Em junho do ano passado, o IBGE apontou que Santa Catarina foi o estado com maior saldo migratório do País – deixando São Paulo pela primeira vez fora do topo da série histórica iniciada em 1991. Os dados do Censo 2022 também revelaram algo que já vinha sendo notado nas ruas e espaços de trabalho em solo catarinense: a presença frequente do sotaque hispânico. É que, além dos milhares de paraenses, gaúchos, paranaenses e brasileiros de outros estados que resolveram morar em Santa Catarina, uma quantidade inédita de estrangeiros, a maioria da América Latina, escolheu o Brasil para buscar nova vida, e o Estado, com o combo de pleno emprego, segurança e qualidade de vida, atraiu muitas dessas pessoas.
Segundo o IBGE, o percentual de residentes em Santa Catarina nascidos em outros países saiu de 11 mil em 2010 para quase 73 mil pessoas em 2022. E conforme publicou a prefeitura de Chapecó, cidade que mais recebeu estrangeiros no período estudado pelo IBGE, a curva seguiu em ascensão: se os números consolidados pelo Instituto contavam 11,7 mil não brasileiros residentes em Chapecó em 2022, a Secretaria de Saúde municipal já somava, em junho de 2025, mais de 23 mil deles cadastrados no município.
Quase 80% desses novos moradores de Chapecó vieram da Venezuela, país que vive longa crise socioeconômica. O Brasil, conforme o IBGE, viu o número de imigrantes venezuelanos saltar na última década: entre 2010 e 2022, passaram de menos de 3 mil para mais de 271 mil. É quase quatro vezes mais que a quantidade de haitianos que adentraram o País após o terremoto que matou 300 mil pessoas na ilha caribenha em 2010. Para distribuir essa população, o Governo Federal criou a Operação Acolhida, que oferece realocação voluntária e gratuita dos municípios de Roraima para outras cidades do Brasil. Entre 2018 e 2025, 156 mil migrantes e refugiados que entraram pela fronteira Norte foram encaminhados para 1.112 municípios brasileiros.
Além disso, no Brasil há a facilidade para se regularizar e trabalhar legalmente. Com a Lei de Migração brasileira, sancionada em 2017 para substituir o Estatuto do Estrangeiro, houve uma mudança na visão que se tem do imigrante, aponta o professor doutor e membro do Observatório das Migrações de Santa Catarina, da Udesc, Tafarel Cassaniga. “Aquele estatuto, de 1980, tratava o estrangeiro sob ótica suspeita, como alguém perigoso, e a nova lei passa a tratá-lo como cidadão de direito”, considera o pesquisador.
A lei também descriminalizou o imigrante pela situação documental, dando direito à defesa em casos de deportação ou repatriação, além de criar o visto temporário de acolhida humanitária. “Ainda há muito a melhorar, como a adaptação de diplomas para permitir o uso deles aqui. Mas facilitou a regularização, permitiu ter um CPF, tornou o processo muito mais acolhedor”, explica Cassaniga.
Em Santa Catarina, que vive uma situação de pleno emprego, a chegada de imigrantes tem ajudado a indústria a preencher vagas de trabalho em aberto, o que tem sido essencial para sustentar o ritmo de crescimento da indústria acima da média brasileira nos últimos anos. Para se ter uma ideia, venezuelanos representaram 39% do total das carteiras de trabalho assinadas nos últimos dois anos em Chapecó, de acordo com dados do governo municipal. Na Aurora Coop, sediada em Chapecó e uma das maiores empregadoras privadas de Santa Catarina, quase 30% dos 52 mil colaboradores atuais não nasceram no Brasil. São cerca de 15 mil estrangeiros, dois terços deles vindos da Venezuela – outros 30% são haitianos.
“Cerca de 98% das vagas que abrimos são de nível operacional, porta de entrada para a empresa, que tem uma cultura muito forte de promoção interna. Essa reposição de mão de obra tem sido feita geralmente por estrangeiros”, comenta Suelen Pratto, gerente corporativo de Pessoas e Cultura da empresa. Segundo ela, só no ano passado a Aurora Coop criou 3 mil novas vagas de emprego, sendo que 70% delas foram ocupadas por não brasileiros. “É um pessoal que vem para agregar e fazemos um trabalho muito forte para que eles se sintam incluídos, inseridos na empresa”, diz Suelen.
Chimarrão | A cooperativa tem processos de integração específicos para imigrantes, com foco no acolhimento e na adaptação cultural ao novo lar, além de auxiliar com a documentação exigida para viver no País. Um dos pontos de destaque é o programa Conecta Imigrantes, promovido em parceria com a Fundação Aury Luiz Bodanese (ALB), mantida pela Aurora Coop, e a Unochapecó. Trata-se de um curso com 10 encontros para falar de temas como cooperativismo, direitos, saúde mental e integração. Em maio, um grupo de 30 colaboradores se formou na unidade de Guatambu, a oeste de Chapecó. “Traduzimos todos os materiais de trabalho, buscamos apresentar os direitos e deveres deles. Temos um analista cultural que fala de cultura, de comida, de chimarrão, e buscamos entender também quais são as necessidades deles”, enumera Suelen.
A dependência cada vez maior de mão de obra estrangeira exige uma atenção especial ao noticiário dos países de origem dos colaboradores. A queda do líder venezuelano Nicolás Maduro no início do ano causou comoção e comemoração pelas ruas de Chapecó, onde imigrantes cantaram e dançaram enrolados em bandeiras da Venezuela. Ao mesmo tempo, a situação causou apreensão em empresas e entidades, que acenderam o alerta para a possibilidade de boa parte dos venezuelanos regressar ao país caribenho, o que causaria impactos econômicos graves. Tudo indica que não há movimentos expressivos de retorno ao país de origem. Até porque, em grande parte, imigrantes estão cada vez mais integrados às comunidades e obtendo notáveis oportunidades de crescimento profissional, conforme as reportagens subsequentes.