Catarinenses encontram oportunidades no país, que é importador de todo tipo de produtos industrializados e quer diminuir dependência da China. O mercado exigente, entretanto, requer muito preparo por parte das empresas - por Leo Laps

Bruno Brandão, diretor de exportações da Círculo S/A - Foto: Divulgação

Tradicional parceiro comercial de Santa Catarina, os Estados Unidos voltaram a ser o principal destino das exportações catarinenses nos meses de julho, agosto e setembro deste ano, superando novamente a China, a exemplo do que ocorrera entre o final do ano passado e o início de 2021. O câmbio favorável às exportações e a retomada da economia americana, impulsionada pela vacinação contra a Covid-19 e a aprovação de um pacote de recuperação econômica de US$ 1 trilhão, estão abrindo oportunidades para vários setores da indústria do Estado, que aumentou as vendas ao país em quase 40% este ano.

Enquanto as exportações para a China são concentradas em commodities como soja e carnes, os americanos consomem uma variedade muito maior de produtos semi-industrializados e industrializados de alto valor agregado. Os Estados Unidos dão sinais de querer diminuir a dependência de fornecedores asiáticos, e nessa nova geografia de negócios Santa Catarina tem condições de se firmar como uma alternativa para o suprimento. “Há uma evidente estratégia americana de frear a velocidade do crescimento industrial chinês. O Brasil pode se beneficiar deste contexto se for capaz de agir pragmaticamente com os dois parceiros para ampliar sua inserção externa”, avalia o professor de Economia da UFSC, Pablo Felipe Bittencourt.

A Círculo S/A, indústria têxtil de Gaspar especializada em fios e linhas de algodão, tem conseguido surfar muito bem essa onda. Até 2019, as exportações atendiam exclusivamente a América Latina. A partir de então, um ousado plano de internacionalização passou a visar outros mercados, como o dos Estados Unidos. “A Círculo exporta há mais de 20 anos, mas o mindset mudou. Passamos por um processo de ganho de escala e entendemos que temos um produto de classe mundial, que impressiona pela alta qualidade”, afirma o diretor de exportações Bruno Brandão.

A pandemia impediu viagens internacionais de funcionários e visitas físicas dos cinco vendedores que, baseados na Flórida, exploram o mercado de lojas de butique de todo o país, mas mesmo assim as vendas subiram. “As pessoas passaram a ficar mais em casa e voltaram a fazer ou quiseram aprender a tricotar, a fazer trabalhos manuais”, analisa Brandão.

Consolidação | Nos Estados Unidos, 2021 foi um ano de consolidação para a Círculo, que se apresenta por lá como ‘A Legendária Empresa de Algodão do Brasil’. “Somos uma empresa centenária, lí­der no Brasil, com 1.800 funcionários e um produto de primeira qualidade. É isso que procuramos transmitir ao consumidor americano”, diz Brandão.

Com um volume de vendas 50% maior em relação ao ano anterior, a expectativa é dobrar este número a cada ano até 2025, e quebrar uma escrita de baixa tradição de exportações têxteis para os EUA – o setor representa apenas 2% das exportações catarinenses ao país.

A empresa aposta em um marketing agressivo, que oferece apps para auxiliar o artesão, conteúdo digital gratuito e ampla atividade nas redes sociais. Menções em revistas como a Vogue e um trabalho meticuloso com influenciadores digitais do país complementam o trabalho de divulgação da marca em solo americano.

Parte do conteúdo digital veiculado nos EUA: Círculo dobra vendas - Foto: Divulgação

A Círculo acaba de lançar uma loja virtual no marketplace da Amazon nos Estados Unidos, e já escolheu a localização para a instalação do primeiro galpão no país: Doral, perto de Miami, na Flórida. A construção deve otimizar os custos de logística e ajudar a tornar ainda mais forte a presença digital da marca nos Estados Unidos.

O mercado americano é um dos mais atrativos do mundo graças ao tamanho, poder de compra e grau de sofisticação. “É um cartão de visitas fantástico: quem vende para os Estados Unidos tem um atestado de qualidade e pode vender para qualquer lugar do mundo”, diz Mario Cezar de Aguiar, presidente da FIESC.

