Startups e outras empresas de base tecnológica se tornam parceiras da indústria tradicional em sua necessária jornada de transformação digital.

Deu match! Diz-se isso quando duas pessoas que utilizam aplicativo de encontros curtem a foto um do outro e iniciam uma conversa que pode evoluir para um relacionamento. Mas dar match também é usado no contexto dos negócios, em situações de aproximação entre empresas que envolvem apresentação, curtida, encontro e, quem sabe, casamento (nesse caso, casamento aberto). Tem ocorrido com frequência crescente entre indústrias e startups, em um movimento que tende a acelerar a chamada transformação digital das empresas e a consequente elevação de seus patamares de produtividade e qualidade. “Este tipo de relação está na base do conceito de inovação aberta, em que os resultados são gerados a partir da interação entre os diversos atores que formam os ecossistemas de inovação”, afirma José Eduardo Fiates, diretor de Inovação da FIESC.


Grandes companhias veem mudanças acontecendo à volta e sabem que se ignorá-las perderão o passo e a posição no mercado. As transformações são tecnológicas, de comportamento, de processos e outras tantas difíceis de acompanhar, considerando que corporações normalmente se ancoram em modelos de negócios rígidos e ambientes controlados. Já as startups, em geral formadas por jovens nascidos no mundo digital e dispostos a correr riscos, precisam de dinheiro para pôr suas ideias em prática e de escala na aplicação de suas soluções para realizarem o objetivo de rápido crescimento. Nesses tempos, pode-se dizer que eles são feitos um para o outro.


“Em locais como São Paulo, que tem grande mercado consumidor, as startups olham mais para o consumidor final. Em Santa Catarina temos muitas oportunidades no segmento business to business”, diz Fiates. Foi com essa mentalidade que o jovem Pedro Fornari, hoje com 24 anos, cursou engenharia eletrônica na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), período em que criou a empresa RoadLabs, focada em desenvolver plataformas para o gerenciamento da conservação de rodovias. “Começamos a empresa em 2017 e entregamos a solução em 2018”, conta Fornari. Mas no universo acelerado das startups, novas oportunidades podem surgir a qualquer momento. De olho nelas, Fornari circulava pelos ambientes e eventos voltados à inovação, participando, em 2017, de um encontro promovido pelo LinkLab, iniciativa então recém-criada pela Associação Catarinense de Tecnologia (Acate).


Trata-se de um programa de inovação aberta, cujo objetivo é justamente conectar empresas a startups e universidades, centros de pesquisas, incubadoras e outros fornecedores de soluções. “Não existe uma resposta universal à questão de como inovar. O LinkLab é uma ferramenta desenvolvida para esse objetivo”, diz Silvio Kotujansky, vice-presidente de mercado da Acate e idealizador do projeto. A RoadLabs foi uma das startups pinçadas por Kotujansky e apresentada a uma das primeiras empresas a aderir ao programa, a Engie Brasil Energia, maior geradora privada de energia no País, que fez do espaço do LinkLab em Florianópolis um posto avançado de sua área de inovação.


De início não havia pontos óbvios de intersecção entre as soluções da startup e as demandas da companhia. Mas a equipe da Engie notou que a plataforma georreferenciada para registrar ocorrências como buracos ao longo de rodovias poderia ser a base de uma solução digital para a gestão de reservatórios de usinas hidrelétricas. Reservatórios chegam a ter 700 quilômetros de perímetro, onde surgem diversas ocorrências que precisam ser reportadas por equipes de campo e solucionadas por fornecedores de serviços, como concentração de algas ou cercas caídas. As ocorrências eram registradas na base da anotação em formulários papel.


Decidiu-se investir na produção de um piloto seguindo a metodologia de MVP, ou mínimo produto viável, na sigla em inglês. A vantagem é ir testando continuamente a solução ao mesmo tempo que ela é desenvolvida, avançando somente nas funcionalidades que dão certo. A lógica é de que é melhor o erro aparecer logo, para que seja rápido e barato corrigi-lo. “A maneira como a startup encara um problema é diferente de uma corporação”, diz Alexandre Zucarato, gerente de estratégia e inovação da Engie Brasil Energia. “A grande empresa funciona bem em situações em que há um escopo definido, mas não tão bem quando precisa fazer algo diferente”, afirma.


