Nascido na cidade de Puerto Ordaz, no nordeste da Venezuela, Christiam Milano cursava o segundo semestre de faculdade em seu país natal quando percebeu com tristeza: “Este país não tem futuro”. Foi quando decidiu, aos 18 anos, emigrar. Filho de pais separados, foi viver com a mãe em Roraima. Sem encontrar emprego lá, foi para Manaus, onde passou sete meses vivendo de favor com uma família venezuelana e recebendo, sem carteira, R$ 30 por dia de trabalho em um mercado da cidade. Com o dinheiro, ele ajudava os anfitriões a encher a despensa. “Diante de outras histórias que ouvi de meus conterrâneos, não posso dizer que passei muito perrengue. Minha história é quase da Disney”, brinca. “E eu não queria falhar. Estava sobrevivendo e gostando disso”, garante.
Um dia, Christiam recebeu um telefonema do pai, que havia emigrado para o Sul do Brasil. “Perguntei como era a cidade. Ele disse que era calma, que tinha anúncio de emprego até na rádio, que estava bem. Eu pensei: como assim, tem emprego sobrando?”, conta. A cidade era Blumenau, e o pai resolveu ajudar o filho: pagou uma passagem de avião para Florianópolis e, em outubro de 2019, Christiam chegava exausto a Santa Catarina.
Duas semanas depois já estava empregado como expedidor na Blumenau Iluminação, indústria que hoje tem 250 colaboradores e um faturamento anual de R$ 400 milhões. Era o primeiro venezuelano contratado pela empresa e, no dia da entrevista, não sabia como o currículo havia chegado até lá – o pai havia, mais uma vez, dado um empurrão para o filho. “Eu não fazia ideia do que era a vaga, e estranhei a recepção muito bonita, o cafezinho oferecido pela recepcionista. Achei que estava no lugar errado”, recorda. O jovem, no entanto, surpreendeu o entrevistador tanto nas provas de matemática e lógica quanto nas respostas nas dinâmicas, e recebeu o e-mail com o contrato de trabalho ainda caminhando, a pé, para casa. “Então meu pai falou: ‘Agora você é responsável por abrir ou fechar as portas para o próximo venezuelano na empresa’”, conta.
Christiam subiu de cargo três vezes e atua como vendedor externo enquanto cursa faculdade de Comércio Exterior. Hoje, com ele, os venezuelanos são 13 dos 15 estrangeiros trabalhando na Blumenau Iluminação – há ainda um peruano e um haitiano. Desde 2022 os contratos da empresa passaram a ser oferecidos, juramentados, em espanhol e francês. Neste ano, o refeitório estreou uma área de temperos dos países e regiões dos colaboradores e passou a oferecer pratos típicos, eventualmente. A empresa também cuida com assiduidade da documentação de cada estrangeiro junto à Polícia Federal.
“Contratar imigrantes muitas vezes passa como ação social, mas é para o resultado melhorar, é estratégico. A empresa entende que a diversidade faz bem”, diz a gerente de Recursos Humanos Michelle Szpoganicz. “Não temos tratamento diferenciado, mas somos muito acolhedores. Precisamos deles para o crescimento da empresa”, diz o presidente Renato Medeiros.
Christiam, que um dia sonha investir em um negócio em seu país natal, se tornou referência entre os conterrâneos na empresa, que o enxergam como um exemplo de superação ao conseguir sair dos postos de entrada na indústria para ocupar posições destacadas. “O grande problema é que muita gente, por ser imigrante, entende que tem que chegar como chão de fábrica e morrer como chão de fábrica, mas as oportunidades estão aí”, atesta.