Filipe Colombo nasceu no mesmo dia em que seu pai comprou a pequena empresa que se tornaria a Anjo Tintas, assim batizada em homenagem à chegada do bebê

A ligação entre a Anjo Tintas e seu presidente, Filipe Colombo, 33 anos, vem literalmente do berço. Foi exatamente no dia do nascimento de Filipe que seu pai, Albertino, conhecido como Beto, comunicou à esposa Albany que havia dado um novo passo para o futuro da família que acabara de ganhar o terceiro integrante: a compra de uma pequena fábrica de massa plástica, produto usado em reformas de automóveis.

“Pequena fábrica” era um certo exagero para descrever o objeto do negócio. O patrimônio da empresa – que foi rebatizada de Anjo, sob inspiração da chegada do bebê – era composto por uma betoneira para fazer a mistura, uma concha para retirar o produto da betoneira e um caderno onde estava registrada a fórmula da massa plástica. A produção era de apenas 2 toneladas por mês, mas Beto estava convicto de que se tratava de uma boa aposta. 

Ele havia trabalhado em uma loja de tintas automotivas e sabia que a rapidez com que a massa plástica perdia a validade – em três meses o produto endurecia na embalagem – era um grande problema para os revendedores. A situação se tornava ainda mais complicada porque ali, na região de Criciúma, os revendedores dependiam de marcas que vinham de São Paulo. Assim, boa parte da vida útil era consumida no transporte.

Beto pensou que se ele conseguisse produzir uma boa massa localmente, poderia oferecer um diferencial aos revendedores locais: a substituição das unidades que estivessem prestes a vencer. Até então, os lojistas ficavam no prejuízo quando parte do estoque perdia a validade. 

A primeira ação de Beto ao comprar o negócio foi testar a massa com os funileiros da região. Ouviu da maior parte que o produto não era dos melhores. Ele foi, então, mudando sutilmente as quantidades dos ingredientes da fórmula, sempre voltando aos testes práticos com os profissionais do ramo após cada ajuste. 

Quando a nova fórmula foi finalmente aprovada, Beto percorreu os revendedores da região com dois trunfos. O primeiro era uma lista de 20 funileiros que tinham testado e aprovado o produto. O segundo era a garantia de substituição gratuita das unidades que se aproximassem do vencimento. A estratégia foi um sucesso e fez a demanda crescer exponencialmente. Ao completar um ano, a nova empresa havia multiplicado por dez a produção.

Filipe crescia junto com a Anjo. Durante a infância, a empresa era um ambiente para brincadeiras. Na adolescência, ele até pensou em se tornar jogador de futebol e foi guitarrista de uma banda de rock e reggae que chegou a gravar dois CDs. No final das contas, contudo, decidiu fazer Administração e começou a trabalhar oficialmente na empresa do pai, como trainee, ao completar 18 anos. O mesmo caminho foi seguido pelo irmão Rodrigo, quatro anos mais novo, que também trabalha na Anjo desde os 18. 

“Meu pai deu plena liberdade para que a gente escolhesse o que queria fazer, mas não teve jeito: adoramos estar aqui na empresa”, afirma Filipe. Ele pretende agir da mesma forma em relação aos filhos Theo e Lucca, de seis e três anos. “A prioridade para mim sempre vai ser a felicidade deles”, diz.

Quando decidiu que ia mesmo trabalhar ali, Filipe teve que se submeter a algumas regras impostas por Beto. “Na primeira vez que o chamei de ‘pai’ dentro da empresa, ele me puxou num canto e disse: ‘Aqui não sou teu pai, sou o Beto, como sou para todos os outros. Se me chamar de pai mais uma vez aqui dentro vai ser demitido na hora’”, lembra Filipe, divertindo-se com a história. “Foram muitos anos trabalhando juntos e usando ‘Beto’. Ainda estou me reacostumando a chamá-lo de pai”, acrescenta.

Filipe passou por todos os setores da empresa enquanto cursava a universidade à noite. Depois de formado, ficou sete meses acompanhando as equipes de venda Brasil afora – nesse período, eram três semanas de viagens para cada semana em casa. “Conheci praticamente todos os estados do País. Esse mergulho me fez entender a riqueza da diversidade e como é importante estar aberto para o diferente”, conta. 

Veio, então, outra experiência marcante e definidora: a realização, durante dois anos – 2011 e 2012 –, do MBA com foco em gestão estratégica e inovação na Hult International Business, em São Francisco, nos Estados Unidos. O curso incluiu módulos de um mês em meio em Xangai, na China, e em Dubai, nos Emirados Árabes. Nesse período, para não se afastar do cotidiano da empresa, ele tornou-se responsável pelas redes sociais da Anjo. 

Quando voltou ao Brasil, Filipe assumiu a direção de marketing e inovação da empresa e entrou na reta final de preparação para assumir a presidência. Beto já havia anunciado, muito tempo antes, que se retiraria do comando executivo ao completar 50 anos. Dito e feito: em julho de 2013, o fundador transferiu-se para a presidência do Conselho de Administração, passando o bastão ao primogênito.

A chegada de Filipe ao comando coincidiu com a definição de um planejamento estratégico para a década seguinte, com previsão de 122% de aumento na receita. Tudo indica que o objetivo será alcançado com dois anos de antecedência. A Anjo fechou o ano passado com faturamento de R$ 489 milhões e projeta crescimento de 25% neste ano, mesmo com todas as dificuldades da economia. Um dos segredos é o lançamento constante de novidades. Entre as mais recentes estão uma linha de impermeabilizantes com garantia vitalícia e uma tinta esmalte para aplicação direta sobre a ferrugem. 

Com 380 funcionários e uma rede de 80 representantes comerciais espalhados pelo País, a empresa tem quatro unidades fabris – três em Criciúma e uma na vizinha Morro da Fumaça – e três Centros de Distribuição em diferentes regiões, sediados em Bragança Paulista (SP), Aparecida de Goiânia (GO) e Vitória de Santo Antão (PE). 

A atuação se dá em quatro segmentos. O automotivo, com uma série de produtos relacionados ao processo de repintura de veículos, é o carro-chefe, responsável por 43% do faturamento no ano passado. A Anjo se tornou também referência em flexografia – fabricação de tintas para impressão de rótulos plásticos, usados em produtos como garrafas PET –, segmento que já responde por 33% do faturamento. As linhas imobiliária e industrial detêm, juntas, uma fatia de 24% da receita. 

Um dos orgulhos de Filipe é o projeto Anjos do Futsal, que atende mais de 1.200 crianças e adolescentes em 21 cidades. O projeto começou há 18 anos com uma ideia simples para afastar as crianças dos perigos das ruas: aulas de futsal em troca de notas boas na escola. Ele próprio foi um dos participantes pioneiros. Hoje, diz com orgulho que mais de 11 mil outras crianças já passaram pelo projeto, que agora envolve parcerias com as prefeituras e com a Unesc, universidade que cede os professores. 

Por Maurício Oliveira

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