Joinville lidera a abertura de vagas em Santa Catarina, mas o novo ciclo demanda trabalhadores mais qualificados para indústrias em novo patamar tecnológico

A Busscar, montadora de ônibus de Joinville que faliu em 2013 e reiniciou as operações no ano passado sob gestão do Grupo Caio Induscar, que tem sede em Botucatu (SP), contratou somente nos primeiros meses deste ano mais de 200 funcionários para o parque fabril, praticamente dobrando o quadro funcional. Integrante do grupo de admitidos, Daniel Ricardo Schroeder, 32 anos, está se sentindo de volta para casa. “Já havia trabalhado aqui entre 2005 e 2011. Participo desta retomada com muita esperança, pois amo o que faço”, afirma o trabalhador, que é casado e pai de um garoto de quatro anos. Ele vê na oportunidade mais do que uma chance de melhorar as condições de vida de sua família. “Participei da montanha-russa da empresa. Então hoje é uma satisfação poder contribuir para a sua consolidação.” 

Da nova configuração das linhas de montagem da Busscar saem exclusivamente ônibus rodoviários – a empresa recebe os chassis e faz a montagem completa dos veículos. Atualmente a indústria opera com capacidade para montar três unidades por dia, entregando a maior parte em países como o Chile, Peru, Uruguai, Guatemala e Equador. Em sua primeira passagem pela companhia, Daniel começou como auxiliar de produção, passou a montador de componentes e foi conhecendo todos os detalhes dos ônibus. Com isso se tornou apto a fazer a revisão final dos veículos, serviço que inclui a atenção a detalhes como a vedação a água e pó, vibrações, rangidos e testes de funcionamento em estrada. Tendo o ensino médio completo, Daniel planeja voltar a estudar e definiu a gestão de pessoas como área de interesse. “Quero auxiliar meus líderes para que voltemos à época boa da empresa”, afirma. Se os planos dele e da companhia derem certo, a Busscar, que assumiu a razão social Carbuss Indústria de Carrocerias Ltda, prevê fechar o ano com cerca de mil funcionários em Joinville.

O ambiente otimista – porém não eufórico – reinante na companhia condiz com os movimentos de aumento de produção e contratação de trabalhadores na indústria catarinense, que se intensificaram neste ano. Contrariamente à tendência nacional, a indústria de transformação de Santa Catarina entrou em 2019 elevando os volumes de produção: 3% de crescimento, contra retração média nacional de 2,7%. Para dar conta do serviço, nos cinco primeiros meses a indústria do Estado apresentou um saldo positivo de 29,5 mil vagas de empregos. Maior do que este, somente o saldo da indústria de São Paulo (40,3 mil), estado que tem população seis vezes maior que a de Santa Catarina. O desempenho da indústria é o grande responsável pela taxa de desocupação relativamente baixa. Em março os desempregados em Santa Catarina correspondiam a 7,2% da população, enquanto a média nacional era de 12,7%.

Joinville, a maior cidade do Estado, é a que mais se destaca na geração de empregos. Considerando todos os setores da economia, o saldo foi positivo em 6.204 vagas no período de janeiro a maio. O crescimento se reflete nos atendimentos prestados pelo Sistema Nacional de Emprego (SINE) e pelo Centro Público de Atendimento aos Trabalhadores (Cepat) de Joinville. As estatísticas dos dois órgãos de encaminhamento de mão de obra demonstram que as contratações tiveram um ritmo mais forte no primeiro trimestre, refrearam em abril e maio e no início de junho voltaram a subir. “A maior parte das contratações registradas pela indústria foi feita por empresas terceirizadas de grandes fabricantes como Tupy, Amanco e BMW”, explica Magnus Klostermann, coordenador do SINE em Joinville.

O levantamento demonstra que, até maio, em Joinville, o setor de material elétrico foi o que mais contratou, seguido pela área mecânica e de plásticos. E funções como torneiro, torneiro CNC, fresador, soldador, montador e extrusor, dentre outras, foram as mais ofertadas e preenchidas. Apesar de terceirizadas, Magnus assinala que as vagas abertas são vínculos formais, via CLT, e a maior parte desse pessoal foi absorvida por empresas de médio porte, com cerca de 60 funcionários.

Considerando todo o Estado de Santa Catarina, o maior número de vagas abertas nos primeiros cinco meses do ano veio do setor têxtil, seguido pelo de alimentos e o de madeira e móveis. A boa largada da indústria têxtil e de vestuário, entretanto, não se sustentou ao longo do semestre e as contratações perderam o fôlego. O principal motivo apontado por empresários do setor é que o inverno começou quente demais, inibindo as vendas e a produção. Em outros setores, o ritmo de contratações seguiu positivo. “Em nossa região a indústria está elevando a produção e contratando”, afirma Edvaldo Ângelo, presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Timbó. 

