Distância do conflito Rússia-Ucrânia, avanço em reformas, elevação de preços das comodities, estabilidade institucional e tendência de que grandes compradores globais busquem diversificar suas fontes de insumo são fatores que favorecem o país

Florianópolis, 23.5.2022 - A reindustrialização é uma grande oportunidade de crescimento econômico que o Brasil terá no equilíbrio geopolítico que se estabelecerá após a pandemia e o conflito Rússia-Ucrânia. A opinião é do economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, que, nesta segunda (23), proferiu palestra no 18º Congresso Catarinense de Rádio e TV, promovido pela Associação Catarinense do setor (Acaert). A palestra de Megale foi realizada no evento com o apoio da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC).

“Grandes compradores globais vão querer diversificar suas fontes de insumo. [Nas últimas décadas], a indústria mundial ficou muito dependente de insumos provenientes da China e provavelmente vai procurar novos fornecedores, que podem ser dos próprios países centrais, mas podem ser do Brasil”, afirmou Megale. “O Brasil está distante do conflito, tem estabilidade institucional, vem avançando em reformas e melhorias no ambiente de negócios e se beneficia da alta dos preços de commodities. Produz o que o mundo quer comprar e está muito bem posicionado para o próximo ciclo de industrialização mundial”, acrescenta.

Santa Catarina também tem vantagens nesse novo cenário, analisa o ex-secretário de Desenvolvimento da Indústria e Comércio e diretor de Programas no Ministério da Economia (2019-2020) e ex-secretário municipal da Fazenda de São Paulo  (2017-2018). “O estado tem uma indústria muito forte, muito diversificada. Quando a gente anda pelo interior, vê indústrias internacionais”, afirma, ao destacar também a força da economia de serviços. “É uma economia balanceada, então eu sinto Santa Catarina muito bem posicionada para primeiro superar esse momento de dificuldade que o mundo está passando e o Brasil também deve passar, mas principalmente para a retomada que deve ocorrer a partir de meados do ano que vem”, constata.

O economista observa que as grandes indústrias brasileiras não devem nada em produtividade às suas concorrentes internacionais. “O gap da produtividade brasileira está nas empresas de médio e pequeno porte”. Neste caso, ele aponta a necessidade de investimentos na educação profissional e em tecnologia da informação. “As tecnologias estão aí e as empresas precisam de gente qualificada. A grande dificuldade é atrair pessoas capacitadas em internet das coisas, IoT, chips, essas coisas. E é necessário ter estratégia muito bem clara de investimento ao longo do tempo. O mundo passa por revoluções produtivas muito rápidas. Se ficarmos nos modelos de produção lá de trás, dificilmente vamos conseguir competir no mercado internacional”, disse

Na palestra, Megale fez um balanço da economia mundial nos últimos dois anos. Lembrou das incertezas do início da pandemia e da retomada das atividades econômicas, facilitados, em sua análise, pelos programas iniciais de apoio dos governos às famílias e empresas, pelas tecnologias que permitiram o trabalho e o comércio on-line e pelas vacinas, disponíveis a partir de outubro de 2020. Essas estratégias, segundo ele, forçaram a elevação mundial da inflação, gerada especialmente pelos custos de produção e falta de produtos. Esse fluxo inflacionário estava sendo administrado pelos bancos centrais dos países desenvolvidos, permitindo o que ele chamou de “pouso suave”, com a retirada gradativa dos estímulos, elevação das taxas de juro e o consequente retorno da estabilidade econômica.

No entanto, esse processo foi interrompido em 2022 pelo conflito Rússia-Ucrânia e pelo severo lockdown chinês, que prejudicaram o suprimento mundial de grãos e petróleo, entre outros itens. “Passamos a ter um novo choque de commodities, que intensificou o processo inflacionário”, comentou

No âmbito da economia brasileira, Megale considera que o Banco Central iniciou mais cedo que outros países a política de elevação de juros para conter a inflação e, por isso, essa estratégia deve começar a ser alterada nos próximos meses. Ele entende que as candidaturas à Presidência da República devem sinalizar suas propostas de política econômica, em especial quanto às reformas.

“A reforma tributária é a mãe de todas as reformas. É o maior peso sobre o empreendedor, sobre as empresas brasileiras, sobre todo mundo. A burocracia tributária e a incerteza tributária pesam muito. A simplificação é essencial, talvez seja o maior problema para melhorar o custo Brasil e o ambiente de negócios para investimentos no país. Acho que a reforma tributária está madura e vejo ambas as candidaturas que lideram as pesquisas eleitorais para a Presidência da República fazendo uma reforma no próximo governo”.

Megale acredita que a reforma administrativa ainda demore para ser implementada. “Ela também é fundamental, porque vem para melhorar a eficiência do setor público, precisa de mais engajamento da população, precisa de mais debate. Acho que estamos no caminho, mas talvez demore um pouco mais”, pontuou. 

“A infraestrutura brasileira é ainda muito deficiente”, destacou. “Estamos avançando bastante com as concessões, com os novos marcos legais, mas tudo isso demora. O Brasil avançou em portos e aeroportos, mas ainda falta muito especialmente do ponto de vista do transporte. Eu acho que esse deveria ser um eixo prioritário do próximo governo”.

 

Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina - FIESC
Gerência Executiva de Comunicação Institucional e Relações Públicas - GECOR

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