Reposicionamento do SESI e SENAI tem objetivo de se alinhar às novas demandas da indústria e a um mundo do trabalho em transformação

O filósofo Heráclito de Éfeso, que viveu no século 5 a.C., deu grande contribuição para a cultura universal com a sua Teoria do Devir. A frase que a sintetiza, popular nos dias de hoje, é: “Tudo o que existe está em permanente mudança ou transformação”. A revolução tecnológica em curso não deixa dúvidas da assertiva, pois propaga ondas de transformação para as mais diversas dimensões da vida humana, em especial a do mundo do trabalho. Cabe à educação preparar os profissionais para esse cenário em que as mudanças – desde sempre existentes, como bem observou Heráclito – agora acontecem em velocidade estonteante. É neste contexto que os serviços de educação oferecidos pela FIESC por meio do SESI e do SENAI passam, eles próprios, por grandes transformações. “O objetivo é desenvolver competências e preparar as pessoas para um mundo do trabalho complexo, competitivo e em grande medida, incerto”, afirma Claudemir Bonatto, diretor de educação do SESI e do SENAI de Santa Catarina.

As mudanças começaram internamente. A partir de 2019 a gestão da educação, antes dividida entre SESI, SENAI e IEL, passou a ser integrada, o que na prática derruba as fronteiras existentes entre educação básica, profissional e corporativa. Um bom exemplo de como a gestão integrada confere melhores resultados para trabalhadores e indústrias é o formato Educação de Jovens e Adultos (EJA) Profissionalizante. Ela oferece ao mesmo tempo a educação básica e a qualificação profissional. É muito mais interessante para trabalhadores adultos do que a mera formação básica, pois eles também se qualificam para o mundo do trabalho, ganhando empregabilidade. Para as empresas, o formato permite alinhar com mais clareza os seus projetos educacionais aos objetivos estratégicos. Após um período de projeto piloto, a EJA Profissionalizante passou a ser oferecida em larga escala em Santa Catarina.

Prestígio

O poder transformador da modalidade se revela em histórias como a de Jéssica Podiatsky, de 27 anos. Casada, mãe de três filhos, ela começou a trabalhar há três anos na Rosa Maria, fabricante de roupas fitness de Brusque, com 135 funcionários. Sem ter completado o ensino médio, Jéssica ocupou postos nas funções mais básicas da fábrica: a revisão (verificação de falhas em produtos) e costura. Até que na própria empresa surgiu a oportunidade que mudaria sua vida. A Rosa Maria reúne os funcionários com profissionais do SESI nas ocasiões de abertura de novos cursos na cidade, estimulando a adesão dos trabalhadores, e assim Jéssica foi apresentada à EJA Profissionalizante, que em um ano lhe permitiria concluir o ensino médio e se qualificar como assistente administrativa. Ela e uma amiga de infância que também havia deixado a escola se motivaram mutuamente, e as duas resolveram encarar o desafio.

“Foi puxado, mas com o apoio da empresa e da família consegui me formar”, conta Jéssica, que se sentiu prestigiada já no evento de formatura. Recebeu os parabéns pessoalmente da proprietária da empresa, Onésia Liotto, e da gestora de RH Maiara Degan. As oportunidades surgiram na sequência. Graças à qualificação obtida, Jéssica conquistou uma vaga na área administrativa, para cuidar dos estoques. Começou a lidar com números e sistemas complexos, acumulando novas responsabilidades. Mas também ganhou confiança, passou a receber elogios pelo trabalho e aumentou seus rendimentos em cerca de 50%. “Não tenho do que reclamar”, garante. 

“Steam”

Já no ensino médio do Sistema FIESC, uma das novidades é a adaptação das escolas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que contempla o protagonismo dos alunos na escolha dos itinerários formativos e inclui a articulação do médio com o ensino profissional. Os jovens têm a oportunidade de acessar metodologias inovadoras, alinhadas a características do trabalho contemporâneo. A proposta é estimular raciocínio, criatividade e a resolução de problemas baseados em situações reais. Também são desenvolvidos temas como protagonismo e liderança, associados ao conceito de softskills, ou competências não cognitivas. Tudo é oferecido junto ao currículo regular e à formação técnica em informática, a exemplo do programa oferecido pela escola SENAI Conecte, de Florianópolis. Com 15 escolas espalhadas pelo Estado, a rede de ensino médio do SESI e SENAI é a maior do setor privado em Santa Catarina. As entidades estão se articulando para fornecer o módulo de educação profissional a outras escolas, públicas e privadas, que deverão se adaptar à BNCC e oferecer a opção aos alunos.

As escolas do SESI e SENAI adotam um conceito que está revolucionando a educação em várias partes do mundo: a metodologia Steam (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática). Disciplinas integradas envolvendo as cinco áreas, com ênfase nas ciências exatas e os alunos botando a mão na massa são algumas de suas características. A tendência nasceu nos Estados Unidos a partir da constatação de que a tecnologia era cada vez mais impactante para a sociedade e o setor produtivo, ao passo que a educação ignorava as transformações. O Steam está na essência das escolas de educação Maker do SESI, que proporcionam atividades para jovens no contraturno da escola com o objetivo de despertar o gosto pelas profissões tecnológicas (leia matéria subsequente). Também está na base de projetos envolvendo alunos do SESI e do SENAI, empresas e poder público que se reúnem em cidades como Fraiburgo, Rio do Sul e Tubarão em busca de soluções para problemas de suas comunidades. 

Autonomia

No ensino técnico, além de novas metodologias e a modernização de laboratórios, o esforço é para calibrar o perfil dos cursos às demandas setoriais e regionais das indústrias, levando-se em conta que as necessidades mudam substancialmente ao longo do tempo. Nesse sentido, as transformações na oferta de ensino superior são ainda mais profundas. As entidades da FIESC saem de um modelo de faculdades isoladas para a criação de um centro universitário. Nessa configuração, elas ganharão autonomia e flexibilidade para a criação de novos cursos. Já estão sendo formatadas graduações em engenharia de acordo com as vocações regionais do Estado: alimentos no Oeste, metalmecânica no Norte/Nordeste, têxtil no Vale do Itajaí, internet das coisas na Grande Florianópolis e mobilidade urbana e energias renováveis em Jaraguá do Sul. “O foco de todas as mudanças é a indústria, mas não podemos preparar pessoas para trabalhar somente no ambiente industrial. Diante da nova organização da economia e do trabalho, temos que preparar empreendedores que se integrarão às cadeias industriais como provedores de serviços e soluções”, diz Fabrizio Pereira, diretor da FIESC.

 

De olho no mercado
FIESC incorpora formatos e metodologias para novo mundo do trabalho

  • EJA Profissionalizante: Ampliação da oferta de ensino médio associado a formação profissional
  • Metodologia Steam: Com ênfase nas ciências exatas, integração de disciplinas e atividades práticas, posiciona os alunos em nova realidade do mundo do trabalho
  • Ensino Médio: Adaptação à nova Base Nacional Comum Curricular, com oferta de trilha de ensino técnico
  • Oficinas Maker e Robótica: Atividades de contraturno visam despertar o interesse pelas profissões tecnológicas
  • Superior: Criação de centro universitário e oferta de cursos de engenharia voltados às características econômicas de cada região do Estado

Por Vladimir Brandão e Leo Laps

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