Formação de profissionais para a indústria 4.0 mira em desenvolver competências para a conectividade das máquinas e garantir sobrevida a parque fabril com idade média de 17 anos

Alex Marson, CEO do grupo Rudolph: parque fabril revitalizado por meio da conectividade - Foto: Divulgação

A Rudolph Usinados, de Tim­bó, indústria que fornece peças a sistemistas e montadoras de veículos, conta com um parque fabril de cerca de 120 máquinas. Diferentemente do que seria necessário em outros tempos, a modernização da fábrica não passa necessariamente pela aquisição de novos – e caros – equipamentos. Tecnologias associadas ao conceito de indústria 4.0 estão dando conta do recado e, na prática, habilitando o ambiente fabril a receber máquinas de última geração, que não teriam como desenvolver seu potencial em meio a equipamentos desatualizados.

O chamado smart retrofit se traduz por ganhos consideráveis de produtividade com investimento relativamente baixo. No caso da Rudolph, a maior parte dos recursos de cerca de R$ 3 milhões necessários para a transformação digital foi obtida junto a uma linha da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), no contexto de um programa federal (Rota 2030) para modernização da indústria automotiva.

Com base em sensorização, coleta, transmissão e tratamento de dados, as máquinas estão interconectadas a um sistema de gestão de manufatura. Apontamentos manuais foram abolidos, e tudo o que é preciso saber sobre o bom ou o mau funcionamento dos equipamentos é obtido em tempo real. Todo o ciclo de produção passa a ser planejado com apoio de sistema de IA (Inteligência Artificial), desde o recebimento de matéria-prima até a entrega do produto. Em contextos como esse, não são apenas as velhas máquinas que ganham nova personalidade. “É preciso mudar o mindset dos colaboradores para o digital”, afirma Alex Marson, CEO do grupo Rudolph, que tem 480 funcionários.

Tecnologias para a transformação digital como as aplicadas na Rudolph – ao menos parte delas – estão ao alcance de qualquer indústria. Problema maior é encontrar pessoas capacitadas a obter resultados concretos com elas. É esta lacuna que o SENAI/SC está preenchendo ao articular um amplo programa de educação profissional voltado à indústria 4.0. Ele começou em escala piloto em 2020 e está sendo replicado a todas as regiões do Estado a partir do uso de kits de conectividade que passam a ser empregados pelos alunos para conectar ativos antigos à internet e compreender o valor dos dados.

“Identificamos que o grande desafio das empresas, no momento, em relação à indústria 4.0, é o da conectividade. Ela permitirá que seus ativos existentes ganhem sobrevida”, conta Fabrizio Machado Pereira, diretor regional do SENAI/SC, ressaltando que a idade média do parque fabril brasileiro é de 17 anos. As tecnologias abrem possibilidades para se obter muito mais qualidade, produtividade e previsibilidade de um parque fabril.

Ações convergentes

Principais iniciativas do programa de educação 4.0 do SENAI/SC

  • Situação de Aprendizagem de Referência em IoT: alunos aprendem a instalar sensores em máquinas antigas e conectá-los em plataforma de monitoramento em nuvem
  • GTs 4.0: grupos de trabalho com professores especialistas atuam focados em tecnologias habilitadoras para a manufatura avançada
  • Travessia Indústria 4.0: programa de nivelamento transversal para professores e alunos de todos os cursos
  • Criação de novos cursos como técnico em IoT e desenvolvimento de programas de pós-graduação voltados a demandas específicas de indústrias
  • Instalação de 30 laboratórios didáticos no Estado, que simulam situações reais de indústria 4.0, com investimentos de R$ 25 milhões
  • Parceria com Industrie 4.0 Maturity Center, da Alemanha, especializado no desenvolvimento de projetos de transformação digital para a indústria

Nuvem | É nessa linha que uma primeira leva de 400 alunos do curso técnico de eletromecânica do SENAI está sendo formada com conhecimentos de IoT (internet das coisas) para a manutenção de máquinas. O contexto é uma Situação de Aprendizagem de Referência em Internet das Coisas, criada em parceria com os Institutos SENAI de Inovação de Santa Catarina. Situação de aprendizagem é definida como um conjunto de ações que favorece um conhecimento mais significativo por incluir situações práticas, estudos de caso e pesquisa aplicada, por exemplo.

Na prática, os alunos aprendem a realizar o sensoriamento de máquinas antigas, como tornos, fresadoras ou compressores, e também a conectar os dispositivos a uma plataforma de monitoramento na nuvem. Com conhecimentos como esses os técnicos em eletromecânica, que muitas vezes atuam na operação e manutenção de máquinas, poderão agregar valor ao seu trabalho ao propor, por exemplo, um planejamento da manutenção orientado a dados, a partir do sensoriamento das máquinas. “Nas fábricas, o responsável pela manutenção é quase sempre chamado às pressas para apagar incêndios”, diz Alex Kuhnen, coordenador de educação 4.0 do SENAI/SC. “Mas, ao conhecer o poder das novas tecnologias, ele poderá se tornar uma fonte de soluções para a empresa.”

A estratégia do SENAI é inicialmente “embutir” as disciplinas que envolvem a indústria 4.0 em cursos técnicos já existentes, até mesmo porque não há ainda, por parte dos jovens, a demanda por cursos específicos, devido à falta de conhecimento do assunto. Em 2022 a situação de aprendizagem em IoT será estendida para cursos técnicos como o de eletrotécnica, automação e mecatrônica. Para suportar a expansão, 46 professores foram capacitados e 125 kits de conectividade foram adquiridos para equipar escolas em todo o Estado. Dessa forma, a partir do ano que vem, a cada semestre milhares de novos técnicos habilitados a digitalizar fábricas serão formados.

