Uma solução tecnológica criada para digitalizar a gestão de aterros sanitários, tornando-a mais sustentável e barata, foi desenvolvida pela empresa catarinense Wihex com a contribuição de pesquisadores do Instituto SENAI de Inovação em Sistemas Embarcados. A nova ferramenta permite, em tempo real, medir o volume de resíduos que chegam ao aterro, distribuí-los de forma adequada, acompanhar o processo de compactação e garantir a estabilidade do solo. Isso, com uma redução de 70% nos custos em relação a técnicas tradicionais, que dependem da análise regular de equipes de topógrafos e, quando não são executadas de forma frequente e rigorosa, podem causar riscos ambientais e reduzir a vida útil dos aterros.
A inovação é composta por um conjunto de módulos de computação e comunicação, instalados nos tratores e em bases fixas nos aterros, que detectam a altura das camadas de compactação e monitoram a distribuição dos resíduos pela área. Os módulos se comunicam entre si e também com equipamentos instalados em outros locais, enviando para gestores dados instantâneos sobre o comportamento do solo, a eficiência do maquinário e a necessidade de intervenção.
A precisão do georreferenciamento é propiciada por uma tecnologia de posicionamento por satélite chamada GNSS RTK (Real Time Kinematic), que fornece dados em escala de centímetros. As informações são transmitidas seguindo um padrão de comunicação de longo alcance e baixo consumo de energia, a tecnologia LoRa (Long Range), comumente utilizada em equipamentos de Internet das Coisas (IoT). Há, ainda, uma plataforma que orienta em tempo real os operadores de veículos que espalham os resíduos, apontando se precisam ser mais compactados e se o nível de aterramento corresponde ao previsto. “Os componentes que utilizamos já existiam no mercado. A inovação está no modelo de negócios que desenvolvemos e no aplicativo com foco no nicho dos aterros de resíduos”, explica Wilian Zanatta, CEO da Wihex.
Precisão | A ideia de criar esse tipo de sistema surgiu de uma demanda apresentada por clientes da Wihex que prestam serviços para aterros sanitários – a empresa, sediada em Florianópolis e fundada em 2021, tem como foco a transformação digital industrial, soluções de IoT e agricultura de precisão. “Percebemos que grande parte do monitoramento ainda era feita de forma manual, além de ser caro e sujeito a erros. O desafio era automatizar o processo, trazendo mais precisão nas medições, segurança operacional e eficiência no uso do espaço”, explica Zanatta. Os benefícios, ele observa, vão muito além da redução de custos na gestão. “Também há um impacto notável para a sociedade e para o meio ambiente. O melhor aproveitamento de um aterro evita a abertura desnecessária de novas áreas para receber resíduos.”
A equipe de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Wihex já havia produzido um protótipo, utilizando dispositivos e sensores disponíveis no mercado, e chegou à conclusão de que a solução era viável técnica e financeiramente. Mas ainda era necessário aprimorar o protótipo para transformá-lo em um produto comercial. Em 2023, surgiu uma oportunidade para elevar a maturidade tecnológica da ferramenta por meio da segunda chamada Smart Factory, no âmbito da Plataforma Inovação para a Indústria do SENAI, que financia projetos de transformação digital no setor industrial. Esta categoria de financiamento faz parte do programa federal Brasil Mais Produtivo. O projeto da Wihex foi um dos 18 contemplados na chamada, totalizando R$ 800 mil em recursos para acelerar o desenvolvimento da tecnologia.
A contribuição do Instituto SENAI consistiu em aprimorar sensores e a integração de dados por meio da Internet das Coisas (IoT) e apoiar a validação do desempenho da tecnologia em campo. O modelo de colaboração foi inusual para a equipe do instituto, que normalmente participa também das etapas iniciais dos projetos desenvolvidos com empresas. Dessa vez, contudo, o desafio era elevar o nível de maturidade tecnológica de uma solução já desenvolvida – que é o foco da chamada Smart Factory.
“Mobilizamos competências em eletrônica embarcada, sensoriamento, Indústria 4.0, análise de dados e testes de durabilidade, trabalhando de forma colaborativa para transformar um protótipo promissor em uma solução pronta para escalar”, explica Brenda Macário, gestora de projetos no Escritório de Gerenciamento de Projetos dos Institutos SENAI de Inovação, Tecnologia e UniSENAI.
Flávio Gabriel Oliveira Barbosa, coordenador de P&D do ISI em Sistemas Embarcados, conta que a experiência da equipe com grandes projetos e seu conhecimento sobre as cadeias de fornecimento de insumos permitiram aprimorar o protótipo. “Nosso objetivo é agregar valor real para a Wihex”, afirma. “Atuamos na validação da escolha de componentes que eram melhores para as aplicações desejadas e no apoio ao processo de industrialização dos equipamentos”, complementa Fabrízio Piccoli Maziero, também pesquisador do ISI em Sistemas Embarcados, que atuou como responsável técnico no projeto.
Zanatta, da Wihex, conta que a cooperação fluiu bem. “A experiência foi muito positiva. O grupo técnico da empresa e as lideranças do SENAI estavam tão alinhados que pareciam ser uma equipe só. Tivemos uma comunicação franca, aberta e colaborativa.” Um dos desafios enfrentados pelas duas equipes foi testar a tecnologia em condições reais de operação em 29 aterros nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Segundo o CEO da empresa, o apoio do corpo técnico do ISI forneceu metodologia adequada, acompanhamento técnico e capacidade de medição precisa, atestando que os resultados fossem confiáveis.
Intempéries | O nível de maturidade tecnológica da ferramenta, que antes do início do projeto era 6 (demonstração de protótipo funcional em ambiente relevante), foi alçado ao topo da escala, o nível 9 (produto pronto para comercialização). “Até junho pretendemos lançar o produto no mercado”, afirma Zanatta.
A Wihex aposta que a solução será responsável por até 20% do faturamento da empresa – seu carro-chefe atualmente são soluções em Internet das Coisas para o setor elétrico. O CEO da empresa conta que já há clientes interessados nos primeiros lotes e o desafio agora é ampliar a capacidade de produção para atender uma demanda crescente. A expectativa é instalar nos próximos dez anos cerca de 5 mil desses dispositivos nos mais de mil aterros sanitários espalhados pelo Brasil.
O aterro na era dos dados
• O que é: Sistema digital para gestão e monitoramento de aterros sanitários em tempo real
• Para que serve: Medir volume de resíduos, orientar a distribuição no terreno, acompanhar a compactação e garantir a estabilidade do solo
• Como funciona: Módulos de computação e comunicação instalados em tratores e bases fixas coletam dados de campo e enviam informações instantâneas aos gestores
• Principais ganhos:
- Redução de até 70% nos custos de monitoramento
- Mais precisão nas medições
- Aumento da vida útil dos aterros
- Menor risco ambiental
- Melhor aproveitamento do espaço disponível