Entretanto, a empresa precisa se preparar muito bem para que a entrada no país seja bem-sucedida, exigindo um planejamento estratégico diferenciado para lidar com questões logísticas, jurídicas e culturais. Maria Teresa Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da FIESC, destaca que o empresário precisa estudar com cuidado e estar bem assessorado, pois há uma série de regras que precisam ser cumpridas à risca, e cada estado tem sua própria legislação e particularidades fiscais e comerciais. Há ainda a competição acirrada com concorrentes de todo o planeta e a necessidade de dar um passo de cada vez. É essencial que se comece trabalhando por regiões ou estados, pensando em nichos, pois cada escolha implica em custos logísticos que precisam ser bem planejados.

“É preciso aprender a lidar com as idiossincrasias de cada lugar, se informando com quem já conhece e observando o comportamento do consumidor”, diz Bustamante, que é coordenadora do Intercomp, programa de internacionalização da FIESC concebido para auxiliar empresas no mercado internacional. Já foram sensibilizadas quase mil indústrias e 2.800 pessoas participaram de seus eventos desde o lançamento, em 2018. O programa contempla a avaliação de maturidade, ferramenta que permite à empresa fazer um diagnóstico sobre o estágio em que se encontra em relação à internacionalização. Cerca de 500 empresas aplicaram a avaliação, a maioria delas pequenas e médias que ainda estão em estágios iniciais do processo.
Não é esse o caso das Empresas Icon, de Criciúma, que têm aumentado cada vez mais o foco no mercado americano. Fundado há quase meio século, o grupo já nasceu com um departamento de exportação, firmando parcerias na Europa logo nos primeiros anos. A primeira fábrica no exterior foi inaugurada em 2012 na Argentina.

Unidade | “Esse processo trouxe benefícios em todos os aspectos, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento de novas expertises”, afirma Elí Fortunato Filho, diretor técnico comercial da Icon. Hoje, as exportações representam 15% do faturamento, com destinos em todas as Américas, Europa e África.

A empresa é dividida em dois braços: a Icon, especializada em matrizes e moldes para cerâmica e concreto, e a Iconmaq, dedicada a máquinas e equipamentos para cerâmica, cimento, leveduras, mineração e agroindústria. Os planos para ampliar a presença em solo americano incluem a instalação de uma unidade fabril no país, o que está sendo estudado pela empresa.

“Para os Estados Unidos exportamos especificamente para o setor de mineração, mas temos convicção da possibilidade de sucesso de um empreendimento no segmento de matrizes e moldes. Eles procuram segurança e exportadores com presença local: ter uma unidade fabril nos Estados Unidos facilitaria as exportações, além de criar um vínculo maior com o país”, diz Fortunato.

Fortunato: unidade produtiva nos EUA facilitará as exportações da Icon - Foto: Divulgação

Móveis | A liderança industrial catarinense nos Estados Unidos é do setor de madeiras e móveis, com quase 55% das exportações. Uma das empresas com sólida presença no país é a Serpil, fábrica de móveis de Pinhalzinho. Ela voltou a exportar há seis anos e hoje envia pelo menos 15 contêineres por mês para fora do Brasil. Cerca de 70% desse volume tem como destino e-commerces nos Estados Unidos e prateleiras de redes americanas como Walmart.

Cristian da Cunha, gerente de importação e exportação, revela que 2021 tem sido um ano de aquecimento nas exportações. “Nosso faturamento nesta área já ultrapassou, no começo de setembro, o de 2020, e a perspectiva é de mais crescimento, agregando novos clientes”, afirma. É um retrato do setor de madeiras e móveis, que até setembro já havia exportado para os Estados Unidos US$ 760 milhões, mais do que todo o valor comercializado no ano de 2020 inteiro.

Passado o período de pânico, a pandemia ajudou a vender mais móveis, tanto para quem queria deixar o lar mais confortável como para quem resolveu se mudar – o mercado imobiliário americano é um dos principais motores da retomada do país, incrementando também a exportação de compensados e outras madeiras para a construção civil. “O principal parceiro deles neste setor segue sendo a Ásia, mas ganhamos competitividade na logística. O preço aumentou muito em todo o mundo, mas estamos conseguindo fazer fretes por metade ou quase um terço do valor aplicado pelos asiáticos”, explica Cristian.

Made in SC
Produtos mais exportados para os EUA (jan-set 2021)
Produto US$ milhões
Madeira e móveis 760,5
Autopeças 162,8
Equipamentos elétricos 106,1
Máquinas e equipamentos 88,4
Alimentos e bebidas 57,4

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