Em paralelo, cursos mais específicos são formatados, a exemplo do técnico em IoT e técnico em cibersistemas de automação, que estão com as primeiras turmas abertas, e o curso em manutenção 4.0, que está em fase de estudos. Na pós-graduação, duas turmas de MBI (master business innovation) já formaram 50 executivos de diversas indústrias do Estado, e há ainda a modalidade de cursos in company. Este é o caso do MBI em Fundição 4.0 estruturado para atender a Tupy, de Joinville, iniciado em agosto. Participam 50 colaboradores da empresa, que deverão se formar em 2023.

O MBI faz parte de uma trilha de aprendizagem que contempla também a Escola de Fundição Tupy, um programa interno de capacitação profissional iniciado há três anos. “A adesão a novas tecnologias só traz real geração de valor quando há o envolvimento das pessoas. São elas que têm capacidade de aprender, gerar e compartilhar conhecimento. E isso leva à transformação”, declarou Fernando de Rizzo, CEO da Tupy, no lançamento do MBI.

A empresa de Joinville também foi parceira do SENAI na realização do primeiro Grand Prix 4.0, nova versão da competição de inovação voltada a alunos de aprendizagem industrial que são desafiados a desenvolver soluções para problemas reais da indústria. A Tupy propôs o tema Gestão Visual Andon 4.0, em referência ao modelo de gestão visual com origem no Japão, que em sua versão “analógica” consiste na colocação de lâmpadas coloridas em máquinas, para que cores diferentes identifiquem o status de cada uma delas. Realizada em setembro, a competição envolveu 825 alunos de 34 escolas do SENAI/SC.

Grand Prix de Inovação: versão 4.0 deste ano mobilizou mais de 800 estudantes - Foto: Arquivo SENAI/SC

Nivelamento | O Grand Prix foi realizado em conjunto com outro programa, o Travessia 4.0, que oferece nivelamento transversal para professores e alunos de todas as áreas por meio de cursos e lives quinzenais sobre tecnologias associadas à indústria 4.0 e a demonstração de soluções desenvolvidas pelos Institutos de Inovação. Outra ação, focada na obtenção do domínio de tecnologias voltadas à resolução de problemas de indústria 4.0, é a criação de grupos de trabalho com professores especialistas (GTs 4.0). “Cada grupo está focado em uma tecnologia habilitadora da indústria 4.0: IoT e sistemas ciberfísicos, que fazem as máquinas se tornarem digitais, e também a Inteligência Artificial”, diz Alex Kuhnen.

Tem mais: em 2022 e 2023 serão implantados 30 laboratórios 4.0 em todo o Estado, com investimentos totais de R$ 25 milhões. São plantas didáticas que simulam processos produtivos reais, incluindo tecnologias como a de robôs colaborativos e integração de sistemas. Trata-se de um programa do SENAI Nacional, mas é em Santa Catarina que ele terá maior abrangência de investimentos e alcance didático, num indicativo de que o Estado assume a liderança na formação profissional capaz de realizar a transformação digital da indústria.

Questão de maturidade

Em parceria com empresa alemã, SENAI oferece avaliação e consultoria para transformação digital

O projeto de transformação digital de uma indústria pode facilmente ficar pelo caminho se não for bem conduzido. Relatório da consultoria McKinsey publicado este ano mostrou que 74% das indústrias pesquisadas estavam estagnadas no chamado “purgatório de pilotos”. Dentre os motivos do fracasso estão a falta de método e a baixa maturidade das empresas.

É para atacar este problema que o SENAI/SC passa a oferecer avaliação da maturidade em indústria 4.0 e elaboração de roteiros de transformação digital, em parceria com a empresa alemã Industrie 4.0 Maturity Center (i4.0MC), organização indicada pela Academia Nacional de Ciência e Engenharia (Acatech) para ampliar o índice de maturidade da indústria brasileira.

A i4.0MC tem no portfólio mais de 150 avaliações de maturidade e desenvolvimento de roteiros de transformação digital para indústrias ao redor do mundo. Juntamente com o SENAI vai oferecer, além da avaliação, serviços de elaboração de estratégias, identificação da estrutura organizacional e operacional necessária e cálculo do retorno do investimento em digitalização. “A parceria pode avançar para campos como educação profissional, consultoria e compartilhamento de conhecimento”, destaca Fabrizio Machado Pereira, diretor regional do SENAI/SC.

Questão de maturidade

Em parceria com empresa alemã, SENAI oferece avaliação e consultoria para transformação digital

O projeto de transformação digital de uma indústria pode facilmente ficar pelo caminho se não for bem conduzido. Relatório da consultoria McKinsey publicado este ano mostrou que 74% das indústrias pesquisadas estavam estagnadas no chamado “purgatório de pilotos”. Dentre os motivos do fracasso estão a falta de método e a baixa maturidade das empresas.

É para atacar este problema que o SENAI/SC passa a oferecer avaliação da maturidade em indústria 4.0 e elaboração de roteiros de transformação digital, em parceria com a empresa alemã Industrie 4.0 Maturity Center (i4.0MC), organização indicada pela Academia Nacional de Ciência e Engenharia (Acatech) para ampliar o índice de maturidade da indústria brasileira.

A i4.0MC tem no portfólio mais de 150 avaliações de maturidade e desenvolvimento de roteiros de transformação digital para indústrias ao redor do mundo. Juntamente com o SENAI vai oferecer, além da avaliação, serviços de elaboração de estratégias, identificação da estrutura organizacional e operacional necessária e cálculo do retorno do investimento em digitalização. “A parceria pode avançar para campos como educação profissional, consultoria e compartilhamento de conhecimento”, destaca Fabrizio Machado Pereira, diretor regional do SENAI/SC.

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