O Estado não faz parte dos planos para o desenvolvimento logístico nacional, o que causa imensos prejuízos e falta de perspectivas. A realização de um planejamento sistêmico e integrado pode reverter o quadro

Diante da paralisia que toma conta da infraestrutura pode até não parecer, mas a verdade é que o Brasil tem um plano para orientar os projetos e investimentos em logística de transportes. Seu nome é Corredores Logísticos Estratégicos e foi desenvolvido em 2017 pelo então Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil. O governo mudou, mas para todos os efeitos o plano continua valendo. É a ele que recorrem os agentes responsáveis por definir projetos prioritários ou liberar verbas escassas nesses tempos de vacas magras. E é esse plano que deverá servir de mapa aos novos projetos de infraestrutura que serão conduzidos pelo setor público ou que serão alvos de concessões ou parcerias quando houver dinheiro e regras claras para a evolução do setor no Brasil.

A existência do plano, por si mesma, é positiva, sinal de que há norte para um setor tão carente e defasado. Mas um grave problema se revela diante da análise das páginas que o compõem: Santa Catarina é solenemente ignorada. Os grandes eixos logísticos representados por setas que um dia poderão se materializar em ferrovias, rodovias ou hidrovias cruzam os mapas de diversos estados, mas passam longe de Santa Catarina. A lógica econômica e espacial que gerou os tais eixos é cristalina: a vocação do País é a exportação de commodities agrícolas e minerais. Da indústria o plano pouco se ocupa, exceção feita ao setor automobilístico. Pior para o Estado, que tem a indústria mais diversificada do País, o maior número de industriários em relação à população e a segunda maior proporção do PIB gerado pela indústria dentre os estados.

“Santa Catarina é um estado diferente e talvez por isso pouco considerado nos planos do Governo Federal. Mas temos que mudar essa condição, caso contrário seremos ainda mais prejudicados”, afirma Egídio Antônio Martorano, gerente para assuntos de transporte, logística, meio ambiente e sustentabilidade da FIESC. Ele integrou as comitivas da FIESC que foram neste ano a Brasília levar essa reivindicação ao ministro da Infraestrutura e a deputados e senadores da bancada catarinense, dentre outras autoridades. Sendo também o secretário executivo do Conselho Estratégico para Infraestrutura de Transporte e a Logística Catarinense, formado por dezenas de instituições, e da câmara da FIESC dedicada ao tema, Martorano conhece profundamente o setor e os agentes envolvidos. Fato que o gabaritou a escrever o livro Proposta para a Inserção de Santa Catarina no Contexto Logístico Nacional, editado pela FIESC e lançado em junho.

::: Confira na íntegra o livro Proposta para a Inserção de Santa Catarina no Contexto Logístico Nacional

A obra detalha os planos nacionais e revela a exclusão de Santa Catarina, realizando interessantes associações entre essa condição e a situação atual da infraestrutura logística do Estado. Dentre as consequências da exclusão destacam-se o não recebimento de recursos, a falta de projetos, o deslocamento de investimentos para outros estados e o alto índice de acidentes fatais (veja o quadro). Mais do que revelar a negligência, entretanto, a proposta da FIESC é ir além e fazer com que os interesses estaduais passem a ser contemplados nos projetos nacionais. Para tanto o livro lança a proposta de Santa Catarina realizar um aprofundado levantamento de suas vocações e necessidades, para então definir as prioridades em infraestrutura logística que possam dar origem a um banco de projetos que facilitará o avanço do setor e a atração de investidores. A proposta é a realização de um planejamento sistêmico e integrado da macrologística catarinense que leve em conta as características da indústria e que tenha ênfase na intermodalidade.

A nova abordagem não especifica quais são as estruturas necessárias ao Estado – esse trabalho, no que diz respeito às demandas de curto prazo, já é realizado pela FIESC por meio de agendas anuais e o acompanhamento sistemático das obras e do estado das rodovias, dentre outras iniciativas. A ideia do livro é propor a todos os agentes envolvidos no assunto um mergulho muito mais profundo nas características do Estado e emergir com um planejamento de curto, médio e longo prazo que contemple as reais necessidades da indústria e potencialize as vocações econômicas de Santa Catarina – dentre elas a possibilidade de se consolidar como um dos grandes polos logísticos da América do Sul, em função da eficiência e da envergadura de seus portos.

Eis aí, aliás, um dos aspectos que mais chamam a atenção pela ausência no atual plano nacional para o desenvolvimento da logística. Os portos catarinenses, especializados em contêineres e responsáveis por quase 20% da movimentação nacional da modalidade, sequer são citados no documento. A exceção é o porto de São Francisco do Sul, mais voltado ao transporte de grãos, que no plano aparece subordinado ao chamado Complexo de Paranaguá, este sim considerado um corredor estratégico para o Brasil. Já os portos de Itapoá, Navegantes, Itajaí e Imbituba, que exportam a produção industrial e importam majoritariamente bens de capital e insumos para o setor, não são vistos como estratégicos.

