Cresce o uso de robôs na indústria para automatizar tarefas repetitivas e perigosas ou para dividir funções com trabalhadores de carne e osso

Os robôs chegaram de vez à indústria catarinense. E quem ainda pensa se tratar de um investimento muito alto, ao alcance apenas de grandes empresas, pode ter uma surpresa positiva ao se informar melhor sobre o assunto. Hoje já é possível até alugar equipamentos desse tipo, serviço oferecido pela Pollux, fundada há 22 anos em Joinville com o propósito de tornar a indústria mais competitiva pela adoção de tecnologias avançadas de automação. “No começo, na década de 1990, os robôs ainda pareciam uma realidade distante. Agora estamos vivendo aquele futuro imaginado”, entusiasma-se o CEO José Rizzo Hahn Filho, fundador da empresa, que hoje tem mais seis sócios e se destaca nacionalmente no setor de robótica – já são mais de mil projetos implantados, incluindo 300 robôs.
 
No começo, os trabalhos da Pollux eram concentrados em tarefas mais específicas, como visão artificial para inspeção de qualidade de produtos. Depois dos primeiros cinco anos, a empresa passou a desenvolver linhas de montagem avançadas, especialmente para o setor automotivo – 75% dos veículos produzidos no País hoje carregam peças e componentes que passaram pelos equipamentos da fabricante catarinense. Na medida em que o uso de robôs se expandiu, passou a atingir outros setores da indústria além do automotivo – especialmente o metalmecânico e o alimentício. As aplicações se diversificaram e chegaram a processos como carga e descarga de máquinas, análises de laboratório, testes de vida útil de produto, encaixotamento, aplicação de adesivo, paletização, solda, polimento, aparafusamento, linhas de envase, montagem, prensa e estamparia, dentre várias outras.
 
Com essa diversificação, São Paulo deixou de ter preponderância absoluta como mercado para robôs no Brasil. Clientes de outros estados, incluindo Santa Catarina, passaram a aparecer com maior frequência na lista de clientes da Pollux, que soma hoje 200 funcionários. E a expectativa é de grande impulso na próxima década por conta da adoção dos princípios da indústria 4.0, a quarta revolução industrial, e da disseminação da chamada “internet das coisas”, caracterizada pela conexão permanente à rede de objetos físicos, como máquinas, automóveis, prédios e infraestrutura em geral, o que permite um processo permanente de coleta, interpretação e transmissão de dados.

                              381 mil unidades de robôs industriais foram vendidas no mundo em 2018



Aluguel

A Pollux passou a apostar nos últimos dois anos no conceito de “robô como serviço” – nele se encaixa a ideia do aluguel, cujo contrato engloba o fornecimento de todos os serviços necessários para desenvolvimento do projeto, manutenção e orientações de uso. O processo de locação de um robô começa com o mapeamento das oportunidades de instalação do equipamento no cliente e apresentação da análise da viabilidade, baseada na projeção de redução de custos. Somando-se atributos como precisão (melhor consistência no resultado de tarefas repetitivas), alta produtividade (podem trabalhar 24 horas por dia, sem pausa) e eliminação de riscos de segurança e ergonomia (em postos de trabalho repetitivos, perigosos ou insalubres) às economias com salários e benefícios dos funcionários, o ganho proporcionado por um robô pode chegar, dependendo das circunstâncias, a R$ 200 mil por ano. 

Uma vez fechado o contrato de aluguel, que costuma ter duração definida entre dois e cinco anos, a Pollux desenvolve a engenharia. A empresa responsabiliza-se, a seguir, pela instalação e suporte ao longo do período de vigência do contrato. “A grande vantagem do aluguel é evitar o investimento inicial na compra de um robô. O custo vai sendo diluído ao mesmo tempo que o equipamento contribui para o lucro da empresa”, afirma Rizzo.

Uma das primeiras clientes da Pollux no sistema de aluguel foi a Docol Metais Sanitários, também de Joinville. A tradicional empresa, com mais de seis décadas de existência, já havia identificado a possibilidade de substituir algumas funções por robôs. Ao buscar informações sobre as alternativas do mercado, chegou à Pollux e se decidiu pela locação de um equipamento para operar um torno mecânico no qual é realizada a usinagem de diferentes tipos de tubos. “A ideia era fazer um teste, ter uma primeira experiência, e para esse objetivo a opção do aluguel é perfeita”, lembra o coordenador de produção e processos da Docol, Fábio José Rausis. Até então, havia um operador da máquina para cada um dos três turnos, com a atividade extremamente repetitiva de colocar e logo em seguida retirar as peças do torno, uma a uma. Agora, o robô se encarrega da tarefa, cabendo ao operador de uma máquina próxima apenas a missão de definir a programação no início da jornada, momento em que seleciona o tipo de peça e abastece o robô da matéria-prima a ser processada.