O projeto motivou uma pequena revolução nas rotinas da companhia, onde a estrutura hierarquizada faz com que, em geral, as demandas surjam de cima para baixo. Nesse caso foi diferente, com a mobilização começando na base e envolvendo gradativamente os usuários do sistema, que se comunicavam por meio de grupo de WhatsApp. Já a startup teve a oportunidade de conhecer de perto os processos da Engie e entender com precisão as “dores” do cliente. “Não se trata apenas de digitalizar um processo, mas de outro modo de olhar para o problema e enxergar pontos que podem ser melhorados”, explica Fornari, da RoadLabs.


A plataforma HidrOS permite a coleta de dados por meio de dispositivos móveis e o lançamento na nuvem, ao passo que equipes de serviços recebem as demandas por aplicativo. Dentre os resultados esperados estão a redução de até seis horas nos atendimentos de urgências e economia de 10% no custo dos serviços. Está em uso em três usinas e será estendido às demais 10 hidrelétricas da companhia.

 

Compensação | A Engie se relacionou com nove startups de diferentes segmentos, tendo obtido graus de sucesso variados nas interações – em alguns casos a solução proposta não “deu tração” e sequer chegou à etapa do MVP. É assim que inovação aberta funciona: os resultados de algumas iniciativas compensam as que não prosperam. Por trás do esforço está a preparação para as transformações estruturais por que passa o setor elétrico, com a introdução de tecnologias disruptivas. “A energia elétrica é a bola da vez. Somos hoje o que era o setor de telecomunicações há 10 ou 15 anos”, afirma Zucarato. Quem tem um smartphone no bolso e viveu a era da telefonia analógica sabe do que ele está falando.


Lógica semelhante leva empresas de diversos setores a buscarem a inovação aberta. Em pouco mais de dois anos, 90 startups se relacionaram com as 30 indústrias participantes do LinkLab. De acordo com a Acate, 42% dessas startups fecharam negócios. Além da unidade pioneira em Florianópolis, o programa foi levado para São José e em Joinville. “A ideia é expandir ainda mais o projeto e evoluir para o conceito de termos um único LinkLab distribuído”, diz Kotujansky.


O terreno é fértil. Santa Catarina é um celeiro de startups, empresas que podem ser definidas como aquelas que buscam crescimento rápido produzindo inovações em ambientes de incerteza. Nenhum estado possui uma densidade tão grande desse tipo peculiar de negócio, e uma série de iniciativas ajuda a erguer e fortalecê-los em diferentes estágios de maturação. A Fapesc, braço operacional da área de ciência e tecnologia do Governo, mantém programas de apoio a ideias no nascedouro, o que inclui a oferta de recursos financeiros sem reembolso e bolsas. O programa Sinapse da Inovação, sucedido pelo programa Centelha, apoiou a criação de quase 500 empresas desde 2008. Já o Sebrae catarinense, por meio do programa StartupSC, ajudou a erguer cerca de 200 empresas em etapas envolvendo da cocriação à capacitação. Mas apenas iniciativas como essas não bastam se, mais à frente, a conexão com o mercado não for proporcionada.


“Fomentar o surgimento de startups é um lado da moeda, mas há outro: elas precisam abrir mercado para reduzir seus índices de mortalidade. O desafio é conectá-las às empresas que compram as suas soluções”, afirma Carlos Henrique Ramos Fonseca, superintendente do Sebrae/SC. Foi para isso que o Sebrae instalou uma unidade do projeto SebraeLab, destinado justamente a fazer o match, junto à recém-inaugurada unidade do LinkLab em Joinville, no parque tecnológico Ágora. A intenção é facilitar a conexão de startups às necessidades de empresas de pequeno porte, que são público-alvo do Sebrae.


Fonseca destaca ainda a articulação com outras entidades para trazer a Santa Catarina o programa Nexos, uma iniciativa do Sebrae Nacional e da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec). Por meio do programa, grandes e médias empresas podem investir em startups com diferimento fiscal, utilizando a Lei do Bem. “É uma forma de canalizar recursos das indústrias para o nosso ecossistema e gerar inovações para elas”, diz Fonseca.

