Identificada por seus prédios altíssimos e luxuosos, Balneário Camboriú é a face mais vistosa da retomada do setor em Santa Catarina, que puxa consigo diversos outros setores industriais.

Os sete quilômetros de orla da Praia Central de Balneário Camboriú guardam um dos pedacinhos de terra mais valorizados do Brasil. Com prédios cada vez mais altos, de apartamentos milionários, o pequeno município do Litoral Norte segue atraindo gente disposta a pagar em média R$ 17 mil por metro quadrado de área privativa – valor que à beira-mar pode mais que dobrar. Em território tão diminuto e cobiçado, a indústria da construção civil praticamente não sentiu os efeitos da recessão dos últimos anos. Enquanto em Santa Catarina mais de mil empresas e pelo menos 25 mil vagas de emprego foram fechadas desde 2014, construtoras que atuam na cidade apenas tiveram, basicamente, que negociar mais seus estoques e programar com mais cautela o lançamento de novas unidades.


É o caso das construtoras Procave e FG Empreendimentos. As duas atuam exclusivamente em Balneário Camboriú e na vizinha Itajaí – principalmente na Praia Brava, bairro que em geografia e no estilo de vida tem semelhanças com Balneário. Com abordagens diferentes para atender às altíssimas exigências de sua clientela, as construtoras avaliam que um dos trunfos do município é contar com um Plano Diretor muito tolerante em relação à verticalização e taxas de ocupação. “Temos uma zona de altíssimo interesse e muito pouco espaço. Os terrenos de frente para o mar formam uma área menor que um quilômetro quadrado. É a lei da oferta e procura, e a verticalização permite aproveitar melhor esse interesse”, analisa o gestor comercial da Procave, Clóvis de Albuquerque Filho.


Para o engenheiro Gustavo Simas, da FG, os edifícios de alto padrão já se tornaram uma atração à parte em Balneário Camboriú. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Regional de Blumenau (FURB) em 2009, ele conseguiu emprego na construtora três anos depois e, logo de cara, foi incumbido da tarefa de tocar as obras do primeiro prédio do País com mais de 200 metros de altura, o Infinity Coast.


A construção do arranha-céu, que deve ser concluída em dezembro, exigiu estudos e parcerias internacionais, como simulações em maquete em um túnel de vento na Inglaterra e válvulas de pressão importadas de Israel. O bloco de fundação do imóvel foi criado com nada menos que 900 caminhões de concreto. Também foi necessário realizar estudos junto com empresas como a Votorantim e a ArcelorMittal e também com professores doutores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) para resolver uma série de desafios logísticos da obra. Por exemplo: como bombear cimento acima do 50º andar e otimizar as subidas e descidas dos cinco elevadores de obra utilizados ao longo de sete anos de construção. “Muitas construtoras do País se interessam por Balneário Camboriú. Querem visitar as obras para conhecer as tecnologias e métodos empregados. Fora o turista, que também acha muito interessante ver no Brasil prédios desta altura”, revela Simas.


Mas não são apenas obras de engenharia que atraem tanto turismo – e dinheiro – para Balneário Camboriú. Desde a virada do século, o município se mantém no quarto lugar entre as cidades brasileiras com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Em setembro, um estudo da consultoria Urban Systems apontou o município como o mais seguro do Brasil. Atrelado à construção, o setor de serviços cresceu e se qualificou, com opções de balada, gastronomia, comércio, moda e cultura, fazendo com que a cidade deixasse de ser um destino apenas sazonal, recebendo anualmente mais de 4 milhões de turistas. Números que tendem a crescer com iniciativas como o projeto BC Port, um porto capaz de receber transatlânticos e levar mais 300 mil turistas por ano a Balneário Camboriú, cuja concessão pelo Governo Federal foi assinada em setembro.


Junte-se essas conquistas à beleza natural da região e está montada a fórmula de um objeto de desejo capaz de superar a mais forte retração econômica. “Em uma cidade dita ‘normal’, as pessoas casam, crescem, se separam, e buscam seus imóveis, mas uma crise afeta todo o mercado. Em Balneário, no entanto, há um universo muito maior de clientes, de todo o País, até do Mercosul. O impacto da crise foi menor aqui porque os setores que menos a sentiram, como o agronegócio, seguiram investindo seu dinheiro nos imóveis daqui. Quem tem poder aquisitivo pensa em Balneário Camboriú”, pontua Albuquerque, da Procave.

 

Menos desperdício | O valor médio de um imóvel residencial na cidade em 2019, segundo dados obtidos pela Brain Bureau de Inteligência Corporativa, fica na casa dos R$ 2,68 milhões. Mas quem deseja um apartamento em uma das três torres do Ibiza Towers, da Procave, com apartamentos a partir de 238 metros quadrados e uma área de lazer de quase 5 mil metros quadrados incluindo piscinas, academia, restaurante, quatro salões de festas, cinema e boate, tem que se preparar para investir algo entre R$ 5 milhões e R$ 8 milhões.


“Não estamos em um mar de rosas, mas ninguém deixou de investir nem de construir durante os anos de crise. O que aconteceu foi, no máximo, uma diminuição no ritmo das obras e dos lançamentos”, comenta o presidente do Sinduscon de Balneário Camboriú, Nelson Nitz. Houve quem enxergasse no aperto das contas uma oportunidade para rever processos e planos: “Qualquer negócio sempre precisa estar atento aos fatores externos. A crise não parou a empresa, mas aproveitamos a situação para reduzir desperdícios. Revisamos todos os orçamentos e buscamos novas tecnologias para melhorar a logística e trabalhar com os materiais certos, com menos perdas”, explica André Bigarella, diretor de obras da FG.


