existente atrai novas indústrias. A eficiente e moderna plataforma logística da Babitonga foi decisiva para que se configurasse um polo automotivo na região (que inclui unidades da BMW em Araquari e General Motors em Joinville) e um dos maiores centros processadores de cobre do País em Joinville, dentre outras atividades.

A Metal Group, que congrega a Copper Indústria e a Recope Laminação, está instalada no Perini Business Park, em Joinville, desde 2008. A mudança de São Paulo para Santa Catarina se deu em razão da infraestrutura logística e também dos benefícios fiscais oferecidos pelo Estado. Maior importadora de cobre do Sul do País, desde então a empresa já utilizou os terminais de Itajaí, São Francisco do Sul e Itapoá, onde vem concentrando as operações nos últimos anos. “Esperamos que o surgimento de novos portos e empresas de logística impacte na redução dos custos”, diz Alessandro de Souza Almeida, diretor executivo da Metal Group.

Com faturamento previsto de R$ 3 bilhões para este ano, o executivo afirma que, pelo fato de o cobre ser uma commodity, a margem de agregação de valor é baixa, e que por isso é preciso ter um controle rígido dos custos. “É tudo exponencial. Se você economiza 0,01%, no final do ano já é um belo resultado ”, afirma Almeida.

Um dos projetos da Baía da Babitonga é o do Porto Brasil Sul, em São Francisco do Sul, que deverá ser um dos maiores portos multicargas do País. A previsão é iniciar as operações entre o final de 2026 e início de 2027. O complexo deve contar com cinco berços de atracação e cinco terminais, abrangendo operações variadas como contêineres, grãos, fertilizantes, líquidos e veículos. O empreendimento será erguido em uma área de 1,1 milhão de metros quadrados, na região da Ponta do Sumidouro, próximo à entrada da baía. Será um porto de águas profundas, com calado médio acima dos 18 metros. O projeto prevê a implantação de um porto concentrador de cargas e de linhas de navegação de todo o Mercosul, com capacidade para receber navios da classe Post Panamax, com até 18 mil TEUs.

BMW em Araquari e processamento de cobre em Joinville: atração - Foto: Divulgação

Alternativa | Outro projeto que vai movimentar a Babitonga é o da Coamo, maior cooperativa agroindustrial da América Latina, que pretende investir até R$ 1 bilhão em um terminal em Itapoá. Os objetivos são o escoamento de parte da produção e a importação de insumos, além da prestação de serviços a terceiros. Em 2020 a Coamo exportou 4,6 milhões de toneladas em produtos agroindustriais, o que gerou receitas de mais de US$ 1,5 bilhão.

A área adquirida pela empresa, com 400 metros de frente para o mar, fica localizada em uma zona de interesse portuário, segundo o plano diretor do município, e próxima onde hoje opera o Porto Itapoá. No local devem ser construídos três berços de atracação em ‘F’, sendo um para grãos, um para fertilizantes e um para líquidos e gás, além de um armazém com capacidade para 200 mil toneladas e com duas linhas para o carregamento de 2 mil toneladas por hora. Itapoá se tornará uma alternativa ao Porto de Paranaguá, no Paraná, onde a companhia realiza a maior parte das operações.

A cooperativa trabalha na obtenção do EIA/RIMA e garante já ter em mãos o documento “nada a opor” da Marinha atestando a liberação da área para a construção do terminal, mas ainda não há data definida para o início das operações do empreendimento. “É uma grande caminhada até a instalação do porto. Conseguimos as licenças para fazer os estudos de impacto ambiental para, depois, buscar as licenças e alvará de construção”, diz Edenilson Carlos de Oliveira, diretor de Logística e Operações da Coamo, assinalando que a empresa está sempre conversando com a Prefeitura de Itapoá a fim de adequar o empreendimento ao plano diretor do município.

Sérgio Grassi, secretário de Desenvolvimento Social e Econômico de Itapoá, acompanha de perto a evolução dos projetos. “Já está prevista uma terceira fase de ampliação do Porto Itapoá para 2025, elevando a movimentação para 2 milhões de TEUs”, antecipa. Para dar segurança aos empreendimentos, a prefeitura enviou à Câmara de Vereadores, no início do ano, o projeto de lei do Zoneamento Ecológico-Econômico Municipal (ZEEM) – que é o conjunto de leis que fomentará a instalação de grandes terminais retroportuários na cidade.

