Crescimento da população de pets atrai gigantes do setor de alimentos, mas ainda oferece espaço para pequenos empreendedores em outros segmentos. - Por Maurício Oliveira

Glauco, a esposa Mari e os pets Maple e Vick com as roupas da marca Mascote - Foto: Simone Zanotto / Divulgação Mascote

Santa Catarina tem participado ativamente de um dos mercados que mais crescem no País: o dos pets, que muita gente ainda conhece como “animais de estimação”. De acordo com o Instituto Pet Brasil (IPB), que acompanha todos os segmentos deste mercado, o faturamento nacional deverá chegar a R$ 46,5 bilhões em 2021, alta de 14% em relação ao ano anterior. A pandemia contribuiu para essa expansão, ao obrigar as famílias a ficarem mais tempo em casa e impulsioná-las a buscar motivos de alegria, principalmente para as crianças, em meio ao período de incerteza.

Um dos investimentos mais relevantes do setor no País está sendo feito em Santa Catarina pelo grupo Nestlé Purina – o projeto de uma nova fábrica de ração para cães e gatos em Vargeão, cidade com apenas 3.500 habitantes localizada na região Oeste do Estado. Anunciada em junho, com custo projetado de R$ 1 bilhão, a unidade abastecerá o mercado nacional e terá parte da produção destinada às exportações para a Europa, Estados Unidos e América Latina. A previsão inicial é de contratação de 200 profissionais nos próximos anos e 1.800 terceiros durante as etapas de instalação.

“A nova fábrica terá um importante impacto para o parque agroindustrial de Santa Catarina, tanto na demanda por proteína animal quanto no consumo de grãos, insumos essenciais para o setor de petfood. Pela complementaridade, vai gerar valor para as cadeias produtivas da região com o aumento da demanda por insumos da agroindústria existente”, declarou à Indústria & Competitividade o CEO da Nestlé Purina no Brasil, Marcel de Barros. “Santa Catarina é uma região estratégica para o crescimento da marca e para o posicionamento do Brasil como uma plataforma reconhecida de exportação de petfood.”

Com uma fábrica já em operação em Ribeirão Preto (SP) voltada à produção de alimentos para pets, a Nestlé Purina vem aumentando seu faturamento no País sempre acima de dois dígitos nos últimos anos. A empresa anunciou que a planta catarinense seguirá os princípios mais avançados de sustentabilidade, com a utilização de fontes renováveis de energia, reúso de água e a política de zero destinação a aterros sanitários. O parque industrial terá a estrutura dimensionada para contemplar outras fases de ampliação e instalação de mais linhas de produção de alimentos úmidos, secos e outras tecnologias da indústria de petfood.

A produção de rações para pets é especialmente atraente para as grandes indústrias de alimentos porque permite o aproveitamento de resíduos industriais, como farinhas, gorduras e proteínas – processo alinhado aos conceitos de economia circular e às metas de sustentabilidade estabelecidas pelas corporações em seus projetos de ESG (Ambiental, Social e Governança).

Esses fatores impulsionaram a BRF – proprietária das marcas Perdigão e Sadia, ambas com raízes catarinenses – a entrar neste mercado há quatro anos, com as rações Balance. O grupo criou uma subsidiária específica, a BRF Pet, que já tem cinco unidades industriais (nenhuma em Santa Catarina) e este ano comprou duas outras fabricantes de ração, a Mogiana e a Hercosul, chegando assim a uma fatia de 10% do segmento nacional de rações.

A alimentação é o maior segmento do mercado pet, correspondente a 52,9% dos gastos dos donos com seus animais. A cada dia, os brasileiros gastam, em média, R$ 67,4 milhões com ração e petiscos. De acordo com a consultoria Bain & Company, o País já é o segundo com maior população per capita de pets, atrás apenas dos Estados Unidos. Estima-se a existência de 144,3 milhões de cães, gatos, aves, peixes, répteis e pequenos mamíferos vivendo nos domicílios brasileiros, o que equivale à média de sete animais para cada grupo de dez brasileiros. Considerando-se o tamanho médio de 3,3 pessoas por família, identificado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chega-se à média de 2,2 animais por família.

Barros: R$ 1 bilhão em nova fábrica de rações da Nestlé Purina - Foto: Divulgação

Hotelzinho | Os cães ainda são a preferência nacional, representando 38,7% dos animais domésticos, mas os gatos vêm ganhando espaço a cada ano e já chegam a 17,7%, provavelmente por se adaptarem melhor a espaços pequenos e não exigirem os passeios diários que complicam a vida de muitas pessoas nos grandes centros. Lógica semelhante motiva a preferência de parte significativa dos proprietários por aves (28,2%) e peixes (13,8%).

