Empresas que tomam a decisão estratégica de explorar o mercado mundial por meio de exportações, importações ou parcerias são mais competitivas, resilientes e têm mais oportunidades de crescimento

A Agriness, de Florianópolis, conhecida por desenvolver sistemas de gestão para a suinocultura, realizou um feito notável: atraiu a atenção e os recursos da Cargill, gigante do agronegócio mundial, que se associou à empresa catarinense para atuar na nova frente de negócios de oferecer soluções digitais a pecuaristas em todo o planeta. A parceria estratégica, segundo o sócio e diretor Everton Gubert, é consequência de uma cultura que nem sempre esteve presente na Agriness. “No início éramos satisfeitos com o sucesso no mercado local”, afirma. A história da empresa começou na virada do século, quando um grupo de jovens recém-formados – três analistas de sistemas e um técnico agrícola – resolveu empreender. A maioria tem origem no Oeste catarinense e enxergou uma oportunidade na rusticidade com que os “colonos” de sua terra controlavam a produção. “Era tudo anotado em cadernos”, conta Gubert. Então criaram um software, que com o passar dos anos foi se tornando uma plataforma sofisticada e acabou atraindo a atenção de produtores de outros países da América do Sul. “Começamos a exportar por uma demanda dos clientes, mas não tínhamos isso como estratégia”, diz.

::: Confira outras matérias da Revista Indústria e Competitividade.

A mudança definitiva de mentalidade veio somente em 2012, quando Gubert soube por um cônsul de Israel que o país era um dos líderes mundiais em tecnologia para o agronegócio. A informação causou estranhamento, pois o pequenino e desértico país do Oriente Médio está longe de ser uma potência agropecuária. Mas ele ouviu do cônsul que é exatamente por causa da limitação do mercado interno e da escassez de recursos naturais que lá as empresas já têm que nascer globais, senão morrem. Foi assim que a sua “ficha caiu”. “Percebi que no Brasil não somos globais porque temos um grande mercado interno, pouca gente fala a nossa língua e não temos muitos estímulos para buscar o mercado internacional. Mas só temos a ganhar com a mudança de mentalidade”, atesta. Desde então a empresa voltou os olhos para o mundo, melhorando processos e produtos.

Inflexão
O desenvolvimento de um novo sistema, o Agriness 365, mirou o mercado internacional com a inovação de incluir, na mesma plataforma, soluções para a produção de suínos, frangos e gado de leite. Foi o chamariz perfeito para levar a Cargill a fechar negócio com a Agriness no ano passado. Em janeiro de 2019 as empresas inauguraram a chamada Innovation Factory em Florianópolis, que é o espaço dedicado ao desenvolvimento de soluções para o mercado mundial. Além de injetar recursos, a Cargill colabora com seu gigantesco conhecimento sobre pecuária acumulado em 153 anos de história e presença em mais de 70 países – o faturamento total da empresa supera US$ 120 bilhões. A ação está alinhada a uma decisão estratégica da multinacional, que criou uma unidade de negócios pa­ra impulsionar a transformação digital da pecuária, e saiu em busca de parceiros. “A Cargill quer ser líder na digitalização do setor em todo o mundo, e a tecnologia da Agriness é o meio para isso”, diz Gubert.

A incrível jornada da empresa, iniciada com modestas ambições e consagrada com perspectivas quase infinitas, foi definida por um ponto de inflexão fundamental: a decisão estratégica de se internacionalizar. Se decisões como essa se multiplicarem entre as empresas catarinenses, especialmente as de pequeno e médio porte, haverá um salto de competitividade no Estado. Foi com essa premissa que a FIESC criou o Programa de Internacionalização da Indústria de Santa Catarina, apresentado em janeiro. Os objetivos são disseminar a cultura de internacionalização e apoiar as indústrias em suas jornadas, por meio de uma série de ações que envolvem consultorias, cursos, workshops, acesso a informação e apoio ao comércio exterior. Para o primeiro ano o objetivo da FIESC é envolver diretamente 570 indústrias de setores, portes e regiões diversos, que participarão de encontros e terão avaliado seu grau de maturidade em relação à internacionalização, primeiro passo para a elaboração de planos estratégicos consistentes.

“Santa Catarina tem uma indústria qualificada e diversificada em condições de ampliar seu mercado por meio da internacionalização. Mas muitas empresas, principalmente de pequeno e médio porte, ainda precisam se preparar para isso”, afirma Mario Cezar de Aguiar, presidente da FIESC. Aguiar não se refere somente às possibilidades de exportações de produtos e serviços, mas contextualiza a questão em um cenário de concorrência que é global, e não mais local. Mesmo que não sejam exportadoras, as indústrias enfrentam a concorrência internacional no mercado doméstico, o que aponta para a necessidade de se buscar padrões mundiais de competitividade. Há ainda a inserção nas chamadas cadeias globais de valor, que fragmentaram a produção e ampliaram o fluxo global de bens intermediários, abrindo oportunidades de fornecimento ao exterior, a aquisição de insumos para produção local ou as duas coisas. “O processo de internacionalização deve ser uma decisão estratégica da empresa, que pode envolver exportação, importação e formação de alianças internacionais”, diz Maria Teresa Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da FIESC.