João Martinelli, presidente da Associação Empresarial de Joinville (ACIJ), associa o crescimento passado e o futuro do emprego às reformas estruturais que são discutidas em Brasília. Tanto que a retomada começou logo após a aprovação da reforma trabalhista no ano passado, mas o ambiente ainda persistente de falta de previsibilidade e de segurança segura o ímpeto dos investimentos e das contratações. A opinião é compartilhada por Célio Bayer, vice-presidente da FIESC para o Vale do Itapocu. “A indústria espera o cenário ficar mais claro, com a aprovação e o encaminhamento das reformas”, avalia.
Ainda há um bom caminho a percorrer para a recuperação dos empregos perdidos durante a longa crise, que fechou diversas indústrias de médio e grande porte que empregavam centenas de trabalhadores. Somente em Joinville 12 mil postos foram cortados, de acordo com a ACIJ, e quem chegou ao mercado de trabalho depois disso não está encontrando muitas oportunidades. A oferta de primeiro emprego para jovens na faixa de 18 anos, por exemplo, é muito rara. “As empresas estão dando preferência a pessoas com curso técnico e trajetórias mais longas nos empregos anteriores”, diz Klostermann, do SINE.
 

Gráfico emprego


Capacitação

A falta de qualificação dos trabalhadores é um entrave para a recuperação. Joinville é um dos polos industriais da chamada revolução 4.0, o que abre oportunidades para profissionais e empreendedores com alto nível técnico, mas por outro lado reduz a oferta de empregos no chamado chão de fábrica. “A modernização está começando a dispensar as pessoas sem qualificação, e como todas as indústrias se modernizam de um jeito ou de outro, elas acabam não conseguindo mais novas colocações”, constata Martinelli, da ACIJ, informando que as agências de emprego da cidade têm mais de 800 vagas em aberto porque não são aplicáveis a pessoas sem qualificação.

O problema aflige a Four Soluções, empresa criada em 2005 pelos sócios Rafael Schapitz e Cleiton Silva para atuar no ramo de automação industrial, e que no decorrer do tempo agregou atividades como segurança de máquinas, eficiência energética e o desenvolvimento de células robotizadas. Desde a fundação, a empresa sofre com a carência de profissionais qualificados. “Faltam engenheiros com especialização em programação de CLP (controlador lógico programável). A academia não olha o que o mercado realmente precisa. Aí, o próprio aluno tem que buscar a capacitação depois”, diz Schapitz, que é o diretor de engenharia da empresa.

A Four teve rápido crescimento até 2013, mas sobreveio a crise e os negócios minguaram e mudaram de perfil, com alguns clientes buscando apenas simplificar processos ou atribuir mais atividades a operadores. A retomada foi sentida a partir do segundo semestre do ano passado, quando diversas indústrias voltaram a demandar novos projetos. Um dos clientes, a Embraco, líder mundial em compressores para refrigeração, fez uma aquisição de 90 robôs e a Four está participando da implementação das linhas no Brasil e no México. No total, 27 projetos foram desenvolvidos e implementados em 2018 para clientes da linha branca, indústria automotiva, cosméticos e cerâmica, dentre outros, e neste ano a projeção é crescer ao menos 30%.

Para dar conta da demanda Schapitz já contratou funcionários para áreas complementares e tem vagas em aberto para profissionais de campo, para programadores e projetistas elétricos, funções normalmente exercidas por engenheiros de automação. Com um total de 15 funcionários diretos, se todos os projetos se concretizarem, mais outros cinco terão que ser contratados. A este grupo se juntam também prestadores de serviços e MEIs com contrato exclusivo com a empresa.
Helena Fernandes Dittert, 24 anos, era trainee na Four Soluções e recentemente foi efetivada na vaga de programadora. Natural de Curitiba, ela se mudou para Joinville, em 2014, para cursar Tecnologia em Mecatrônica Industrial no Instituto Federal de Santa Catarina. E se mostra muito satisfeita com a conquista de seu primeiro emprego com carteira assinada. “A faculdade me abriu as portas para o conhecimento necessário da área”, sintetiza.

Helena ganha espaço rapidamente na empresa, tanto que já foi a responsável pela programação de máquinas para clientes e agora realiza projetos mais complexos, para empresas de porte internacional. Ela tem clareza sobre o caminho a seguir para ter sucesso na carreira: investir na conquista de novos conhecimentos. “Estou cursando licenciatura em Educação Profissional e Tecnológica e depois farei uma pós na área de automação”, projeta a jovem Helena.

 

Vagas nas fábricas
Estados com maiores saldos na indústria em 2019
SP    40,3 MIL
SC    29,35 MIL
RS    20,9 MIL
MG    13,4 MIL
PR    7,5 MIL
Obs.: Acumulado no ano, jan-mai; Fonte: Observatório FIESC e Caged

Cidades industriais contratam
Destaques positivos e negativos em SC

Joinville        6.204
Blumenau        3.407
Chapecó        2.961
Laguna            -218
Balneário Camboriú    -823
Florianópolis        -1.603

Obs.: Saldo total, acumulado de jan-mai de 2019
Fonte: Observatório FIESC e Caged

Setores em alta
Saldo das indústrias que mais contratam em SC

Têxtil e vestuário    8.539
Alimentos e bebidas    4.293
Madeira e mobiliário    2.739
Química        2.461
Material elétrico    2.285

Obs.: Acumulado no ano, jan-mai; 
Fonte: Observatório FIESC e Caged



Por Mauro Geres

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