Balneário Camboriú é uma das “ilhas” com desempenho acima da média devido à demanda nacional e aos atrativos turísticos. “Fora isso, o cenário catarinense do setor da construção de edifícios continua com desempenho abaixo do usual, com índices ligeiramente acima da atividade registrada no mesmo período de 2018, o que sinaliza para uma recuperação”, avalia o presidente da Câmara para o Desenvolvimento da Indústria da Construção da FIESC, Paulo Obenaus.


O saldo de empregos dá sinais de tímido aquecimento: nos sete primeiros meses foi positivo em 6,9 mil vagas – quase dois terços delas voltadas para o segmento de construção de prédios, segundo o Observatório FIESC. “O segundo semestre começou com um crescimento mais robusto, com o Sindicato Nacional da Indústria de Cimento apontando que o desempenho do setor imobiliário é que vem sustentando o crescimento da indústria frente a um número de financiamentos para novas construções em trajetória de alta”, avalia o economista Paulo Zoldan, da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico.


Com a expectativa de cortes por parte do Governo Federal em programas como o Minha Casa Minha Vida e em obras de infraestrutura, a aposta no segmento de construção de edifícios para reaquecer o setor não é exclusiva de Santa Catarina. De acordo com projeções da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a venda e os lançamentos de unidades residenciais no País devem crescer entre 10% e 15% em 2019, número puxado por imóveis de médio e alto padrão. Em Santa Catarina, segundo dados da Brain, os municípios que depois de Balneário Camboriú possuem o maior valor médio para imóveis residenciais (em ordem, Itapema, Florianópolis e Itajaí) também foram justamente os que mais venderam unidades em 2019, entre as 13 cidades monitoradas pelo bureau (5.131, 9.892 e 7.217, respectivamente).

 

Cadeia produtiva | A construção foi um dos segmentos industriais que mais sofreu com a crise no Brasil. Desde 2014 o setor emendou uma série lamentável de quedas do nível de atividade econômica (veja o quadro) que se estendeu até 2018. Cerca de 23 mil empresas fecharam as portas e mais de 1,6 milhão de trabalhadores – um terço da força de trabalho do setor – foram demitidos entre 2014 e 2017.


Durante esse período, quem não estava dentro das “ilhas” representadas por cidades como Balneário Camboriú teve que procurar oportunidades fora da zona de conforto. A Trapp Ferreira Construtora, de Joinville, especializada em projetos industriais, expandiu o leque de atuação para sobreviver. “Entramos com força nos segmentos educacional, residencial e institucional. Chegamos a pensar em fechar, mas a diversificação e a manutenção de um setor comercial forte foram essenciais para a empresa superar a crise”, afirma Luis Alexandre de Souza França, gerente comercial e sócio da companhia.


Baseado no maior polo industrial do Estado, França observou de perto o impacto da crise na construção em outros segmentos que compõem a sua vasta cadeia produtiva. “Trata-se de um mercado bastante interligado. Seja a ampliação de uma fábrica de carros, a instalação de uma Amazon no País ou obras do Minha Casa, Minha Vida, tudo isso é construção. Todos vão contratar mão de obra e comprar metais sanitários, concreto, aço, tubos, esquadrias. Cada item desses vem de uma fábrica com uma determinada capacidade de produção. Quando o setor enfraquece, leva junto toda essa indústria. Sem um volume constante de produção ela fica sucateada e, parada, custa muito caro para ser mantida”, analisa o empresário.


A estabilidade e a audácia das construtoras de Balneário Camboriú garantiram mercado para indústrias da região e do País mesmo durante os anos mais duros de recessão. Em um prédio como o Infinity Coast, por exemplo, foram usadas cerca de 2 mil toneladas de aço, 25 mil metros cúbicos de concreto e 55 mil metros quadrados de revestimentos cerâmicos, porcelanatos e pastilhas – este último, o equivalente a 0,2% da produção anual da Portobello, uma das maiores empresas do ramo no Brasil. “A indústria da construção civil é considerada o termômetro da economia por conta das suas conexões produtivas e interdependência com os demais setores. Com o nível de confiança empresarial aumentando, as reformas políticas acontecendo e os investimentos estrangeiros aportando, acreditamos que teremos um ciclo virtuoso nos próximos anos”, avalia Paulo Obenaus, da Câmara da FIESC.


Nesse novo ciclo certamente a cidade de Balneário Camboriú seguirá se destacando. A construtora Embraed, por exemplo, assinou no final de setembro uma parceria com Tonino Lamborghini, herdeiro da famosa marca italiana de supercarros, para construir um prédio com sua marca e design. A Construtora Pasqualotto & GT prepara-se para lançar na Barra Sul o Yachthouse Residence Club, que deve tirar o posto do Infinity Coast de prédio mais alto do Brasil, com 81 andares e 275 metros de altura. Nessa corrida pelas alturas, a FG já vem construindo o One Tower, com 70 pavimentos e 252 metros de altura, mas anunciou recentemente estudos e cálculos estruturais para levantar na cidade um arranha-céu de 100 andares, ultrapassando a barreira dos 300 metros de ‘altitude’. “Hoje temos dez obras em execução simultânea, e vamos começar mais três ainda em 2019. Isso nos coloca entre as dez maiores construtoras do País. E temos terrenos no município para seguir nesse ritmo por mais 30 anos. Tem muita coisa para acontecer”, revela André Bigarella, da FG.


Por Leo Laps (texto e fotos).

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