Uma boa demonstração de que as conexões globais fazem bem aos negócios mesmo quando o foco não está nas exportações é oferecida pela Gran Mestri, que produz diversos tipos de queijos nobres em um complexo de fábricas localizado em Guaraciaba, no Extremo Oeste de Santa Catarina. Sua estratégia é vender os produtos no mercado interno, onde queijos como grana padano, gorgonzola, pecorino e provolone custam muito mais caro do que em países da Europa. Para substituir os importados, entretanto, seu produto tinha que ser tão bom quanto os italianos, franceses ou portugueses. Então ele foi atrás do que há de melhor no mundo na produção de leite e queijos. Um indicador não científico do nível de inserção global da Gran Mestri é o tempo de voo de seu proprietário, superior ao de muito piloto de avião experiente. “Passei mais de 5 mil horas em voos internacionais e já visitei mais de 600 fábricas de queijo na Itália”, contabiliza Acari Menestrina.

Outro destino frequente é a Nova Zelândia, onde ele firmou parcerias para trazer conhecimento e tecnologia para a produção de leite a pasto. Introduziu no Oeste catarinense as mesmas gramíneas e raças bovinas utilizadas naquele país, que apesar de pequeno é o maior exportador mundial de leite. Montou um grupo de 350 fornecedores que garantem a qualidade da matéria-prima, um leite com nível alto de sólidos e baixo de bactérias, obtido a partir de um rebanho adaptado à região, bem alimentado e livre de doenças. Eles fornecem 150 mil litros por dia às unidades industriais da Gran Mestri. Nelas, tanto os equipamentos quanto as receitas vieram da Europa. Amostras de leite congelado foram levadas à Itália para que os ingredientes dos queijos fossem balanceados de acordo com as características da matéria-prima. A cada 60 dias mestres queijeiros italianos vão a Guaraciaba para acompanhar a produção e atestar as receitas dos produtos.

A receita de Menestrina, que se define como um apaixonado por leite e queijo, produtos a que está culturalmente ligado desde a infância – “segurava o rabo da vaca pra nona tirar o leite”, conta –, deu certo. Nos últimos anos as vendas têm crescido a um ritmo de 30% a 40%, e no fim de 2018 a empresa inaugurou a maior fábrica de gorgonzola e provolone da América Latina, após investimento de R$ 28 milhões. Com a maior capacidade, a projeção é que em cinco anos o faturamento da Gran Mestri chegue a R$ 500 milhões. “O consumo per capita de queijos diferenciados no Brasil ainda é baixo, há muito espaço para crescer”, aposta Menestrina.

 

Vocação multinacional

A globalização da economia transformou a lógica da produção industrial com a criação de cadeias globais de valor e grandes empresas que distribuem pelo mundo suas operações, incluindo projeto, fabricação, montagem e comercialização, além de absorver e desenvolver novas tecnologias. Empresas com sede em Santa Catarina que entenderam e se aprofundaram no processo tornaram-se líderes globais de suas respectivas cadeias de produção. A WEG, com mais da metade de sua receita obtida no exterior, seja por exportações ou operações em outros países; a Tupy, que vende mais de 80% da produção no exterior; a BRF, que tem em Santa Catarina sua plataforma para atuação global; e a Embraco são alguns dos exemplos. “O futuro da indústria passa pela globalização das cadeias de suprimento. Para aumentar a relevância do setor industrial brasileiro é importante promovermos um investimento contínuo em capacidade produtiva e pesquisa, desenvolvimento e inovação”, afirma Luis Felipe Dau, presidente da Embraco.

A empresa foi fundada em 1971 em Joinville para fornecer compressores à indústria brasileira de refrigeradores, que dependia dos importados. Hoje em dia possui unidades em sete países e vende para mais de 80, produzindo 37 milhões de compressores por ano, um quinto do total mundial. Dentre os fatores que permitiram à Embraco atingir esse patamar, Dau destaca a capacidade de inovação. Ela se traduz por números como as 1,2 mil patentes vigentes em todo o mundo e investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento de 3% a 4% da receita líquida. A resultante é a criação de tecnologias como a do primeiro compressor doméstico sem óleo do mundo e a que permite velocidade variável ao sistema e consequente redução de custos de energia. “Algumas das mais relevantes inovações da indústria de refrigeração nos últimos 30 anos foram lideradas pela companhia”, diz o executivo.

A localização da empresa é estratégica. “Fazer parte do ecossistema de inovação de Santa Catarina, que se tornou referência no País, é uma grande vantagem para nós”, afirma Dau. Foi a parceria com o laboratório Polo, da UFSC, vigente há quase quatro décadas, que viabilizou a produção do primeiro compressor brasileiro. A Embraco desenvolve projetos em conjunto com Institutos SENAI de Inovação, laboratórios da Udesc e da FURB e tem projetos apoiados pela Fapesc. Também há diversas parcerias internacionais, mas o seu maior centro de inovação e pesquisa fica em Joinville. “Primeiro desenvolvemos aqui e depois exportamos a tecnologia e o conhecimento para as demais unidades, que customizam as soluções para o atendimento dos mercados locais”, revela Dau. Adquirida no ano passado pelo grupo japonês Nidec, a Embraco, até então pertencente à norte-americana Whirlpool, inicia uma nova fase em sua trajetória de internacionalização.
 



Por Vladimir Brandão

Entre em contato

Tire dúvidas, envie sugestões e reclamações

Fale conosco