 

Hardware | Incubadoras, aceleradoras de startups e outros programas também fazem o papel de cupidos. A aceleradora Hards, ligada à Fundação Certi, foi criada este ano, passando a integrar o Instituto SENAI de Inovação (ISI) do Sapiens Park, em Florianópolis. O objetivo das aceleradoras é oferecer apoio financeiro, mentorias e outros empurrões para as startups ganharem escala. No caso da Hards, nascida da aceleradora Darwin Starter, que é focada em software, o objetivo é apoiar empresas de hardware. Vale destacar a importância de viabilizar esse tipo de startup porque as suas barreiras de entrada são elevadas, dado o investimento necessário em equipamentos. A primeira seleção garantiu até R$ 300 mil para cada startup aprovada, em troca de participação no capital societário. No ISI, as startups contam com uma fábrica de placas eletrônicas para o desenvolvimento de projetos.


Outra aceleradora em sintonia fina com a indústria é a Spin, de Jaraguá do Sul, que já acelerou mais de 50 startups desde 2015. Com capital em parte formado por family offices (gestores de recursos de famílias) ligadas a indústrias do Estado, seu modelo de negócios passa por levantar problemas junto a grandes empresas e buscar possíveis solucionadores no ecossistema. A iniciativa prosperou e o raio de conexões da Spin se ampliou com a abertura de unidades em Joinville e Blumenau em 2018 e em Curitiba e São Paulo este ano, ao passo que uma plataforma digital é preparada para ampliar as chances de match entre indústria e startups. O sucesso do negócio está associado à política de procurar inovação que traz retornos concretos. “Muita gente fala em futuro, mas nossa proposta é gerar soluções que melhorem as margens da indústria aqui e agora”, diz Beny Fard, CEO da Spin.

 

Aportes | Se já obtém reconhecimento em algumas grandes empresas, a entrada de startups não é fácil no conjunto das indústrias, que não entendem a forma como elas trabalham e geram valor e veem com reservas fornecedores ainda desconhecidos no mercado, com poucos clientes e o vocabulário repleto de termos em inglês. Tanto que uma pesquisa realizada pela Spin e a empresa A2C em 2019, com startups de todo o País, constatou que apenas 8% delas já receberam algum tipo de aporte da indústria. A pesquisa evidenciou que acesso ao capital e ao mercado são as duas maiores dificuldades apontadas pelas startups. Mas essa é uma barreira a ser vencida, pois as recompensas podem ser valiosas. “O setor de tecnologia tem que ver a indústria como fonte de recursos para o desenvolvimento de seus projetos”, afirma Alexandre D’Ávila da Cunha, presidente da Câmara de Tecnologia e Inovação da FIESC.


A oportunidade não vale somente para startups em estágios iniciais, pois mesmo negócios mais avançados podem encontrar problemas para resolver na indústria. Caso da Neoprospecta, empresa de biotecnologia instalada no Sapiens Park. O negócio começou como uma startup em 2010, quando os sócios, os irmãos Luiz Felipe e Luiz Fernando de Oliveira, faziam doutorado em Porto Alegre. Ao fim transferiram-se para Florianópolis, onde receberam aportes de investidores. A tecnologia desenvolvida, que encheu os olhos dos apoiadores, permite identificar milhares de tipos de bactérias em cada amostra por meio de sequenciamento de DNA e análise computacional. O alvo inicial era o combate a infecções hospitalares. Esse mercado, entretanto, não correspondeu às expectativas. “Então nos voltamos para a indústria de alimentos, que chega a perder de 10% a 20% de tudo o que produz por problemas de contaminação”, conta Luiz Fernando.


Os problemas começam nas fábricas e aparecem no supermercado ou na hora do consumo, na forma de embalagens estufadas, mau cheiro, cor estranha, gosto ruim ou mal-estar de consumidores, gerando uma série de custos. Em exportações, lotes inteiros podem ser devolvidos. Ocorrências podem fechar fábricas. Além de identificar os tipos de bactérias presentes, a solução da Neoprospecta utiliza planta baixa das unidades para localizar com precisão a concentração dos inimigos invisíveis. O resultado final é visualizado em uma plataforma no conceito de business inteligence, para facilitar a tomada de decisão. Mais de 100 indústrias passaram a usar a solução, e a receita deve superar os R$ 5 milhões em 2019, crescimento de mais de 60% sobre o ano anterior. “Esta é apenas uma pequena fração do potencial deste mercado”, destaca Luiz Fernando. É também uma amostra do poder multiplicador da interação entre jovens empresas inovadoras e a indústria.

Por Vladimir Brandão, com reportagem de Mauro Geres

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