Quando estão encantadas com a ideia de ter um pet, as pessoas tendem a subestimar os custos a longo prazo. Além de alimentação, brinquedos, tapetes higiênicos, banhos, tosas, vacinas, hotelzinho quando a família viaja, coleiras antipulgas e anticarrapatos, há os problemas de saúde – que costumam variar de raça para raça, mas muitas vezes exigem cirurgias e internações, com custos compatíveis com os tratamentos para humanos.

O interesse demonstrado por corporações gigantescas no mercado de alimentação para pets não impede que pequenos empreendedores surfem essa mesma onda, explorando outros segmentos. É o caso da Mascote, confecção especializada em roupas e camas para pets, localizada em Modelo, também no Oeste catarinense. A empresa foi fundada há 12 anos, quando Glauco Paulo Bugs decidiu deixar a direção do negócio da família – fabricação de portas de madeira – para empreender por conta própria.

Pensando em um negócio que realmente gostasse de ter, ele buscou inspiração na cadelinha Vanilla, cocker spaniel que havia sido sua companheira nos tempos em que deixara a cidade natal, Pinhalzinho, bem ao lado de Modelo, para estudar Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. “Lembrei que, quando eu queria comprar roupinhas para ela, não conseguia encontrar algo que combinasse qualidade, bom gosto e preço ok”, conta o empreendedor.

Com o projeto em mente, ele se juntou a dois sócios para abrir a Mascote. Hoje, a produção já chegou à média de 40 mil peças por mês, sendo 80% para cães e 20% para gatos. A projeção para 2021 é mais do que dobrar o faturamento de 2020 – que, por sua vez, já havia superado em mais de 100% a receita do ano anterior.

No início, o segmento era totalmente novo para Glauco, mas um dos sócios e a esposa desse sócio haviam trabalhado numa fábrica de ursos de pelúcia e tinham alguma experiência com moldes e tecidos. Com muita persistência, o negócio se estabilizou gradualmente. Uma das grandes vantagens é a venda garantida, pois a empresa só produz sob encomenda já paga. A Mascote apostou num modelo de relacionamento não com o público final, mas com pet shops. O lojista interessado entra no site da Mascote e escolhe os modelos desejados, com valor mínimo de R$ 500 para o pedido. Só aí a Mascote parte para a produção.

Um dos diferenciais da marca foi apostar não apenas nas roupas para esquentar os bichinhos, mas também no mercado fashion, com a proposta de enfeitá-los. Com isso, o público em potencial deixou de estar concentrado nos estados do Sul. “Temos cerca de 2 mil estabelecimentos comerciais que compram regularmente da gente, espalhados por todo o País. A maior parte é de pequeno porte”, conta Glauco.

Barracão | O modelo do negócio evita a dependência das grandes redes varejistas do setor, que tendem a espremer as margens dos fornecedores. A recomendação aos clientes é que coloquem os produtos à venda pelo dobro do preço que pagaram para a Mascote.

Hoje, são 26 funcionários e 60 faccionistas trabalhando para a marca em diversas cidades da região. O barracão inicial, com 40 metros quadrados, precisou ser trocado por um de 150, depois por um de 300 e, por fim, por um de 700 metros quadrados. A mais recente ampliação envolveu um episódio repleto de significado para Glauco.

“Nesse período em que a Mascote vinha crescendo, meu pai faleceu e a família decidiu encerrar as atividades da fábrica de portas e vender a estrutura física. O mundo deu voltas e a Mascote acabou comprando o galpão que pertencia à empresa da minha família e já estava com outro proprietário. Coloquei minha mesa bem no lugar em que meu pai tinha a mesa dele”, conta o empreendedor.

Mercado apetitoso
Participação de cada segmento no faturamento total do setor (%)
Ração 52,9
Venda de animais 11,4
Produtos veterinários 11,4
Serviços gerais 9,3
Serviços veterinários 9,3
Produtos de higiene e bem-estar 5,7
Diversidade Pet
Participação de cada animal na população brasileira (%)
Cães 38,7
Aves 28,1
Gatos 17,7
Peixes 13,8
Répteis e pequenos mamíferos 1,7

Fonte: IPB

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