Paradoxos

Pois é esta visão que deverá mudar a partir da elaboração de um planejamento sistêmico para o Estado. O papel dos portos é fundamental em um arranjo como esse, de acordo com Martorano. Eles estão entre os mais eficientes do Brasil, mas estão também entre os únicos que não são conectados à malha ferroviária – no mundo todo, aliás, os portos importantes são ligados a ferrovias. Estas, por sua vez, serão essenciais como parte de uma malha integrada, que inclua pontos de concentração de cargas e integração com outros modais, num sistema que seja capaz de dar conta das complexas cadeias de fornecimento da diversidade industrial de Santa Catarina.

Tome-se por exemplo o setor de carnes suína e de frango, concentrado no Oeste. É preciso trazer milho e soja da Região Centro-Oeste para alimentar os animais e escoar o produto final para a Região Sudeste (maior mercado consumidor) e aos portos (exportação). No entorno da agroindústria desenvolveram-se polos industriais para fornecimento de bens de capital e embalagens plásticas. Estes setores consomem insumos que vêm do Norte do País (alumínio, aço) e que são importados pelos portos (polímeros). Um sistema integrado bem planejado poderia azeitar todas essas conexões e tornar as atividades mais competitivas, fomentando novos investimentos.

Contudo, a falta de planejamento, tendo no lugar o improviso, leva a situações que a FIESC classifica como paradoxos: caminhões viajando mais de mil quilômetros para transportar milho, insuficiência de infraestrutura de armazenagem de grãos e o fato de um dos produtos mais exportados por Santa Catarina ser hoje a soja in natura, que viaja milhares de quilômetros desde outros estados, não fica em Santa Catarina para abastecer a agroindústria e atravessa o mundo para alimentar os plantéis de suínos e aves da Ásia e da Europa. Especializada em produzir valor agregado – no caso a carne – Santa Catarina é atropelada pela “vocação” brasileira de fornecedor internacional de produtos primários.

 Para incluir a vocação industrial catarinense no plano nacional, entretanto, não bastam voluntarismo e engajamento. Defender a ferrovia A ou B, a expansão do aeroporto X ou Y ou a duplicação de determinado trecho de estrada sem que tais propostas estejam em um contexto de eixos estratégicos de desenvolvimento não surte efeito. Mesmo porque, em muitos casos, um projeto analisado isoladamente não tem viabilidade econômica, ainda que possa pontualmente melhorar a vida de quem é diretamente atingido. “Um planejamento com consistência técnica possibilitaria uma defesa mais forte de nossos interesses no plano nacional. A falta de consenso enfraquece nossos pleitos”, diz Martorano.

Um dos maiores especialistas em intermodalidade do mundo, o instituto alemão Fraunhofer já realizou uma análise prévia das necessidades catarinenses e está apto a levar a cabo um estudo que embase o planejamento integrado e sistêmico da logística. O que falta é um alinhamento entre as lideranças de diferentes setores e regiões para que se possa formular um projeto que represente todo o Estado e potencialize suas características e vocações, sublinhando o retorno que o País terá com o investimento. É essa a intenção da FIESC com a edição do livro Proposta para a Inserção de Santa Catarina no Contexto Logístico Nacional.
 

Fonte de problemas
Consequências da não inclusão de SC no planejamento logístico nacional

Falta dinheiro
Recursos insuficientes são des­tinados a obras essenciais e menos da metade disso é de fato aplicado, o que torna dramática a situação de estradas como as BRs 470, 282, 280 e 163, dentre outras

Custos elevados
Equivalentes a 14% do fatura­mento das empresas, os custos logísticos em SC são mais altos do que a média nacional (11%) e do que nos EUA (8%), comprometendo a competitividade local e internacional da indústria catarinense

Vidas em risco
O índice de acidentes de trânsito por quilômetro nas rodovias federais em SC é o mais alto do Brasil. Além do elevado número de mortes, os custos médicos e previdenciários de acidentados somam R$ 2,5 bilhões/ano

Perda de oportunidades
Projetos vão para outros estados. Caso emblemático é a proposta de concessão rodoviária das BRs 282 (SC) e 153 (SC) em conjunto com a BR-476 (PR). Na prática, o arranjo tende a desviar a produção industrial do Oeste de SC destinada à exportação para Paranaguá (PR), em detrimento dos portos catarinenses. O mais lógico seria concessionar a BR-470 em SC, mas este não é considerado eixo estratégico 

Colapso da infraestrutura
Crescimento das cidades, do turismo e das operações portuárias (a capacidade de movimentação está sendo du­plicada) vai comprometer toda a infraestrutura de transportes de SC, que já opera bem acima da capacidade para a qual foi projetada  (Fonte: FIESC)


Por Vladimir Brandão

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