Por meio de cooperativas, milhares de produtores rurais de Santa Catarina obtêm padrões de excelência e integram uma das principais cadeias de fornecimento global de alimentos.

Aos 26 anos, o engenheiro agrônomo Jhonatan Orsolin mantém uma rotina intensa na propriedade da família, a Granja Orsolin, em Palmitos, no Oeste catarinense. Às quatro da manhã ele já está na lida, coordenando a produção de leite, de frangos e as lavouras de soja e milho. Além dos três funcionários, trabalham ao seu lado a companheira, Simone, o pai, Deocir, e a mãe, Marli, que também sempre foi muito atuante, mas precisou diminuir o ritmo por conta do tratamento recente contra um câncer.


Jhonatan assumiu o comando da propriedade no final de 2016, depois de ter passado quase uma década longe de Palmitos – ele se formou técnico em agropecuária no Colégio Agrícola de Camboriú (atual Instituto Federal Catarinense) e fez faculdade de Agronomia na Udesc em Lages. Foi no retorno à cidade natal que começou a namorar Simone, a vizinha de porteira que ainda era criança quando ele saiu de Palmitos.


A trajetória de superação da Granja Orsolin, desde que o empreendimento foi iniciado pelo avô de Jhonatan, exemplifica a importância da cultura do cooperativismo para Santa Catarina. Trata-se de um dos 8.800 associados da Cooper A1, a mais antiga cooperativa agropecuária catarinense em atividade ininterrupta, e um dos 70 mil produtores integrados à Cooperativa Central Aurora Alimentos, 85% deles tecnicamente classificados na categoria de agricultura familiar.


Terceiro maior conglomerado agro­industrial do Brasil, com faturamento anual de R$ 9,1 bilhões e 28.300 empregados, a Aurora completou 50 anos em abril. A Cooper A1 foi uma de suas oito cooperativas fundadoras, das quais apenas três ainda estão em atividade. Para entender bem esta história é preciso voltar a 1933, quando a cooperativa de Palmitos foi criada por um grupo de 18 agricultores. Depois de passar, ao longo do tempo, por algumas incorporações e fusões com outras cooperativas da região, o nome original, Sociedade Cooperativa Mista de Palmitos, deu lugar no ano 2000 à denominação Cooper A1 – “A” de agropecuária e “1” por ser a mais antiga do Estado.


O processo de absorção de outras estruturas e de sinergia com antigas concorrentes contribuiu para que a A1 expandisse gradualmente seu raio de ação. Hoje está presente em 18 municípios de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Para ter dimensão de sua importância econômica, basta dizer que a cooperativa é a principal pagadora de impostos em 16 desses municípios.


Quando o avô de Jhonatan iniciou a propriedade, em 1959, foi o apoio da cooperativa que lhe permitiu sair de uma situação inicial precária. “Ele começou na raça, sem muita técnica, sem dinheiro, sem materiais, em terras que até então eram improdutivas”, lembra o neto. “Sozinho ele certamente não teria conseguido seguir adiante.”


Com a morte do avô, as terras foram divididas entre os oito filhos. O pai de Jhonatan herdou 15 hectares e, com a participação permanente da cooperativa no fornecimento de insumos, na assistência técnica e na garantia de compra, conseguiu diversificar e aumentar a escala de produção, além de ampliar a propriedade para os atuais 67 hectares.


Quando Jhonatan deixou a cidade natal para estudar, já havia estabelecido fortes laços com a A1. Enquanto o pai ocupava diversos cargos na cooperativa, incluindo uma cadeira no Conselho Fiscal, a mãe estava sempre envolvida com os cursos e eventos voltados às mulheres. “Cresci no meio cooperativista e é aqui que vamos ficar, eu e minha família, assim como foi com meu avô e com meu pai”, afirma o engenheiro agrônomo.


Após o retorno a Palmitos, ele e Simone tiveram a oportunidade de participar de programas de sustentabilidade da cooperativa e de cursar a Escola A1 do Leite, um curso gratuito oferecido aos associados. Além de disseminar conhecimentos técnicos, o curso ajuda os produtores a administrar melhor o negócio, com base em ferramentas de aumento da produtividade e da lucratividade.   

