Exportações de autopeças amenizaram a travessia da crise do setor em Santa Catarina, que já começa a investir e a contratar para aproveitar a recuperação do mercado interno e conquistar novas posições no exterior

Uma das faces mais visíveis da retomada da indústria catarinense é o setor automotivo – que compreende, além das montadoras de veículos, os fabricantes de peças ou sistemas que fornecem às montadoras e ao mercado de reposição. O grupo de empresas catarinenses associadas ao Sindipeças, o sindicato nacional dos fabricantes de componentes de veículos, faturou R$ 4,5 bilhões em 2018, num crescimento de 20% sobre o ano anterior. O saldo de empregos foi positivo em mais de mil vagas e a perspectiva é que o crescimento continue, no embalo da recuperação da indústria automotiva brasileira e na elevação das exportações, atividade em que Santa Catarina vem se destacando. As vendas externas da indústria de autopeças do Estado representaram 8,2% do total nacional em 2018, ante 6% em 2017.

“Já somos o quarto maior estado em exportações e o único com balança comercial positiva”, afirma Hugo Ferreira, presidente da Câmara de Desenvolvimento da Indústria Automotiva da FIESC e diretor regional do Sindipeças. Com US$ 650 milhões em exportações, Santa Catarina só é superada por São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná. O superávit do Estado foi de US$ 180 milhões no ano passado.

As estratégias das principais indústrias estão alinhadas a esse cenário. Caso da Hengst Indústria de Filtros, multinacional de origem alemã instalada em Joinville desde 2006. Até seis anos atrás a unidade só fabricava filtros industriais, quando diversificou para o segmento automotivo passando a fornecer tanto a montadoras quanto ao mercado de reposição. O portfólio já soma 5 mil itens para as linhas leve e de pesados, e uma importante atualização na linha de produtos está em curso. “Vamos focar 100% nos chamados filtros energéticos, que são feitos com papel e plástico incineráveis e, dentro do conceito de logística reversa, vamos dar destinação correta ao óleo”, diz Luiz Mirara, diretor-presidente da operação na América Latina.

De acordo com o executivo, a evolução permitirá à unidade de Joinville atender projetos de carros de passeio de plataformas globais. Com isso, as exportações, que em 2018 representaram 20% dos negócios, pularão para 30% este ano e chegarão a 50% em 2020, de acordo com o planejamento da Hengst. Os percentuais se mostram ainda mais significativos porque a empresa como um todo está em franco crescimento. Em 2018, o faturamento cresceu 25% e a previsão é que se eleve, no mínimo, mais 20% este ano. Com 7 mil metros quadrados de área construída, a empresa opera em três turnos com 100% da capacidade instalada e recebe investimentos de R$ 7 milhões para elevar a produção em 30% e ampliar a área de estocagem. Os novos 2 mil metros quadrados abrigarão sete injetoras com alimentação automatizada operadas por apenas um trabalhador, atendendo os requisitos da indústria 4.0. Com 160 funcionários, projeta elevar em 10% o número de trabalhadores a partir do meio do ano, quando a nova ala entrar em funcionamento.

A conexão do setor com o mercado mundial não depende somente de multinacionais como a Hengst. Há diversas indústrias de origem local muito bem posicionadas nas cadeias globais de fornecimento para o setor automotivo. É o caso da Zen SA, de Brusque, maior fabricante independente e principal fornecedora de impulsores de partida no mundo. A companhia de mil funcionários exporta mais da metade do que produz para um conjunto de 100 países, o que se refletiu em taxas de crescimento de faturamento de 8% em 2016 e 2017 ante os anos anteriores. Em 2018 a receita cresceu 17%, elevando a taxa de ocupação da capacidade instalada para 85%. “Com mudanças em nosso posicionamento estratégico, conquista de novos clientes e atualização de linhas projetamos elevar em 13% o faturamento este ano”, informa o presidente Gilberto Heinzelmann.

A Tupy, de Joinville, também se mantém saudável graças à atuação internacional. A fundição produz blocos e cabeçotes de motores e peças para sistemas de freio, transmissão, direção, eixo e suspensão, desenvolvidos sob encomenda por fabricantes de caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e de construção, automóveis e motores industriais e marítimos. O presidente Fernando Rizzo afirma que a empresa conseguiu reduzir os efeitos da crise econômica do País graças à diversificação de mercados, clientes e segmentos de atuação.

“Atualmente, mais de 80% do resultado da empresa é proveniente de exportações. Entre os nossos clientes estão os grandes fabricantes mundiais de veículos comerciais e equipamentos que se beneficiam diretamente do crescimento global, dada a forte atuação nos segmentos de transporte de cargas, infraestrutura e agricultura”, detalha o executivo. O faturamento da Tupy cresceu 30% em 2018, e o lucro 77%.

Ociosidade

De fato, empresas exportadoras estão atravessando com menores dificuldades uma das piores crises já vividas pelo setor no Brasil. Entre 2013 e 2016 a receita total dos fabricantes de veículos e máquinas agrícolas e ferroviárias reduziu-se a menos da metade. A produção de automóveis despencou de 2,9 milhões de unidades para 1,7 milhão (veja os quadros). Muitas empresas quebraram ou pediram recuperação judicial. A notícia de que a GM estaria estudando encerrar as operações no País e o fechamento de uma fábrica de caminhões da Ford em São Bernardo do Campo (SP) dão sinais de que a situação ainda é crítica, apesar da recuperação parcial dos níveis de produção. Espera-se que somente em 2021 os níveis de 2013 sejam alcançados.

Só que no auge da crise brasileira, entre 2014 e 2016, o mercado mundial de veículos seguiu crescendo, e para atendê-lo as exportações de autopeças e de veículos de Santa Catarina subiram 44% no período, garantindo a operação das indústrias em níveis relativamente altos. De acordo com Hugo Ferreira, do Sindipeças, em 2018 a ociosidade média no Brasil foi de 31,5%, enquanto em Santa Catarina ficou entre 20% para as indústrias que exportam e 30% para as que só operam no mercado interno. “Em 2019 temos de seguir no mesmo caminho, com foco nas exportações, que é mais seguro e estável, e que nos força a aprimorar a qualidade dos produtos, fator que nos coloca em um nível mais alto de competitividade”, assinala Ferreira.

Por Mauro Geres
 

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