Principais projetos

  • Terminal Gás Sul (TGS): Regaseificação de 15 milhões de m³/dia
  • Porto Itapoá: Ampliação da capacidade para 2 milhões de TEUs/ano
  • Terminal Portuário Coamo: Escoamento de produtos agrícolas e importação de insumos
  • Porto Brasil Sul: Capacidade para atracação de até 8 navios
  • Estaleiro CMO: Fabricação de estruturas offshore para setor de Óleo e Gás
  • Terminal Graneleiro da Babitonga (TGB): Capacidade de 14 milhões de t/ano
  • Porto de São Francisco do Sul: Novo berço de atracação e modernização de terminal graneleiro
  • TCI Empreendimentos – Itapoá: Parque logístico de pátios e galpões
  • UTNC: Usina termelétrica a gás natural em Garuva

Fonte: FIESC e empresas

Alvarás | “No caso da Coamo, por exemplo, fizemos reuniões entre prefeitura e empresa para alinhar as questões urbanísticas e ambientais do projeto para que o investimento realizado na cidade traga sempre o máximo de benefícios aos cidadãos”, afirma Grassi. Em janeiro, segundo o secretário, 40% dos alvarás de construção ativos no município eram de projetos na área de logística. Três deles chamam a atenção por suas dimensões: 40 mil, 80 mil e 200 mil metros quadrados entre áreas de pátio de manobras e galpões.

Um dos projetos que dão uma dimensão do crescimento da movimentação logística esperado para a Baía da Babitonga é o da TCI Empreendimentos – Itapoá, que deverá ocupar mais de 2 milhões de metros quadrados de área. A empresa aguarda liberações ambientais para colocar em marcha a primeira etapa de investimentos para atender à demanda gerada pelo Porto Itapoá. “Nesta etapa serão cerca de 90 mil metros quadrados entre pátios e galpões destinados a operadores logísticos”, diz Franz Norbert Wieler, diretor administrativo da empresa.

O investimento apenas nesta fase deve ficar entre R$ 60 milhões e R$ 80 milhões. Trata-se de uma fração do projeto inteiro, que é estimado em 100 milhões de euros e prevê 1 milhão de metros quadrados de pátios e 300 mil metros quadrados de galpões. Caso o crescimento da economia brasileira nos próximos anos sustente a continuidade desse plano de investimentos, a TCI Empreendimentos já tem estudos para incorporar um terminal de líquidos também em Itapoá. Além de crescimento econômico, os projetos da Baía da Babitonga dependem do crescimento da infraestrutura local e do entorno, conforme detalhado na matéria subsequente.

Projeto da TCI em Itapoá: estrutura para operadores logísticos - Foto: Divulgação

Ainda tem chão pela frente

Para que os novos projetos saiam do papel é preciso resolver questões dentro e fora da Baía da Babitonga, que passam por licenças ambientais, estradas e ferrovias.

Porto de São Francisco do Sul: prejuízos com lentidão da BR-280 - Foto: Gustavo Camargo / Divulgação

A natureza dotou a Baía da Babitonga de aptidões fantásticas para o desenvolvimento de um polo logístico, com destaque para suas grandes dimensões e águas protegidas. Para que todo o seu potencial seja realizado, entretanto, é necessário equipar a região e seu entorno da infraestrutura capaz de sustentar o crescimento econômico projetado.

Potencial do Complexo da Babitonga

  • Pode saltar de 16 para 48 empresas portuárias e retroportuárias entre 2021 e 2030
  • Investimentos privados diretos devem atingir R$ 15 bilhões no período
  • Com isso a geração de renda anual sairá de R$ 300 milhões para R$ 1,8 bilhão na região
  • Empregos poderão quintuplicar, dos atuais 8.500 para 45 mil

Fonte: Porto Itapoá

Dentre as intervenções que precisam ser feitas na própria baía destaca-se o aprofundamento do canal de acesso. Sua profundidade atual, de 14 metros, limita o tamanho dos navios que atracam em seus portos. É necessária dragagem de aprofundamento para 16 metros, além da retificação de uma curva do canal. Também é preciso aprofundar o canal interno e a bacia de evolução para 16 metros, e remover formações rochosas que limitam as operações.

