Vodca, cerveja e vinho catarinense se destacam em premiações internacionais, consolidando o Estado como referência na produção de bebidas de alto padrão

A gastronomia catarinense é conhecida há muito tempo pela farta variedade, efeito direto da colonização do Estado por diferentes povos da Europa. Recentemente, Santa Catarina passou a galgar uma fama mais específica no setor, inclusive fora do País, por meio de uma série de premiações obtidas por tipos de bebidas alcoólicas tão diferentes como o vinho, a cerveja artesanal e até mesmo a vodca. Ao conquistar este reconhecimento internacional, empreendimentos como a cervejaria Lohn Bier, no Sul do Estado, a Vinícola Abreu Garcia, na Serra Catarinense, e a destilaria Kalvelage, no Vale do Itajaí, cativam o paladar do consumidor mais desconfiado – aquele acostumado a acreditar que, talvez com exceção da cachaça, tudo o que vier do exterior tem maior qualidade. E também mostram uma Santa Catarina cada vez mais consolidada como polo produtor de bebidas de alto padrão.

A cerveja artesanal já se beneficia de portas escancaradas: eventos como o Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau, e histórias de sucesso como a da Cervejaria Eisenbahn, fundada na mesma cidade em 2002, abriram caminho para que o produto nacional fosse visto hoje com o devido reconhecimento. O vinho, por sua vez, ganha terreno aos poucos, ano após ano. Já uma vodca produzida no Brasil precisa de um certo esforço de marketing e muito comprometimento para provar que é de fato um produto diferenciado. “Tínhamos desde o começo uma missão muito clara: quem vai acreditar em uma vodca brasileira ultrapremium? Até então, não havia referência: todas as concorrentes seguem um conceito standard. Queríamos brigar com os de fora, com a Cîroc, com a Grey Goose, com uma vodca 100% cereais”, explica Maurício Kalvelage, gestor comercial e sócio-proprietário da Bebidas Kalmae.

A melhor estratégia foi conquistar, logo no segundo ano de existência da empresa, em 2014, duas medalhas de prata no San Francisco Spirits Competition e no Hong Kong International Wine & Spirits, respeitados concursos internacionais de bebidas alcoólicas. No ano seguinte, a Kalvelage saiu da Costa Oeste dos Estados Unidos com a medalha de ouro – a única vodca da América Latina a obter esse feito. Em 2018 a grande conquista foi a medalha de ouro em Hong Kong. “Esse tipo de premiação quebra a barreira. O consumidor passa a pensar diferente: ‘Deve ser boa mesmo, vou provar’”, complementa. 

A Kalvelage surgiu de um projeto de aposentadoria dos irmãos Maurício e Marcos Kalvelage: eles aspiravam produzir sua própria vodca, com mais qualidade do que aquela ofertada pelas marcas nacionais. Quando a empresa de mármore e granito fundada pelo pai deles passou a perder faturamento em 2008 devido à crise econômica nos Estados Unidos – seu maior cliente –, os dois resolveram adiantar os planos. Passaram os quatro anos seguintes estudando e aprimorando experimentos feitos em uma minidestilaria montada na casa de Maurício até fundar a destilaria em 2013.
Construída para produzir 170 mil litros de bebidas por mês, a fábrica localizada no pequeno município de Botuverá trabalha hoje com apenas 10% da capacidade, fabricando três tipos de vodca e gim.

As vendas crescem a cada ano, dentro de um planejamento que deve incluir, até 2025, mais cinco produtos (inclusive uísque que já envelhece em barris) e exportação para países como China e Estados Unidos. “Hoje não temos rejeição. Conquistamos um renome e, agora, precisamos garantir que todos nossos produtos sejam de alto padrão”, afirma Kalvelage.

Internet

Mesmo tendo conquistado a confiança do consumidor, cervejeiros artesanais do Brasil também procuram aproveitar premiações nacionais e internacionais para fazer marketing. “Pequenas empresas não têm dinheiro para veicular propaganda na televisão ou revistas de distribuição nacional. Na internet é tudo muito democrático. Em 2015, quando ganhamos nossas primeiras duas modestas medalhas no Festival Brasileiro da Cerveja, percebemos que ocorreu de imediato um marketing espontâneo, na mídia e nas redes sociais. Ter uma cerveja com uma premiação – seja ouro, prata ou bronze – é um desígnio de qualidade e uma excelente oportunidade de divulgar uma cervejaria”, atesta Richard Westphal Brighenti, mestre-cervejeiro da Lohn Bier, de Lauro Müller.

A Lohn Bier produz a cerveja artesanal mais premiada do País em 2017 e 2018, a Carvoeira (uma homenagem à indústria do carvão no município). Em 2017 destacou-se também com a Catharina Sour Uva Goethe, que foi considerada a melhor cerveja do mundo na categoria Flavored Fruit & Vegetable no World Beer Awards, em Londres. A empresa foi fundada em 2014 com investimentos do sogro de Brighenti, Francisco Felisbino. A ideia de montar uma cervejaria venceu outros seis planos de negócios em que a família estudava investir. “A cerveja era um hobby para mim desde 2009, e ter uma cervejaria era uma ideia romântica até percebermos que era um negócio sério, que vinha crescendo. Decidimos refazer o plano de negócios, com mais coragem, e hoje conseguimos nos destacar em um mercado muito concorrido”, avalia o mestre-cervejeiro.

