Pablo Felipe Bittencourt
Economista-chefe da FIESC e professor da UFSC
O comércio internacional atravessa uma mudança estrutural, marcada por maior incerteza, uso crescente de barreiras e fragmentação das regras globais. Historiadores dos longos ciclos econômicos indicam que a disputa entre Estados Unidos e China tende a inaugurar, e não encerrar, um período prolongado de restrições ao comércio, como já ocorreu no final do século XIX, quando tarifas elevadas se disseminaram a partir das grandes potências. Nesse ambiente, acordos construídos ao longo do tempo e sustentados por institucionalidade robusta ganham valor estratégico para a indústria. Caso concluídos os trâmites necessários à sua entrada em vigor, o acordo Mercosul–União Europeia poderá oferecer uma avenida mais segura e previsível, com diferentes pistas para distintos perfis exportadores. O caminho para o desenvolvimento não está na pista da simples ampliação de volumes exportados, mas na via da sofisticação produtiva e captura de valor nas cadeias industriais.
Uma das vias que tendem a ser naturalmente ocupadas no âmbito do acordo é a das cadeias de valor baseadas em commodities, fundamentais para a indústria, mas estruturalmente limitadas como vetor de desenvolvimento. A outra pista, mais estreita, exigente e com maior retorno potencial, é a da captura de valor industrial por meio da hipersegmentação de mercado, especialmente diante da demanda europeia por bens manufaturados e semimanufaturados mais sofisticados. Para trafegar por essa rota, escala e custo deixam de ser suficientes: os “veículos” precisam incorporar engenharia, padronização, certificações, rastreabilidade, sustentabilidade verificável e diferenciação de produto, atributos que dependem de decisões industriais, investimentos produtivos e coordenação ao longo das cadeias.
Esse potencial de desenvolvimento segue amplamente subutilizado, apesar de a globalização já ter fornecido a base material ao revolucionar a logística internacional, com avanços nos sistemas de frio, no transporte aéreo e na coordenação digital das cadeias produtivas. O que antes era economicamente inviável, como atender, em poucos dias, mercados europeus sofisticados com pequenas produções especializadas, inclusive de bens perecíveis, tornou-se uma prática corrente. Nesse contexto, torna-se possível capturar mais valor e dinamizar setores de tecnologia madura por meio de estratégias voltadas a nichos específicos e exigentes da demanda europeia, abrindo espaço concreto para o fortalecimento do desenvolvimento regional e para uma melhor distribuição dos ganhos ao longo das cadeias produtivas.
É fundamental destacar, contudo, que a construção dessas competências não decorre automaticamente do acordo comercial, nem emerge de forma espontânea do acesso preferencial ao mercado europeu. Ela exige coordenação estratégica e intencionalidade clara por parte de empresas, associações setoriais e políticas públicas, orientadas explicitamente para a captura de mais valor por unidade exportada. Sustentabilidade verificável, inovação aplicada, engenharia de precisão, design, rastreabilidade e padronização sanitária não são subprodutos naturais do comércio, mas resultados de escolhas conscientes, investimentos persistentes e mecanismos de governança capazes de alinhar toda a cadeia produtiva a objetivos comuns. Sem esse esforço deliberado e consistente, o acordo tende a apenas aprofundar padrões já existentes de especialização; com ele, pode se tornar um instrumento efetivo de transformação produtiva e de desenvolvimento regional sustentado.
A produção dinamarquesa de alimentos funcionais, por exemplo, se tornou referência ao combinar pesquisa nutricional de ponta, design de produto e políticas públicas que favoreceram inovação e sustentabilidade. O desenvolvimento de ingredientes com benefícios específicos e de marcas que comunicam confiança científica exigiu a articulação entre universidades, indústrias alimentares e distribuidores, além de decisões claras sobre rotulagem, certificação e produção responsável. Para isso, toda a cadeia teve de ajustar suas práticas produtivas e de controle, gerando uma vantagem competitiva baseada não em preço, mas em confiança e identidade, cujo valor agregado mais elevado é mais bem distribuído nas cadeias de valor.
Outro exemplo é a Áustria, que mostrou que uma vocação florestal secular pode virar vantagem competitiva global quando a produção se transforma em engenharia e design. A partir de tradições regionais de manejo e marcenaria, empresas e clusters optaram por investir em painéis engenheirados, certificações ambientais e parcerias com centros de design, convertendo madeira em soluções construtivas e mobiliário de alto padrão. Isso exigiu sincronizar serrarias, fabricantes de componentes, designers e distribuidores em processos e controles de qualidade para garantir peças com relato de origem, sustentabilidade e sofisticação.
Isso vale para a produção de lácteos neozelandeses, que evoluiu de um modelo puramente volumétrico para o foco em produtos diferenciados e com ingredientes premium. Há exemplos de estratégias assim no Brasil e que já começam a dar sinais de resultados positivos, como os cafés especiais no Paraná, cacau no Sul da Bahia, havendo potencial claro em frutas frescas, vinhos, queijos, móveis e outros.
A lição central desses exemplos é clara: o desafio do Brasil não é explorar melhor suas vantagens comparativas naturais, mas não ficar prisioneiro delas. Em um comércio internacional mais fragmentado, o acordo com a União Europeia deve servir como um propulsor da aceleração da construção deliberada de competências produtivas voltadas a mercados nichados e altamente exigentes. A avenida aberta pelo acordo Mercosul–União Europeia só será plenamente aproveitada se o país produzir veículos à altura dessas pistas: cadeias de valor capazes de transformar recursos naturais em bens sofisticados, com alto valor agregado e melhor distribuição de renda ao longo do sistema produtivo. Sem esse salto qualitativo, o Brasil poderá até incrementar exportações, mas se desenvolverá pouco.