Com as medidas, os portos poderão receber navios da classe New Panamax, que têm 366 metros de comprimento e quase 50 metros de largura, com capacidade para até 13 mil TEUs e 220 mil toneladas. Os portos mundiais já operam com navios de até 400 metros e 21 mil TEUs.

A licença ambiental para o aprofundamento do canal de acesso é aguardada para os primeiros meses deste ano. “Isso permitirá a busca dos recursos necessários à obra, através de convênios ou outra modalidade legal”, afirma Oscar Schmidt Neto, gerente de Meio Ambiente do Porto de São Francisco do Sul.

Para agilizar e dar segurança aos novos projetos é preciso estabelecer com clareza o que pode ser feito e como. O caminho é o zoneamento econômico e ecológico – o processo é defendido pela FIESC para toda a costa catarinense, mas a Baía da Babitonga é considerada a etapa mais urgente. O zoneamento é um instrumento de gestão ambiental previsto na política nacional para o meio ambiente, que pode trazer maior segurança jurídica aos empreendimentos, mas é pouco utilizado.

Ainda mais complicado do que os ajustes internos é cuidar da infraestrutura do entorno e de acesso aos complexos logísticos da Baía da Babitonga. Um dos projetos mais aguardados é o da Ferrovia Litorânea, capaz de conectar os portos catarinenses à malha nacional e aos maiores centros produtores e consumidores do País. A FIESC defende que seja incorporada ao projeto da Ferrovia Litorânea, já existente, a extensão do traçado para acesso ao Porto Itapoá.

“Um porto não é uma célula independente e autônoma, requer conexão eficiente com o mercado, por meio de infraestrutura e acessos”, diz Egídio Martorano, gerente para assuntos de transporte, logística, meio ambiente e sustentabilidade da FIESC. Além da nova ferrovia, é preciso construir contornos ferroviários em Joinville, São Francisco do Sul e Jaraguá do Sul, para melhorar a malha já existente que atende o Porto de São Francisco do Sul.

Mais caminhões com contêiners trafegarão pelas estradas - Foto: Leo Laps

Corredor | O aumento na movimentação dos portos em Santa Catarina nos próximos anos – em que a Baía da Babitonga é destaque – poderá colocar mais 22 mil caminhões com contêineres rodando todos os dias pelas já saturadas estradas catarinenses. Daí a importância da execução dos projetos ferroviários e também da ampliação da capacidade das estradas federais e estaduais que sofrem a influência do complexo.

As estaduais SC-416 e SC-417 já têm projetos para ampliação de capacidade nos municípios de Garuva e Itapoá. No caso das federais, o mais urgente é a conclusão das duplicações das BRs 280 e 470, além do aumento de capacidade de tráfego na BR-101. “Com a ajuda do Governo do Estado, a duplicação da BR-280 avança no trecho de Jaraguá do Sul. Mas os projetos da Baía da Babitonga estão ameaçados pela lentidão dos investimentos no trecho entre a BR-101 e São Francisco do Sul”, alerta Marco Antonio Corsini, presidente da Associação Empresarial de Joinville (ACIJ).

Mais do que ferrovias ou rodovias isoladas, a visão da FIESC para a logística da região abrange a criação de um corredor logístico intermodal, compreendendo a BR-101 e a Ferrovia Litorânea sendo viabilizada em conjunto com a Ferrovia Leste-Oeste. O complexo tiraria muitos caminhões das estradas, permitindo suportar o crescimento da movimentação portuária em todo o litoral catarinense, assim como daria maior eficiência e integridade aos corredores rodoviários de orientação leste-oeste – as BRs 280, 470 e 282.

Inscreva-se e receba semanalmente por e-mail as atualizações da indústria de Santa Catarina