Embora prefira não revelar os valores, Rausis diz que a economia com os salários e benefícios dos três funcionários e o ganho de 10% em produtividade são suficientes para cobrir o custo do aluguel do robô. Não houve demissões, entretanto, já que os antigos ocupantes da função foram remanejados internamente, evitando a necessidade de novas contratações em outros setores.

Ponta do Lápis

O contrato fechado entre a Pollux e a Docol tem três anos de duração, dos quais já transcorreram os dois primeiros. “Os resultados são muito positivos e certamente ampliaremos a atuação dos robôs. Já mapeamos 14 postos que deixarão de existir por conta disso”, conta Rausis. A empresa só não decidiu ainda se vai repetir o esquema do aluguel ou se vai comprar os novos robôs. “Colocando na ponta do lápis, talvez a compra seja melhor do ponto de vista financeiro. Mas o contrato de aluguel inclui a tranquilidade de ter todo o acompanhamento”, descreve o coordenador de produção e processos da Docol.

A crescente presença de robôs na indústria é um fenômeno mundial, embora cinco países sejam responsáveis, juntos, por 72% do mercado: China, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e Alemanha. De acordo com o relatório mais recente da Federação Internacional de Robótica (IFR), foram vendidas no ano passado 381 mil unidades de robôs industriais no mundo, 30% a mais em comparação ao ano anterior e 114% acima da marca de cinco anos antes. A receita obtida, contudo – US$ 16,2 bilhões –, representou um crescimento menor, de 21%. Isso significa que o custo médio dos projetos caiu de US$ 46 mil para US$ 42,5 mil, demonstração de que há um processo global de “popularização” dos robôs.

Há, como no caso da Docol, funções que podem e devem ser totalmente substituídas por robôs, em decorrência dos riscos à saúde, da insalubridade ou simplesmente por serem enfadonhas demais. Outras tantas continuarão, ao menos por enquanto, dependendo parcialmente da capacidade de decisão e de discernimento das pessoas de carne e osso. Diante dessa constatação, a tendência do mercado é o desenvolvimento de robôs colaborativos, também conhecidos como cobots, concebidos para situações em que a máquina não consegue substituir completamente a atuação humana, mas pode assumir a parte mais mecânica e repetitiva dessas atribuições, trabalhando lado a lado com as pessoas de forma segura. Os cobots ajudam, assim, a superar o mito de que a adoção de robôs representa pura e simplesmente a supressão de empregos – ao contrário, a relação com os “colegas” humanos será cada vez mais de parceria e complementariedade. 

“Os cobots são mais fáceis de implantar dentro da lógica que já existe na linha de produção”, diz o fundador e diretor técnico da Fersiltec, de Timbó, Jean Carlos Ferrari. Fundada em 2007 como oficina de manutenção de máquinas industriais, a Fersiltec foi se voltando aos poucos à tecnologia e se especializou em desenvolver projetos de automação para clientes de menor porte, quase todos sediados em Santa Catarina. A empresa oferece em seu site um e-book – “Robótica colaborativa para pequenas empresas” – em que apresenta uma planilha de cálculo para que o interessado possa mensurar o retorno do investimento. “Toda empresa, independente do porte, tem necessidade de reduzir custos e dificuldade para encontrar, treinar e manter pessoas que realizam tarefas repetitivas”, afirma Ferrari.

Entre os clientes da empresa está a Mueller Fogões, também de Timbó, que instalou o primeiro robô, ainda em 2014, para realizar um processo de solda, e depois comprou mais seis com a missão de carregar chapas metálicas para dentro de uma prensa – evitando, assim, os riscos da realização manual da tarefa. Novos quatro robôs deverão ser instalados este ano para interligar essa linha de estamparia já automatizada ao depósito. A nova missão dos equipamentos em desenvolvimento será retirar as peças da pilha e depositá-las sobre a esteira que as levará aos robôs responsáveis pela operação da prensa. “E os investimentos certamente não vão parar por aí”, diz o analista de processos Eduardo Nau, responsável pelos projetos de automação e inovação da Mueller Fogões. “Pretendemos instalar robôs colaborativos na linha de montagem, que junta algumas tarefas repetitivas e desgastantes com outras que por enquanto ainda dependem do trabalho humano.” Ele estima que até 20% dos 320 postos da linha de montagem poderão ser eliminados a curto prazo.

Por Maurício Oliveira

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