Em 2018, a fábrica com 55 funcionários atingiu a marca de 100 mil litros de cerveja por mês, e desde a fundação nunca cresceu menos de 40% em relação ao ano anterior. Tendo a Carvoeira como vedete, a Lohn exporta uma pequena mas orgulhosa quantidade para países como Estados Unidos, Portugal e Paraguai, e sonda novos destinos na América Latina e na Europa.

Altitude

A Abreu Garcia, vinícola localizada em Campo Belo do Sul, na fronteira com o Rio Grande do Sul, era um sonho antigo do médico oftalmologista Ernani Garcia. Filho de um comerciante da Grande Florianópolis, ele sempre nutriu o desejo de trabalhar no campo. Na virada do milênio, encontrou uma propriedade na Serra Catarinense e começou a criar gado Hereford. As primeiras parreiras foram plantadas em 2006. Hoje, a vinícola colhe sete tipos de uva de origem francesa e uma italiana. “Sempre pensei em trabalhar com agronegócio. A base de tudo começou com a pecuária. E com a onda dos vinhos de altitude que vinha surgindo em Santa Catarina percebemos que estávamos em um lugar perfeito para a vitivinicultura”, lembra Garcia.

Localizada em uma altitude intermediária, a 950 metros de altitude, a Fazenda Campo Belo conta com muita insolação, clima seco, sem influência do mar, e uma grande diferença de temperaturas entre dia e noite. “Aqui conseguimos um amadurecimento completo das uvas. Os taninos são mais redondos e delicados, não precisamos de tantos anos de guarda para o vinho ficar pronto. E como o vinhedo mais distante fica a menos de um quilômetro da vinícola, preservamos a qualidade da maioria dos frutos”, analisa um dos enólogos da Abreu Garcia, Leonardo Ferrari.

O foco em produzir pouca quantidade com alta qualidade obteve reconhecimento máximo em 2018, quando a Abreu Garcia recebeu três medalhas de ouro no Concurso Mundial de Bruxelas, na Bélgica, com um Malbec, um Chardonnay e um Sauvignon Blanc. Mas o fundador da vinícola pondera que o vinho brasileiro de qualidade ainda está longe do reconhecimento merecido dentro do mercado interno. “O consumidor brasileiro até tem acreditado mais no vinho nacional, mas ele precisa de mais oportunidades para prová-lo. Para isso, algo essencial é torná-lo mais acessível – daí a nossa luta para diminuir a carga tributária do nosso produto”, considera Garcia.

Se as vinícolas costumam se localizar em ambientes rurais para se beneficiar do clima, o mesmo não é mais necessário para uma cervejaria moderna, que conta com tecnologia para deixar a água usada na fabricação com as características minerais que desejar. Mas a Lohn Bier aproveita sua localização, ao pé da Serra do Rio do Rastro, para puxar água quase perfeita para as receitas do mestre-cervejeiro de um bolsão superficial que fica a menos de 200 metros da fábrica. “Temos uma água muito boa, precisamos fazer poucos ajustes nela. E como usamos cerca de oito litros de água para cada litro de cerveja produzida, é um insumo importante, que impacta nos custos e na qualidade da nossa cerveja”, explica Brighenti. A localização é tão importante que a Serra está ali, estampada no logotipo da cervejaria. “O único problema é a mão de obra, que precisa vir de fora ou ser desenvolvida pela própria empresa”, afirma.

pH neutro

Com menos de dez funcionários, a Kalvelage não sofre tanto com esta questão. Inclusive, só entra na fábrica quem realmente precisa. “Passamos quatro anos pesquisando grandes empresas do ramo e criamos equipamentos e uma linha de produção próprios, que podem ser copiados. Há uma tecnologia própria implantada, por isso o sigilo”, revela Maurício. A localização, no entanto, é essencial. “A água de Botuverá tem um pH ideal para nossos produtos. Uma cervejaria consegue usar água da rede e até mascarar defeitos com o malte e o lúpulo. Mas a vodca é uma bebida neutra e muito limpa, então não pode ter resíduos. Só a poluição do ar já prejudicaria muito sua qualidade”, explica o fundador da destilaria.

Os três empreendimentos também aproveitam a grife Santa Catarina para atestar a qualidade de seus produtos e movimentar o turismo. Em Lauro Müller, a Lohn Bier tem um pub anexo à fábrica, à beira da SC-390, rodovia famosa pelas curvas que descem a Serra do Rio do Rastro. Já a Kalvelage, diante do segredo de sua fábrica em Botuverá, prepara-se para abrir no Centro de Blumenau uma loja conceito, onde os visitantes poderão conhecer melhor a marca e comprar produtos exclusivos. A Abreu Garcia se vale de seus 10 hectares rurais para promover até casamentos e batizados, além de eventos gastronômicos e degustações ao ar livre. Participa também da Vindima de Altitude de Santa Catarina, que em 2019 reuniu 14 vinícolas da Serra Catarinense em um roteiro com visitações guiadas e harmonizações especiais. “Nosso estado tem um grande reconhecimento nacional: o brasileiro sabe que, quando algo vem daqui, é bom. É um fator que valoriza nosso produto”, analisa Ernani Garcia.

Por Leo Laps
 

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