 
Sob a administração de Jhonatan, a produção de leite da Granja Orsolin já aumentou sete vezes, chegando à marca de 720 mil litros nos últimos 12 meses. O salto se deu pela estratégia combinada entre ampliação da força de trabalho (além dele e de Simone, foi contratado mais um funcionário), aumento do número de vacas – de 22 para 78 – e também da produtividade média, que foi triplicada e chegou a 32 litros diários por animal. “Conseguimos esse resultado principalmente por conta da adoção de técnicas de confinamento e investimentos em conforto animal e sanidade”, descreve.

 

Laços fortes | Enquanto planeja a construção de mais uma casa na propriedade – por enquanto todos estão dividindo o mesmo teto –, Jhonatan diz querer abrir mão completamente da força de trabalho dos pais. “Eles já fizeram muito e agora merecem descansar”, diz ele, cujo único irmão seguiu outro caminho profissional e mora no Paraná. Quando decidiu buscar a formação como engenheiro agrônomo, já vislumbrando um futuro à frente do negócio familiar, Jhonatan contou com todo o incentivo do pai – que, com o apoio da cooperativa, conseguiu ampliar a propriedade enquanto o filho estudava.


“A cooperativa é uma parceira dos produtores para todas as horas, dos momentos mais difíceis às melhores fases, como deve ocorrer num bom casamento. Esse espírito de colaboração e ajuda mútua cria laços muito fortes”, afirma o presidente da A1, Elio Casarin, líder de um time de 1.250 funcionários diretos. “Ao contribuir diretamente para o aumento gradual da renda dessas famílias, a cooperativa torna mais dinâmica a economia regional e eleva a qualidade de vida no campo”, acrescenta.


Foi o desejo de unir cada vez mais forças que impulsionou a ideia de uma organização central para receber e processar a produção de várias cooperativas do Oeste catarinense. Seria o caminho para que a região deixasse de ser apenas fornecedora de matéria-prima e passasse a industrializar as proteínas animais e vegetais, aumentando assim o valor agregado do trabalho das famílias da região.  


Foi assim que surgiu, em 1969, como decorrência principalmente da iniciativa de dois visionários, Aury Luiz Bodanese e Setembrino Zanchet, a Cooperativa Central Oeste Catarinense, conhecida inicialmente como CooperCentral, sediada em Chapecó. A partir de 1972, os produtos da CooperCentral adotaram a marca Aurora, que seria incorporada ao nome da cooperativa.


Logo ficou evidente o quanto o conceito de cooperativa central contribuiria para proporcionar ganhos de escala e maior poder de negociação às cooperativas associadas, além da possibilidade de desenvolvimento unificado de programas e projetos de interesse comum. Para se consolidar como referência mundial em tecnologia de processamento de carnes, status do qual desfruta hoje, a Aurora precisou exigir das fornecedoras – as cooperativas que a compõem – o cumprimento de altos padrões técnicos e sanitários. Ofereceu, para isso, todo o apoio técnico especializado. Esse processo foi um círculo virtuoso que contribuiu fortemente para elevar o padrão de qualidade do trabalho no campo em Santa Catarina.


“Pode-se resumir essa trajetória de meio século como a vitória do trabalho e da perseverança sobre toda sorte de desafios e dificuldades”, diz o presidente da Cooperativa Central Aurora Alimentos, Mário Lanznaster. Hoje a Aurora pertence a 11 cooperativas filiadas. Com oito plantas frigoríficas de suínos, sete plantas de aves e uma indústria de lácteos, a cooperativa central processa, a cada dia, 20 mil suínos, 1 milhão de aves e 1,5 milhão de litros de leite, e amplia unidades para elevar o processamento de suínos e aves. Em Chapecó, a capacidade duplicou a partir de outubro, passando para 10,5 mil cabeças por dia. Os mais de 800 produtos da marca, feitos à base de carne, leite, massas e vegetais, são distribuídos para 100 mil clientes em todo o Brasil e exportados para 60 países.


“Toda essa potência do cooperativismo catarinense será essencial para os desafios que a indústria global de proteína animal enfrentará nas duas próximas décadas”, projeta o diretor executivo da Associação Catarinense de Avicultura (ACAV) e do Sindicato das Indústrias de Carne e Derivados no Estado de Santa Catarina (Sindicarne), Jorge de Lima. “Num estado 90% composto por pequenas propriedades, o cooperativismo é a única forma viável de disseminar com eficácia os princípios mais avançados de tecnologia, automação, controle sanitário e produtividade”, acrescenta.

Por Maurício Oliveira

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